Mídia e Memória

Papel da comunicação na construção de narrativas e memória é tema no Fórum do Sul Global

Jornalistas refletiram sobre memória da Segunda Guerra Mundial, construção de narrativa e novas tecnologias

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Russia, India e Cuba debateram sobre a guerra comunicacional e as novas tecnologias | Crédito: Foto: Divulgação

Mais de 250 acadêmicos, jornalistas, intelectuais e dirigentes de movimentos populares de 31 países da Ásia, América Latina e África se reuniram em Xangai (China) para o Fórum Acadêmico do Sul Global 2025, cujo tema central é A vitória da Guerra Mundial Antifascista e a ordem internacional de pós-guerra: passado e futuro. A terceira edição do encontro, realizado nos dias 13 e 14 de novembro, teve como objetivo discutir os desafios do Sul Global.

Durante o encontro, especialistas refletiram sobre como o Sul Global pode fortalecer a cooperação internacional, preservando a memória histórica, promovendo a solidariedade entre os povos e consolidando a soberania tecnológica e digital frente aos desafios contemporâneos, como o imperialismo, o neocolonialismo e a influência das grandes empresas de tecnologia.

Dentro desse contexto, o painel A nova ordem da informação e comunicação para o século 21 e a paz mundial reuniu vozes de diferentes regiões para debater o papel da mídia e da informação na promoção da paz, da justiça global e da integridade histórica, conectando o legado da Segunda Guerra Mundial com os desafios do mundo contemporâneo.

A jornalista russa, Alina Salionova, correspondente da Russia Today na China, foi uma das participantes do painel

Memória histórica como forma de resistência

A jornalista russa, Alina Salionova, correspondente da Russia Today na China, abriu sua participação destacando a importância de preservar a memória histórica como ferramenta de resistência. Ela lembrou que a China foi uma das primeiras nações a levantar a bandeira da luta antifascista e que a vitória na Segunda Guerra Mundial moldou profundamente a ordem internacional centrada nas Nações Unidas.

Durante a guerra, a China e a União Soviética desempenharam papéis fundamentais no esforço antifascista. A China sustentou a principal frente de operações no Leste da Ásia, resistindo à ocupação japonesa por 14 anos e contribuindo decisivamente para enfraquecer o avanço do imperialismo japonês. Estima-se que cerca de 20 milhões de chineses, entre civis e militares, tenham perdido a vida nesse período.

Paralelamente, a União Soviética enfrentou as forças do Eixo na Frente Oriental e, em 1945, realizou a breve, mas estratégica, operação militar de seis dias contra o Japão. No total de seu esforço de guerra, aproximadamente 26 milhões de soviéticos morreram. Somados, os dois países sofreram cerca de 46 milhões de perdas humanas, o que corresponde a quase 48% de todas as mortes do conflito global, estimada em 95 milhões.

Apesar disso, a narrativa dominante nos Estados Unidos enfatiza que “eles venceram a guerra do Atlântico e do Pacífico”, minimizando o papel crucial da China e da União Soviética. A colaboração entre esses países não apenas fortaleceu o movimento antifascista, mas também moldou a ordem internacional do pós-guerra, centrada nas Nações Unidas, deixando marcas duradouras na memória histórica do Sul Global.

“Defender a verdade histórica é uma forma de resistência contra o esquecimento, a falsificação e a erosão da confiança entre nações”, afirmou.

Alina compartilhou histórias humanas da guerra, como o contato cultural entre soldados soviéticos e civis chineses. Ela relatou experiências de um episódio pouco conhecido da guerra: a rápida ofensiva soviética contra o Japão em 1945, que durou apenas alguns dias, conhecida como a Campanha da Manchúria. Um confronto rápido, mas estratégico, que ajudou a consolidar a vitória no teatro asiático da guerra. Durante a operação militar, os civis chineses saudavam os soldados soviéticos com a palavra “Shangguo”. Segundo a jornalista, essa expressão surgiu a partir do termo russo “Paraschenko”, que significa “muito bom”, e foi adaptada pelos chineses.

“Durante nossa pesquisa, entrevistamos veteranos que participaram da operação contra o Japão. Eles repetidamente mencionaram a palavra usada pelos civis chineses ao receber os soldados soviéticos: ‘Shangguo’. Essa expressão tornou-se um símbolo único do encontro cultural entre nossos povos.”

A correspondente russa também trouxe à tona a história das crianças chinesas que cresceram no Lar Internacional na União Soviética, um abrigo criado durante a Segunda Guerra Sino-Japonesa e a Segunda Guerra Mundial para proteger menores órfãos ou em situação de vulnerabilidade.

“Essas crianças escreveram cartas, prepararam sacos de pano para o Exército Vermelho, trabalharam em fábricas e sobreviveram às dificuldades da guerra”, relatou. O lar não só oferecia alimentação, cuidados médicos e educação, mas também tinha um papel simbólico de fortalecer a amizade entre China e União Soviética, transmitindo valores de solidariedade, cooperação internacional e memória antifascista às novas gerações.

“Preservar essas memórias é continuar protegendo a paz conquistada por nossos antecessores”

No lar, os pequenos aprendiam russo, estudavam história e cultura soviéticas, participavam de atividades coletivas e ajudavam no esforço de guerra. Ao crescer, muitos mantiveram vínculos com a China e com a União Soviética, tornando-se profissionais, militares ou intelectuais que reforçaram a memória da cooperação entre os dois países. Essa experiência simboliza a dimensão humana da guerra e da solidariedade entre ambas nações.

“Guardar a memória do que nossos antecessores viveram é também proteger a paz que eles conquistaram com suas vidas. É lembrar que a história não é apenas passado, mas um guia para a justiça e a solidariedade do presente”, enfatizou Salionova.

Construção de solidariedade e desafios da comunicação

A solidariedade entre os países do Sul Global também pautou a fala do jornalista cubano Randy Alonso Falcón, diretor geral da IDEAS Multimedios, frente às narrativas dominantes do Norte Global. Ele destacou que a comunicação não se resume à transmissão de notícias, mas envolve análise crítica das condições em que a informação é produzida. Segundo ele, os esforços conjuntos vão além da simples troca de informações, envolvendo análise crítica, pesquisa e criação de alternativas que deem voz às realidades do hemisfério sul.

“O verdadeiro desafio não é apenas informar, mas analisar as condições em que a informação é produzida. Precisamos construir um fluxo de notícias que seja mais justo e equilibrado, capaz de refletir os interesses e as lutas do Sul Global”, defendeu.

Falcón ressaltou que iniciativas recentes mostram como a colaboração entre agências de notícias e movimentos populares permite organizar uma frente de comunicação capaz de resistir ao imperialismo e ao neocolonialismo.

“Ao documentar as histórias de nossos povos e movimentos sociais, estamos construindo uma memória compartilhada que fortalece nossa identidade e autonomia frente às pressões externas”, afirmou.

A abordagem de Falcón evidencia que o jornalismo do Sul Global não pode se limitar à transmissão de fatos, mas atuar como ferramenta de emancipação, fortalecendo a memória histórica e a solidariedade entre os países do hemisfério sul.

Soberania digital e o futuro da mídia

Prasanth Radhakrishnan, jornalista independente e pesquisador de mídia da Índia, trouxe à discussão os desafios tecnológicos que afetam a autonomia do Sul Global. “A mídia do Sul Global precisa entender a inteligência artificial não apenas como ferramenta de produção de conteúdo, mas como meio de distribuição que pode moldar a percepção do mundo. É essencial que nossas comunidades tenham voz e participação nesse processo”, ponderou.

Prasanth detalhou desigualdades concretas, como o fato de que 90% do tráfego mundial de internet passa por cabos submarinos controlados por empresas do Norte Global. Em 2023, uma proposta mais barata de uma empresa chinesa para construir o cabo SeaWeMe-6 foi bloqueada por interferência dos EUA, evidenciando o domínio externo sobre infraestrutura estratégica.

Prasanth também destacou o papel da mídia do Sul Global na cobertura de processos sociais que vão além de eventos isolados. Ele explicou que no Sahel, região da África que inclui Burkina Faso, Mali e Níger, movimentos populares têm buscado construir novos modelos de soberania, fortalecendo a autonomia das comunidades diante de pressões externas, como a intervenção de potências estrangeiras e desigualdades globais.

“Nosso papel é registrar não apenas os eventos, mas os sonhos, as músicas e as histórias das comunidades. É isso que fortalece a narrativa do Sul Global”, defendeu.

Essa abordagem permite compreender melhor o Sul Global, mostrando que as transformações sociais são processos humanos complexos, que conectam política, cultura e resistência.

Ao documentar esses aspectos, a mídia contribui para fortalecer uma narrativa própria do Sul Global, distinta das visões simplificadas e estereotipadas frequentemente impostas pelo Norte Global. Esse registro detalhado das lutas e aspirações das comunidades locais se torna, para Prasanth, uma forma de construir solidariedade e reforçar a identidade e a autonomia regional.

O pesquisador indiano chamou atenção ainda para a aplicação da IA em educação e saúde em países do Sul Global, destacando que jovens já usam essas ferramentas para interpretar o mundo de forma profunda e pessoal, o que transforma a produção e a distribuição de informações.

“Precisamos nos preparar para disputar a batalha da informação, das ideias e das emoções em um terreno completamente novo. O Sul Global deve construir sua própria narrativa, baseada na dignidade, na autonomia e na liberdade de seus povos”, concluiu.

Editado por: Maria Teresa Cruz

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