O Fórum Acadêmico do Sul Global (Fasg) surge da “necessidade urgente de uma plataforma acadêmica para que intelectuais e pensadores do Sul Global se comuniquem e produzam conhecimento”, disse ao Brasil de Fato, Xiong Jie, o secretário-geral da entidade criada em 2023. O fórum realiza seu terceiro evento central nos dias 13 e 14 de novembro em Xangai, na China.
O encontro, sob o tema “A Vitória da Guerra Mundial Antifascista e a Ordem Internacional do Pós-Guerra: Passado e Futuro”, marca os 80 anos da vitória sobre o fascismo e da fundação das Nações Unidas.
A iniciativa, que começou em 2023 como uma conferência pontual, tem procurado se consolidar como plataforma permanente de produção de conhecimento entre intelectuais de países do Sul Global. Serão 258 participantes de 31 países da Ásia, América Latina e África.
Xiong Jie acredita que há um grande desafio na dominação dos quadros teóricos e metodologias pelo Norte Global. “Como você pode romper a hegemonia dentro da própria hegemonia? É difícil”, questiona. “A contradição primária que enfrentamos hoje ainda é a contradição entre um grupo imperialista decadente liderado pelos Estados Unidos e o Sul Global, especialmente a China. Você pode ver que a contradição está acontecendo em toda parte, de todas as formas diferentes. Tarifas, sanções, tudo isso.”
De conferência a comunidade intelectual
O Fasg teve sua primeira edição em 2023 sob o tema “Comunicação como Solidariedade”, reunindo pela primeira vez na China representantes de veículos de mídia como Press TV, teleSUR, RT e CGTN, além de mídias populares e mais de 100 pesquisadores de 15 países.
“Começamos com a ideia de que precisamos de uma plataforma onde os intelectuais do Sul Global possam conversar entre si e colaborar uns com os outros, produzir conhecimento a partir do Sul Global e para o Sul Global, potencialmente usando um conjunto diferente de metodologias, sem precisar acabar recorrendo à Europa e os Estados Unidos”, explica Xiong Jie.
Em 2024, o fórum evoluiu para sua segunda edição com o tema “O Sul Global e a Modernização Mundial”, reunindo mais de 250 convidados de 35 países e regiões.
Projetos concretos de cooperação
Nos últimos dois anos, a rede construída através das conferências anuais gerou múltiplos projetos de pesquisa colaborativa. Diferente de conferências acadêmicas típicas onde os participantes perdem contato após o evento, o Fasg busca desenvolver uma comunidade ativa com grupos de trabalho concentrados em temas específicos, explica o secretário-geral do fórum.
“A rede que construímos através das conferências é na verdade muito ativa, muito próxima”, destaca Xiong Jie. Entre os projetos em andamento estão pesquisas sobre soberania digital, teoria do desenvolvimento, e reforma do sistema financeiro e monetário.
Um exemplo concreto é a colaboração entre pesquisadores sul-africanos e chineses em torno da Iniciativa de Segurança Global.
O fórum também lançou em 2024 a série Livros do Sul Global, copublicada pelo Instituto de Pesquisa em Comunicação Internacional da Universidade Normal da China Oriental, Palgrave Macmillan e Orient Publishing Centre. A série inclui quatro subséries dedicadas a trabalhos de campo na China, produção acadêmica, traduções e estudos do Sul Global.
A necessidade de defender a história
A escolha do tema para 2025 reflete a preocupação crescente em países como a China e Rússia, com a reescrita da história e suas implicações para o Sul Global. “Precisamos voltar à história para entender”, argumenta Xiong Jie. “A contradição mundial atual é uma continuação do movimento socialista e da autoproteção dos imperialistas, iniciada em 1917, com a Revolução de Outubro”, diz.
“Acho que eles também sabem disso, estão tentando reescrever a história para dizer que os soldados estadunidenses e os soldados japoneses juntos terminaram a guerra; o que é muito interessante, eles terminaram a guerra contra quem?”.
Xiong Jie se refere a um comentário feito pela porta-voz do Departamento de Estado, Tammy Bruce, que em uma coletiva de imprensa em agosto deste ano afirmou que “há 80 anos, os Estados Unidos e o Japão concluíram uma guerra devastadora no Pacífico”, dando a entender que os países trabalharam juntos para pôr fim à guerra, quando o Japão foi derrotado militarmente.
O encontro é organizado pela Universidade Normal da China Oriental, Universidade de Joanesburgo e Instituto Tricontinental de Pesquisa Social, com participação da Escola de Comunicação da Universidade Normal da China Oriental e da Escola de Marxismo da Universidade Jiao Tong de Xangai.
A rede do Fasg já conecta mais de 500 acadêmicos, especialistas e profissionais de diferentes países, consolidando-se como um dos principais espaços de articulação intelectual entre países do Sul Global. A expectativa é que a terceira edição produza resultados ainda mais tangíveis na construção de alternativas teóricas e metodológicas para a compreensão dos desafios contemporâneos enfrentados pelos países em desenvolvimento.
