Nova Era

‘Há uma revitalização do pensamento do Sul Global’, diz Vijay Prashad em fórum na China

Diretor do Tricontinental afirma que há um novo ciclo no Sul Global, com crescente atenção para o que acontece na China

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Diretor do Instituto Tricontinental, Vijay Prashad, em entrevista ao Brasil de Fato, durante o Fórum Acadêmico do Sul Global, em Shanghai, China – 13 de novembro | Crédito: Jiang Chenxing

O historiador e jornalista indiano Vijay Prashad, diretor do Instituto Tricontinental de Pesquisa Social, afirmou que há uma “revitalização do pensamento, das ideias sobre o Sul Global”. Esta fase inclui crescentes esforços de entender as ideias na China. Vijay conversou com o Brasil de Fato durante o terceira edição do evento central do Fórum Acadêmico do Sul Global, realizado em Xangai (China) , nos dias 13 e 14 de novembro.

O evento reuniu 258 intelectuais de 31 países da Ásia, América Latina e África para debater os 80 anos da vitória sobre o fascismo e os rumos da ordem internacional. Sob o tema “A Vitória da Guerra Mundial Antifascista e a Ordem Internacional do Pós-Guerra: Passado e Futuro”, o fórum marca os 80 anos da vitória sobre o fascismo e da fundação das Nações Unidas. A iniciativa, que começou em 2023, busca se consolidar como plataforma permanente de produção de conhecimento entre intelectuais do Sul Global.

Prashad criticou o que chamou de “apagamento” da contribuição soviética e chinesa na derrota do nazismo, citando a declaração da “Semana Anticomunista” pelo presidente dos Estados Unidos, em 7 de novembro (data da Revolução Russa), e a proibição de símbolos comunistas na Alemanha.

O pesquisador também destacou as ações do governo Trump de pressionar países que vêm entrando no que chama de “novo clima” do Sul Global, ou nos que simplesmente lutam por mudanças por mais soberania, como no caso das manifestações na Coreia do Sul que levaram à mudança de presidente. Para Prashad, esses tipos de ações evidenciam o temor ocidental diante desse caminho para uma nova ordem mundial.

Sobre a importância de encontros como o fórum realizado na China, o diretor do Tricontinental afirmou que o país asiático funciona como “uma zona libertada” onde intelectuais podem discutir ideias que não poderiam, com total liberdade, defender em seus países de origem. “Quando você vem de lugares onde se sente minoritário ao dizer certas coisas, aqui você ganha confiança para discuti-las, encontra outras pessoas, constrói redes”, explicou.

Confira a entrevista:

Brasil de Fato: Há uma crescente negação, um apagamento, do papel da União Soviética e da China na derrota ao nazismo, com retirada de estátuas em homenagem à União Soviética em países europeus, ou o Japão pedindo a outros países que não participassem das celebrações do 80º aniversário da vitória da Guerra Mundial contra o Fascismo. Qual é a sua compreensão sobre esse fenômeno que, se bem não é novo, parece estar se intensificando?

Vijay Prashad: Em 7 de novembro de 2025, o presidente dos Estados Unidos declarou a Semana Anticomunista. Vejam só, 7 de novembro é o aniversário da Revolução de Outubro na Rússia, que deu origem à União Soviética. É inacreditável. Na Alemanha, é ilegal exibir a foice e o martelo! É uma loucura. Quando isso se tornou algo normal? São sociedades que deveriam ser “livres”, mas onde não se pode falar de certas coisas. É absolutamente proibido. E quais são essas coisas? Não são aleatórias: são muito específicas. Principalmente, a história e a contribuição do comunismo para o mundo atual. Essa história, essa contribuição, está sendo completamente negada.

E qual é essa contribuição, no caso específico do 80º aniversário da vitória sobre o fascismo? É a própria derrota do fascismo. Cerca de 100 milhões de pessoas morreram na Ásia, na África, na União Soviética: 100 milhões! Os Estados Unidos perderam meio milhão. Meio milhão é muita gente, mas não são 100 milhões. Essa contribuição para a derrota do fascismo tem que ser apagada, porque a agenda política liberal ocidental basicamente pretende igualar comunismo e fascismo, tratando-os como dois tipos de autoritarismo, sem reconhecer sua própria afinidade com o fascismo, especialmente enquanto ele ressurge sob novas formas na Europa e nas Américas.

No Fórum Acadêmico do Sul Global do ano passado, você falava da existência de um “novo clima” no Sul Global. Essa situação tem evoluído no último ano? Há maior integração entre os países do Sul Global rumo a objetivos comuns?

É absolutamente evidente que as relações comerciais entre países do Sul Global aumentaram nos últimos três anos, mas não fiquemos só nisso. Há abundância de evidências de um novo estado de espírito político. Muitos países do Sul Global estão furiosos com o fato de os Estados ocidentais continuarem sendo cúmplices no genocídio contra os palestinos, ou de aumentarem os orçamentos militares nos países da Otan [Organização do Tratado do Atlântico Norte], entre outras coisas. Os países do Sul Global têm sido explícitos. Gustavo Petro vai à Assembleia Geral da ONU e faz um discurso inflamado; a reação de Trump é: “Você não terá mais visto para entrar nos EUA”. E, de fato, isso é revelador: a guerra tarifária de Trump é, de muitas maneiras, uma tentativa de sufocar esse novo clima no Sul Global. Quando ele vai à Malásia, quando vai à Coreia do Sul, está tentando punir esses países por aderirem a esse novo clima. Na Malásia, o primeiro-ministro Anwar Ibrahim foi explícito: “A Malásia quer fazer isso, quer fazer aquilo”, e Trump responde: “Não”, e desce o martelo.

Na Coreia do Sul, o povo se levantou e disse: “Não queremos lei marcial”. Trouxeram um novo presidente. Ele é centrista, tudo bem, mas prometeu cuidar das necessidades da população. Trump aparece e bate nele, o pune. É muito evidente, pelo comportamento dos Estados Unidos, que eles têm medo desse novo estado de espírito. Se não houvesse esse novo clima, por que estariam agindo assim?

Certamente no passado tivemos experiências similares à do Fórum Acadêmico do Sul Global que acontece agora, mas gostaria que você falasse sobre a importância de reunir intelectuais e pensadores de diferentes países do Sul Global, e especialmente aqui na China.

Não é verdade que haja uma longa história ininterrupta do Sul Global tentando se afirmar, pois isso acontece em ciclos. Há longos períodos, como quando a crise da dívida do Terceiro Mundo explodiu nos anos 1980, em que esse clima e o projeto institucional desmorona e intelectuais, pensadores, etc., voltam-se para o Ocidente em busca de sustento, dizendo: “o que estamos recebendo dos países ocidentais?”, ou “vamos absorver o pensamento neoliberal”, e assim por diante.

Esse foi o período que acabou de passar. Agora há uma revitalização do pensamento, das ideias sobre o Sul, e uma tentativa de entender o que estão dizendo na China.

A China é um lugar importante para essa conversa porque, em certo sentido, é uma zona libertada: você pode realmente falar dessas coisas. Quando você vem de lugares onde se sente minoritário ao dizer certas coisas, aqui você ganha confiança para discuti-las, encontra outras pessoas, constrói redes, talvez integre algumas plataformas, volta para casa e encontra mais gente. Isso é construção de rede: estamos revitalizando a confiança nas ideias do Sul Global sobre si mesmo. E isso é realmente muito, muito significativo.

Editado por: Maria Teresa Cruz

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