' Kreyòl'

Haitianos procuram promover o crioulo como língua oficial e símbolo da resistência anticolonial

Contra o francês usado oficialmente, a luta pelo crioulo como única língua oficial se torna símbolo de resistência

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No Haiti, apenas 10% da população fala francês, língua que predomina nas escolas do país
No Haiti, apenas 10% da população fala francês, língua que predomina nas escolas do país | Crédito: Cha Dafol/Brasil de Fato

Imagine uma criança chegar no primeiro dia da escola e escutar o professor dar as boas-vindas num idioma que nunca ouviu. Um idioma diferente daquele que costuma falar em casa, na rua, nos comércios e nas pracinhas. Um idioma que não permite se comunicar nem brincar com os colegas. Porém, é nesse novo idioma, completamente alheio à realidade em que vive, que lhe serão ensinados muitos conceitos também novos e nem sempre triviais, em matemática, ciências, história ou literatura…

Imagine agora uma pessoa adulta enfrentando um processo num tribunal onde também a língua falada é uma língua estrangeira. Onde as leis são ininteligíveis. Onde se entende bem pouca coisa do diálogo entre advogados, procurador e juiz. Ou então, uma pessoa recorrendo à administração pública do seu país, sem poder ler o que consta nos documentos que lhe são apresentados.

Essa é a realidade do povo haitiano há mais de 200 anos: o francês continua sendo o idioma predileto da administração, da justiça e do sistema educativo, enquanto na vida cotidiana e social, as pessoas só se comunicam em crioulo.

Professor de história no ensino fundamental, Peguy Noël aponta que o francês trava o desempenho escolar das crianças: “Elas estudam em francês, pensam em crioulo e depois escrevem em francês”, relata em entrevista ao Brasil de Fato. A alta taxa de abandono escolar no Haiti é sintomática: apenas 10% dos alunos chegam ao final do ensino médio – coincidentemente, a mesma proporção da população que fala francês.

A consequência disso é uma profunda divisão da sociedade: as elites francófonas, que controlam os poderes políticos e econômicos, têm suas portas fechadas para o resto da população. “Então, temos o francês, língua da elite, língua de uma minoria, o crioulo, língua da maioria. Uma maioria marginalizada”, analisa Peguy. “Isso gera uma sociedade ambivalente, entre os que têm valores conectados com a África, com a herança afrodescendente, e aqueles que são apegados aos colonizadores, que continuam se achando próximos da França, da Europa, ou até da América do Norte.”

O cimento da revolução

O crioulo nasceu no século 18, nas fazendas da então colônia francesa de São Domingos. As pessoas escravizadas, trazidas de diversos lugares da África, precisaram comunicar-se entre elas – e, na medida do possível, sem que os opressores entendessem.

Assim, o crioulo se formou a partir de uma “língua fonte”, o francês, de onde puxou 85% das suas palavras, e de matrizes africanas que permitiram se diferenciar bastante na gramática e na pronúncia. A título de comparação, o espanhol e o português, por exemplo, são bem mais próximos entre eles, com em torno de 90% de semelhança, tanto lexical quanto gramatical.

Peguy considera que o surgimento de um idioma comum foi um elemento histórico fundamental no caminho da Revolução Haitiana, que levou ao fim da escravidão e à independência do país. “Foi por meio do crioulo que os cativos criaram um canal para comunicar entre eles, para partilhar suas ideias, suas reflexões acerca das condições de vida,” explica. “Dessa conexão, nasceu uma sinergia que permitiu derrubar o sistema colonial e esclavagista. Então podemos dizer que o crioulo teve um papel de cimento entre essas comunidades que estavam desarticuladas”.

O crioulo surgiu no século 18 e foi o meio do que os cativos criaram para comunicar entre eles, para partilhar suas ideias
O crioulo surgiu no século 18 e foi o meio do que os cativos criaram para comunicar entre eles, para partilhar suas ideias; apenas 10% da população fala francês | Crédito: Cha Dafol/Brasil de Fato

Paradoxalmente, essa origem histórica e colonial do idioma acabou acarretando também uma série de preconceitos que o levou a ser menosprezado pelas novas elites haitianas. O francês continua sendo considerado como uma língua mais nobre. Há quem diga, inclusive, que o crioulo não seria mesmo uma língua, mas apenas um dialeto, de tradição oral, impregnado de outras influências, cheio de variações e sem recursos linguísticos próprios para abordar assuntos científicos, por exemplo.

Racismo linguístico

“Desde a criação deste país, o Estado tem aplicado uma política linguística que prioriza o francês em cima do crioulo. Isso vem de um sistema ideológico de dominação baseado na ideia de que as pessoas não brancas são de uma raça inferior”, podemos ler numa publicação da Academia do Crioulo Haitiano (AKA), 100 perguntas para a AKA. Criada em 2014, a AKA trabalha na promoção do crioulo na administração, na educação, em todas as esferas da sociedade e em todos os níveis do Estado.

As tarefas não faltam. Apesar de a Constituição de 1987 conferiu ao crioulo (pela primeira vez) o estatuto de língua oficial do país, junto com o francês, nem as leis, nem próprio texto da Constituição foram traduzidos. Da mesma forma, por mais que o crioulo venha progressivamente ocupar seu lugar nos currículos escolares, a maioria dos livros continua em francês, assim como os deveres de casa e os temas de prova – seja por falta de orçamento ou de vontade política.

A AKA vê vários desdobramentos negativos da estigmatização do crioulo, impactando não só desenvolvimento do país, mas também a autoestima da sua população. “Se você pega uma criança e, desde muito pequena, você lhe ensina que ela não é uma pessoa, vai chegar um momento em que você não precisará mais dizer nada: ela mesma vai repetir aos demais que ela não é uma pessoa. Se, desde o tempo da colônia, fizeram o povo negro achar que sua língua não era uma língua, chega um momento em que ele cai nesta armadilha”.

A missão da AKA envolve também a estandardização da língua, em términos gramaticais e ortográficos, e o incentivo para novas publicações, seja no âmbito da literatura ou da pesquisa científica e universitária. A instituição lembra que é preciso adentrar esses espaços para desconstruir a ideia de uma língua inferior ou incompleta, que precisaria do reforço de outro idioma para expressar conceitos eruditos.

A luta por soberania

Emmanuella Nehemie Germain é coordenadora de um centro cultural na cidade de Hinche e organizadora de um concurso de literatura em crioulo. Para ela, uma língua não é apenas um meio de comunicação, mas também um instrumento político – revolucionário, no caso do crioulo, e de opressão, no caso do francês. “Mesmo depois da independência do Haiti, o francês continuou sendo utilizado como uma ferramenta de dominação e exclusão social”, ressalta. “Se você chegar em certos espaços sem falar francês, não é levado a sério”.

Neste sentido, a divisão social que decorre do bilinguismo não pode ser vista como apenas uma falha do sistema educativo, mas sim como um projeto neocolonial que ainda precisa ser combatido. “É como uma nova forma de escravidão, que não tem pressão física, mas que toma a forma de uma escravidão mental, onde utilizam o francês como uma língua de dominação para acabar com o sistema educativo e dividir a sociedade”, avalia Emmanuella.

Para Emmanuella Nehemie Germain, que organiza um concurso de literatura em crioulo, uma língua não é apenas um meio de comunicação, mas também um instrumento político
Para Emmanuella Nehemie Germain, que organiza um concurso de literatura em crioulo, uma língua não é apenas um meio de comunicação, mas também um instrumento político | Crédito: Cha Dafol/Brasil de Fato

Hoje, a defesa do crioulo é o símbolo da resistência cultural e da luta por soberania do povo haitiano. Seguindo o exemplo de diversos países africanos que, recentemente, retiraram o francês das suas administrações, muitos querem que o crioulo se torne a única língua oficial do Haiti, por ser, de fato, a única falada por todos os cidadãos. Para além de uma reivindicação simbólica, trata-se de uma batalha pelo direito linguístico da população, um direito fundamental que envolve desde a dignidade de um povo, a sua história e memória, até a inclusão social e o acesso aos serviços mais básicos para toda a população.

Editado por: Luís Indriunas

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