A Nova Geometria do Poder, formulada pelo Comandante Hugo Chávez nos anos 2000, foi uma das elaborações mais avançadas da estratégia revolucionária bolivariana. Desde uma perspectiva revolucionária, ela representou uma tentativa concreta de reorganizar o Estado e o território venezuelano, deslocando o centro real do poder tradicionalmente concentrado em elites políticas, econômicas e institucionais para as mãos do povo organizado.
Chávez insistia que essa transformação do Estado não era um fim em si mesmo, mas um meio para alcançar o objetivo estratégico maior: a construção de uma nova sociedade socialista humanista, solidária, ética e fundada no amor revolucionário. A nova institucionalidade que começava a nascer, o Estado Comunal era, portanto, o instrumento para superar o Estado burguês e dar forma a uma nova ordem social.
Como o próprio presidente Nicolás Maduro reafirma hoje, a Venezuela ainda carrega um Estado burguês, e a tarefa da Revolução é transformá-lo radicalmente para criar as condições materiais e espirituais de uma sociedade socialista.
Para Chávez, a geometria do poder significava modificar as coordenadas do Estado burguês liberal-representativo e edificar novas formas de organização territorial como conselhos comunais, comunas e cidades comunais, capazes de converter-se em células do poder público socialista, núcleos reais de decisão, produção e planejamento comunitário. O território deixa de ser visto apenas como espaço físico e passa a ser compreendido como espaço político, local de autogoverno, de produção da vida e de disputa de hegemonia.
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A Nova Geometria do Poder buscava enfrentar a fragmentação territorial herdada da descentralização neoliberal dos anos 1990, instaurando uma lógica fundada no vínculo comunitário, na deliberação coletiva e na planificação popular.
Essa arquitetura abriu caminho para que conselhos comunais e comunas administrassem recursos, impulsionassem iniciativas produtivas, formulassem planos de desenvolvimento e experimentassem práticas avançadas de democracia direta. Assembleias comunitárias passaram a definir prioridades, fiscalizar obras, gerir fundos e criar empreendimentos locais. Embora persistam contradições reais, como tensões entre autonomia popular e burocracia estatal, limites materiais e disputas internas, a experiência comunal consolidou-se como laboratório vivo da construção socialista, onde se experimentam formas de organização para além do Estado burguês tradicional.
As Sete Transformações
É nesse marco que o presidente Nicolás Maduro apresenta o Plano da Pátria das Siete Transformaciones, para o período 2025-2031, transformado em Lei Orgânica. Longe de substituir a geometria chavista, esse plano representa sua continuidade histórica, sua atualização estratégica e seu salto qualitativo diante das novas condições nacionais e internacionais. Assim como os Cinco Motores Constitucionais, as 7T buscam ampliar o protagonismo do povo, fortalecer o autogoverno e consolidar um horizonte socialista.
A Primeira Transformação, chamada Transformação Econômica, relaciona-se diretamente com o princípio marxista de que não há poder político sem base produtiva própria. A diversificação econômica, a modernização produtiva e a construção de um novo modelo exportador buscam romper com o rentismo petroleiro e fortalecer formas comunitárias, cooperativas e endógenas de produção. Trata-se de transferir ao povo não apenas competências administrativas, mas poder material sobre os meios de produção.
A Segunda Transformação, Independência Plena, aprofunda a doutrina bolivariana ao afirmar que não existe socialismo sem soberania. Cultura, ciência, tecnologia e educação tornam-se instrumentos para formar uma subjetividade revolucionária capaz de enfrentar o imperialismo e defender a autonomia tecnológica do país.
A Terceira Transformação, Segurança Interna e Territorial, atualiza a concepção de defesa integral de Chávez. Defender o território é defender o povo. Em contexto de guerra híbrida, bloqueios e agressões externas, a segurança é pensada como articulação entre povo organizado, autogoverno territorial e Força Armada Nacional Bolivariana. A disputa pela Guayana Esequiba exemplifica essa visão de soberania territorial construída com participação popular.
A Quarta Transformação, Renovação do Modelo Humanista e Socialista, busca reconstruir o Estado a partir de uma ética socialista, cristã, revolucionária e humanista. Retoma e atualiza as grandes missões sociais e reforça valores de igualdade, solidariedade e bem-estar. A geometria do poder, nesse ponto, converte-se em um Estado social e comunal capaz de regenerar suas instituições pela base.
A Quinta Transformação, Política de Inclusão e Participação, é o núcleo político da transição ao poder popular. Seu objetivo é repolitizar as maiorias, recuperar a política como serviço público e consolidar mecanismos de democracia direta.
Aqui, a transição da geometria do poder ao poder popular aparece de forma explícita: o povo deixa de ser consultado para governar; deixa de apenas participar para tomar decisões; deixa de esperar soluções para produzi-las coletivamente.
A Sexta Transformação, Transformação Ecológica, insere a Revolução Bolivariana na luta global pela preservação da vida. A defesa da Amazônia, a mitigação da crise climática e a proteção das reservas naturais expressam uma visão ecológica socialista, entendendo a destruição ambiental como consequência da lógica de lucro capitalista.
A Sétima Transformação, Geopolítica e Liderança Mundial, projeta a Nova Geometria do Poder para o cenário internacional. A aposta em um mundo multicêntrico, a reintegração latino-americana e a inserção nos BRICS reforçam o internacionalismo bolivariano. Como afirmava Chávez, a revolução venezuelana é parte de uma disputa global pela superação do imperialismo e do capitalismo, e não um processo isolado.
Horizonte estratégico de transição ao socialismo
O Plano 7T surge de um processo profundamente participativo, que envolveu mais de 65 mil assembleias populares, 10 mil comunidades organizadas com Mapas de Soluções e 25 mil com Cartografias Sociais. A máxima de Chávez, “Comuna ou nada”, converte-se em método de governo. A construção das 7T é, portanto, continuidade e aprofundamento da Nova Geometria do Poder.
Assim, a Venezuela vive um processo de longa duração, em que a reorganização territorial proposta por Chávez se combina com a reorganização produtiva, cultural, ecológica e geopolítica apresentada por Maduro, conformando um horizonte estratégico de transição ao socialismo. A luta fundamental não é apenas por políticas públicas, mas pela construção de um novo tipo de Estado: um Estado Comunal nascido das comunas, orientado pela planificação popular e sustentado por um povo que se converte em sujeito consciente da história.
A passagem da Geometria do Poder ao Poder Popular é a estratégia pela qual o povo venezuelano assume tarefas antes monopolizadas pelas elites, abrindo a possibilidade concreta de construir uma sociedade justa, igualitária, solidária e soberana.
Trata-se da batalha permanente para que o autogoverno das bases se converta não apenas em programa, mas na própria estrutura do novo Estado socialista.
Neste cenário de avanço estratégico, a quarta Consulta Popular Nacional convocada pelo presidente Nicolás Maduro para o dia 23 de novembro reafirma o autogoverno comunal como prática concreta da geometria do poder concebida por Chávez e aprofundada pelas 7 Transformações. Ao convocar o povo a priorizar mais de 36.500 projetos comunitários, distribuídos em 5.336 comunas e circuitos comunais, com quase dez mil mesas eleitorais e mais de 8.600 centros de votação, o Governo Bolivariano coloca o poder comunal no centro do novo Estado em construção.
Maduro insiste que o governo nacional, estadual, municipal e o Poder Popular devem atuar como um só governo, avançando rumo às seis mil comunas e consolidando uma democracia de participação direta, planejadora e produtiva. O dia 23 será mais um marco na Revolução Bolivariana, mostrando que o povo não apenas vota, mas governa, executa e garante a conclusão dos projetos que ele mesmo aprova. Assim, o Poder Popular venezuelano demonstra, na prática, que a transição ao Estado Comunal horizonte estratégico legado por Chávez avança como força real de governo, planejamento e transformação socialista.
*Beto Palmeira é coordenador nacional do Movimento dos Pequenos Agricultores (MPA)
**Este é um artigo de opinião e não necessariamente representa a linha editorial do Brasil do Fato.
