passada de pano

Operação do caso Refit revela ‘posturas bem diferentes’ no combate ao crime organizado, diz cientista político

Paulo Ramirez vê conivência da direita com lavagem de dinheiro e prevê reações do Congresso após avanço da investigação

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Operação Poço de Lobato desvendou esquema de sonegação de R$ 26 bilhões envolvendo grupo Refit
Operação Poço de Lobato desvendou esquema de sonegação de R$ 26 bilhões envolvendo grupo Refit | Crédito: Divulgação/Receita Federal

A Operação Poço de Lobato, que desvendou um esquema de sonegação de R$ 26 bilhões envolvendo o grupo Fit Combustíveis, revela a distância entre os alvos buscados por diferentes projetos políticos, avalia o cientista político e professor Paulo Niccoli Ramirez, em entrevista ao Conexão BdF, da Rádio Brasil de Fato.

“Do lado da direita, há vistas grossas em relação àqueles que são os maiores beneficiados pela lavagem de dinheiro, que são os grandes grupos financeiros, que não estão na favela”, afirmou. Segundo ele, é nas áreas nobres e nos centros financeiros, como a avenida Faria Lima, centro financeiro em São Paulo, que o dinheiro ilícito circula e se consolida através de fintechs e empresas de alto desempenho econômico.

Enquanto isso, a política de segurança pública da direita mira apenas “a ponta do iceberg”. “A direita apenas enxerga a ponta do iceberg, ataca de forma irracional os bairros mais pobres, mata, no final das contas, através das forças policiais, uma série de inocentes”, afirma. Já o governo federal, segundo ele, caça onde esse dinheiro vai parar. “São duas posturas bem diferentes”, caracteriza.

Ramirez defende que o Estado brasileiro ainda carece de ferramentas legais mais rígidas para acompanhar mecanismos sofisticados de ocultação de patrimônio, e cita o uso de offshores como peça-chave da engrenagem. Ele lembra que “o próprio [ex-ministro da Economia no governo Bolsonaro] Paulo Guedes lucrou bastante com offshores” durante o governo Bolsonaro e que figuras como o ex-presidente da Câmara Eduardo Cunha também utilizaram estruturas no exterior para lavagem de dinheiro.

Segundo o professor, o atual marco regulatório cria brechas que beneficiam grandes detentores de capital. “As offshores são formas de investimentos que acabam fazendo com que o dono do dinheiro não seja responsabilizado a não ser a própria offshore”, explica. Por isso, defende, “é preciso uma legislação mais rígida”.

Ele também aponta conflitos de interesse entre parlamentares. “Nós temos uma boa parte dos nossos congressistas que se beneficiam disso”, afirma, mencionando “verbas parlamentares, dinheiro que é lavado, lobismo dentro do Congresso”.

Para Ramirez, ao “mexer no vespeiro”, o governo deve enfrentar reações. “Não nos espantemos se nos próximos dias tenhamos mais reações do Congresso do ponto de vista econômico contra o próprio presidente”, alerta.

De acordo com o cientista político, a dimensão do caso ajuda também a explicar por que a Receita Federal considera a operação “simbólica” e “histórica”, já que há estimativas de que o rombo total poderia chegar a R$ 70 bilhões. Ele afirma que a investigação “vai gerar um efeito em cadeia”, pois envolve uma possível lavagem de dinheiro, importações irregulares e até conexões com “provavelmente, tráfico de drogas”.

Ramirez destaca ainda que esse tipo de esquema não opera isoladamente, e que seus vínculos políticos ajudam a compreender o comportamento do Congresso. “Isso explica em boa medida por que o Congresso hoje tem atuado de forma a sabotar o governo federal. É uma das explicações possíveis”, analisa.

Para ele, o caso reforça “a importância da independência da Polícia Federal” e do Ministério Público, na contramão do Projeto de Lei (PL) Antifacção, relatado pelo ex-secretário de Segurança Pública de São Paulo, o deputado Guilherme Derrite (PP-SP), que buscava ampliar a autonomia dos estados em investigações de tráfico.

Para ouvir e assistir

O jornal Conexão BdF vai ao ar em duas edições, de segunda a sexta-feira: a primeira às 9h e a segunda às 17h, na Rádio Brasil de Fato98.9 FM na Grande São Paulo, com transmissão simultânea também pelo YouTube do Brasil de Fato.

Editado por: Maria Teresa Cruz

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