O novo trabalho de B.art nasce onde a arte encontra o território — e onde a sobrevivência se transforma em estética. Inspirado na fala do indígena Miguel Verá Mirim, que afirma que “as pedras são o conhecimento da floresta e devem permanecer onde estão para cumprir seu propósito”, a artista gaúcha ergue em Jóias Brutas uma obra íntima, política e profundamente territorial.
Se, para Verá Mirim, arrancar uma pedra de seu lugar é privá-la de sua função, B.art faz o gesto inverso: retorna simbolicamente ao seu próprio chão. E dali redesenha seus contornos. “Assim como as pedras, nós também precisamos estar no lugar certo pra brilhar”, afirma.
O EP, com nove faixas e uma bônus, é o mergulho mais da artista profundo até aqui. Um rito de cura, elaboração e reescrita de si mesma. “Sendo uma mulher preta gaúcha, o território sempre foi uma questão pra mim. Passei muito tempo me diminuindo pra caber. Mas aprendi a dar nome aos meus traumas, a honrar minha trajetória e me orgulhar dela”, explica.
Pedras, fricção e força: o conceito por trás do EP
Cada faixa é tratada como uma jóia bruta: pesada, imperfeita, cheia de história, prestes a revelar brilho próprio. Os beats seguem essa mesma lógica — secos, diretos, sem adorno. A produção aposta na crueza como método, num gesto que dialoga tanto com o rap quanto com uma ética de verdade.
O resultado é um trabalho de grande espessura poética, que move metáforas e memórias para falar de ancestralidade, liberdade, poder e reconstrução. Uma obra que recusa fórmulas de mercado para afirmar uma maturidade artística: lúcida, sensual, crítica e estratégica.
“Já entendi o jogo, já entendi o sistema. Agora jogo com inteligência, sem perder a sensibilidade”, sintetiza.
Vulnerabilidade como estratégia, lucidez como gesto político
Em Honrar o Sonho, uma das faixas mais emocionais do EP, B.art relembra as violências simbólicas que atravessaram sua formação — e responde de forma incisiva: “Hoje eu tô contrariando o que me disseram na escola, que eu não tinha o potencial de uma garota branca e rica…”
A música se torna estratégia de sobrevivência, mas também arma estética de afirmação: “Eles não acreditaram em mim, mas eu acreditei o bastante pra me tornar o que disseram que eu não seria”.
Jóias Brutas ecoa um sentimento comum a muitas mulheres negras que transitam em espaços de descrédito institucional. Um manifesto pessoal que se abre para uma coletividade.
Ritmos de resistência e poemas do cotidiano
Entre os destaques, Brasil Core expõe a força multifacetada da artista — crítica, irônica, sensual e potente. É política sem panfleto, sensual sem objetificação, vulnerável sem fragilidade.
Em Shelly-Ann Fraser Pryce, ela homenageia a lendária velocista jamaicana, evocando o cansaço de ser sempre forte e a persistência de seguir correndo. Já Café Europa abre espaço para afetos mais leves, refletindo sobre amor e autonomia em tempos de excesso e velocidade.
“Cresci, aprendi a me amar, a me escolher. Agora quero viver no meu tempo, do meu jeito”, diz B.art.
Ficha técnica e participações
O EP reúne potências da cena musical gaúcha e nacional. A produção é de Zudizilla, Dia, Liip Beats, Sweet Jazza e Jay Gueto. Mix e master são de Liip Beats. Direção musical é de zilladxg. Participações de L300, Ana Rima e Jô (UCLÃ).
As faixas Jóias Brutas e Honrar o Sonho são produzidas por Dia, o mesmo produtor do disco Filha do Sol, reforçando a continuidade estética e afetiva do trabalho.
O EP é, antes de tudo, sobre encontrar o próprio lugar — e permanecer nele com dignidade. É sobre recolher as pedras que tentaram atirar e devolvê-las lapidadas em forma de arte. É sobre ser conhecimento, território e futuro. Uma narrativa de quem aprendeu a se colocar onde sempre mereceu estar: no centro da própria história.
