Agroecologia

Grupo de mulheres do Complexo da Penha mantém horta urbana no Morro do Sereno

Alimentos sem veneno são cultivados em terreno de 48m² a partir do projeto Periferia Viva

mulher negra na horta do Morro do Sereno
Articuladora da horta comunitária do Sereno, Cris Germano é cria do Complexo da Penha | Crédito: Raquel Torres

Uma horta urbana na encosta do Morro do Sereno, no Complexo da Penha, Zona Norte do Rio de Janeiro, é o ponto de encontro de um grupo de mulheres que se organiza para manter o cultivo em dia. No espaço de apenas 48m² elas plantam uma variedade que impressiona: mostarda, taioba, aipim, capim-limão, abóbora, pepino, alface, manjericão, salsa, cebolinha, brócolis, milho, acerola.

O pequeno loteamento emprestado de um vizinho, que antes acumulava lixo e o mato crescia alto, foi recuperado a partir do projeto Periferia Viva, há dois anos. Desde então, o espaço é mantido pelas Margaridas, grupo formado por 20 mulheres que moram mais próximas do terreno.

Uma delas é a assistente social e educadora popular Cristiane Germano dos Santos, de 54 anos, conhecida como Titi. “O grupo Margaridas surgiu na construção da horta. São mulheres que fazem parte do projeto cultural Semeando e Colhendo Amizade”, diz a articuladora.

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“A gente começou a ver que podia plantar, cultivar, e depois comer a nossa produção num almoço de sábado ou domingo com todas as mulheres que cultivam a horta, as Margaridas, e mais as nossas famílias, filhos, companheiros. Foi muito importante pra gente aprender a cultivar nosso próprio alimento, uma comida sem veneno, sem agrotóxico, sem poluição”, completa.

O cuidado com a terra também é terapia para as mulheres do Sereno. A paraibana Adriana Vieira da Silva, 37 anos, é a Margarida que mais ensina sobre a roça. “Eu amo mexer com a terra, é uma terapia pra mim. Sempre trabalhei no roçado em Campina Grande com a minha mãe”, diz a diarista, moradora da Penha há 15 anos.

“Mexer com a terra, com a horta, faz muito bem a saúde mental e psicológica da gente. Uma ensina a outra, o que eu não sei fazer, a Titi sabe, outra sabe, uma compartilha com a outra e assim vai”, afirma.

Outra Margarida é a Gilda Vicente da Silva, de 52 anos, nascida e criada no Complexo da Penha. “A horta traz vida, alimento”, diz Rosinha, que tem a agricultura urbana na favela no histórico familiar.

“Minha mãe sempre teve horta no Morro da Caixa D‘água, fui alimentada com comidas plantadas e colhidas no quintal. A horta melhorou a minha alimentação, da minha família, meus filhos e netos. Tudo que entra na minha casa eu distribuo, eles comem e ficam alegres”, conta.

Periferia Viva

Como parte do Periferia Viva, em 2023, sete comunidades do estado do Rio de Janeiro desenvolverem projetos de feiras orgânicas, hortas comunitárias e cozinhas populares com apoio do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), do Levante Popular da Juventude e do Movimento Brasil Popular, em parceria com a Fiocruz.

Um dos territórios escolhidos para a horta foi a Penha. “O terreno do vizinho estava aqui ocioso, nós limpamos, e daí surgiu nossa horta coletiva feita por mulheres e crianças aqui na comunidade”, lembra Titi, articuladora da horta comunitária do Morro do Sereno.

Horta comunitária no Sereno ocupa terreno de 48m² revitalizado por moradoras

A recuperação do terreno baldio contou com a assistência técnica do MST. “O projeto Periferia Viva trabalha o campo e a cidade nesse intercâmbio de práticas agroecológicas”, explica Leonardo Schafer, técnico agropecuário com ênfase em agroecologia que contribuiu na horta do Sereno.

“Elas tinham um terreno em situação de vulnerabilidade, sendo usado como depósito de lixo. Após a permissão, nos reunimos para uma mini capacitação, o terreno foi limpo e adubado com húmus de minhoca. Foram feitos canteiros, conseguimos as mudas e realizamos o trabalho de plantio”, detalha Schafer.

“A horta é uma atividade que elas conseguem fazer em horários fora do trabalho. E muito satisfatório ver que muitas delas já tinham conhecimento da área rural e estão replicando. Tem gente de todos os cantos do Brasil naquele pedacinho”, disse o militante MST.

Soberania alimentar

A cada colheita na horta do Sereno, as Margaridas distribuem alimentos e preparam refeições compartilhadas. O projeto cultural Semeando e Colhendo Amizade reúne cerca de 200 moradores, a maioria mulheres que convivem diariamente. “Quando a gente colhe muito a gente divide, quando colhe pouquinho todo mundo come junto e fica satisfeito”, diz a Margarida Adriana Vieira da Silva.

Na avaliação de Titi, a horta também fortaleceu os laços comunitários no território. “Elas viram que é possível, que a gente tem uma terra boa. Aprendemos a interagir nos dias de plantar, colher, cozinhar e comer todos juntos coletivamente”, completa. 

Mulheres do Sereno compartilham a produção a cada colheira na hora comunitária

Um mapeamento da Articulação de Agroecologia do Rio de Janeiro (AARJ), realizado em 2023, identificou 259 iniciativas de produção de alimento e abastecimento popular no estado. Do total, 182 são de agricultura urbana e periurbana. As experiências, em sua maioria, são lideradas por redes locais e movimentos sociais que fortalecem a soberania alimentar e o combate à fome onde atuam.  

Ao defender a alimentação saudável como direito fundamental, o modelo agroecológico de produção faz o manejo sustentável dos recursos naturais. Também preserva os saberes e os direitos dos agricultores e camponeses. Esses princípios técnicos e sociais da agroecologia fazem contraponto ao agronegócio que, visando apenas o lucro, faz uso de agrotóxicos que prejudicam o meio ambiente, os animais, e a saúde humana. 

Segundo a AARJ, as experiências agroecológicas mapeadas no RJ evidenciam a importância da agricultura de base familiar na produção e abastecimento alimentar no Rio de Janeiro.

Editado por: Vivian Virissimo

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