O presidente da Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj), Rodrigo Bacellar (União Brasil) segue preso na sede da Polícia Federal no Rio de Janeiro nesta quinta-feira (4). Na quarta-feira (3), Bacellar foi convidado para uma reunião na sede da Polícia Federal e teve voz de prisão ainda na mesma manhã.
Os analistas ouvidos pelo Brasil de Fato entendem que a prisão de Rodrigo Bacellar levará a um enfraquecimento da extrema direita e um consequente fortalecimento da candidatura de Eduardo Paes (PSD), atual prefeito do Rio de Janeiro.
No entanto, a cientista política e professora da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Mayra Goulart lembra que Bacellar não é um novato na política. “O campo da extrema direita fica fragilizado pela identificação com o crime organizado e Bacelar é inequivocamente identificado com esse campo ideológico. No entanto, ele é também representante das elites fisiológicas, seu pai é um político tradicional, ele já foi secretário e já teve vários cargos de menor expressão”, disse a também coordenadora do Laboratório de Partidos, Eleições e Política Comparada (Lappcom).
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Entenda o caso
A investigação da PF interceptou conversas do líder do legislativo com Thiego Raimundo dos Santos Silva, o TH Joias, um dia antes da Operação Zargum, realizada em 3 de setembro, para prender o então deputado TH Joias por ligação com o Comando Vermelho (CV).
Na troca de mensagens, Bacellar orienta TH Joias a destruir provas em sua casa e há um vídeo em que um caminhão de mudança está sendo carregado em frente a residência do ex-deputado um dia antes da operação.
De acordo com as investigações, TH Joias intermediou compra de armamentos para o Comando Vermelho, como fuzis e também equipamentos antidrones. Ele também é acusado de movimentar R$ 13 milhões entre 2021 e 2023. Nas redes sociais, o ex-deputado publicava fotos ao lado do governador Cláudio Castro (PL) e de Rodrigo Bacellar.
A Alerj deve julgar nos próximos dias a manutenção ou não da prisão do presidente da Casa. Uma decisão do Supremo Tribunal Federal (STF) de 2019 estabelece que as assembleias legislativas estaduais têm o poder de revogar prisão de deputados estaduais.
A medida já foi utilizada em 2017 para soltar o então presidente da Alerj Jorge Picciani (MDB), preso na Operação Cadeia Velha, um esquema de corrupção que impediu o estado de arrecadar cerca de R$ 183 bilhões em impostos. Picciani e Bacellar são os únicos presidentes da Alerj presos em exercício. Mas há outros casos de prisões após deixar o cargo, como Paulo Melo (MDB), também preso na operação Cadeia Velha, Sérgio Cabral (MDB), preso como governador e José Nader (PTB).
Relações entre crime e agentes públicos
Ao Brasil de Fato, o professor da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj) e coordenador do Laboratório de Estudos Políticos de Defesa e Segurança Pública (LEPDESP), Pedro Villas Bôas, avalia que a prisão evidencia a vinculação do crime organizado com o estado do Rio e a consequência disso é um governo que responde cada vez menos às necessidades da população. “O que mostra como o estado do Rio de Janeiro vem sendo privatizado para os interesses de grupos criminosos, não apenas ligados à corrupção, ao desvio de verbas públicas, mas também vinculado ao fortalecimento de grupos criminosos armados”, avalia.
Por outro lado, a prisão do presidente da Alerj é vista como um passo importante da atuação da Polícia Federal no estado pelo coordenador do Grupo de Estudos dos Novos Ilegalismos da Universidade Federal Fluminense (Geni/UFF).
Ele avalia que há uma proteção por parte de políticos que dificulta que essas investigações sejam feitas, mas que há exceções, como a CPI das Mílicias e a investigação do assassinato da vereadora Marielle Franco. O mesmo ocorre com a investigação de TH Joias, que relaciona representantes do estado com o Comando Vermelho. “E me parece que, aí sim, mais do que operações espetaculares, nós estamos avançando para um enfrentamento mais efetivo à criminalidade organizada”, disse Hirata ao Brasil de Fato.
O Geni/UFF lançou nesta quinta-feira (4) o novo mapa histórico dos grupos armados no Rio de Janeiro com dados de 2024, que coloca o CV como grupo que detém o maior controle territorial entre os grupos armados: 47%. No entanto, a capacidade de influência da milícia sobre territórios, apesar da crise dos últimos dois anos, a mantém na liderança do controle em extensão territorial.
