O documento de Estratégia Nacional de Segurança lançado pelo governo de Donald Trump na última quinta-feira (4) possui uma diferença significativa em comparação com as estratégias dos últimos governos: praticamente não aborda o “terrorismo” como desafio para a segurança nacional dos Estados Unidos. A nova estratégia está mais centrada em questões econômicas e comerciais, em linha com o discurso que embasou o “tarifaço” no começo do ano.
A estratégia defende explicitamente o cumprimento da Doutrina Monroe “para restaurar a preeminência estadunidense no Hemisfério Ocidental, e para proteger nossa pátria e nosso acesso a geografias-chave em toda a região”. A única região mencionada no Hemisfério Ocidental é a América Latina.
O documento de 33 páginas também coloca a China no centro de suas preocupações. O capítulo dedicado à região asiática está focado exclusivamente na China. Outros desafios apresentados pelo governo Trump no resto do documento referem-se à China principalmente, embora não a mencionem explicitamente.
Nos Estados Unidos, os documentos de Estratégia Nacional de Segurança (ENS) são uma obrigação requerida pela Lei Goldwater-Nichols de Reorganização do Departamento de Defesa de 1986. Em geral, cada administração apresenta um documento com as linhas gerais dos objetivos militares e a leitura geopolítica que a administração faz.
Fim do tema “terrorismo” marca ruptura histórica
Levando em conta apenas as palavras “terrorismo” e “terrorista”, a presença do tema no documento quase desaparece em comparação com estratégias de segurança nacional das administrações anteriores. A estratégia de 2025 menciona os termos apenas quatro vezes em 33 páginas – uma frequência de 0,12 menções por página.
Em comparação, o documento do governo de George W. Bush de 2002 – lançado um ano após os atentados de 11 de setembro – mencionava terrorismo 79 vezes em 31 páginas, uma média de 2,55 menções por página. A estratégia de Barack Obama em 2015 registrava 37 menções em 29 páginas (1,28 por página), enquanto a primeira estratégia de Trump em 2017 tinha 78 menções em 55 páginas (1,42 por página). A estratégia do governo de Joe Biden em 2022 manteve 38 menções em 48 páginas (0,79 por página).
Menções à “terrorismo/terrorista” em alguns documentos de Estratégia Nacional de Segurança dos EUA, entre 2002 e 2025
Bush 2002 ████████████████████████████████████████ 79 menções (2.55/página) – 31 págs
Obama 2015 ███████████████████ 37 menções (1.28/página) – 29 págs
Trump 2017 ███████████████████████████████████████ 78 menções (1.42/página) – 55 págs
Biden 2022 ███████████████████ 38 menções (0.79/página) – 48 págs
Trump 2025 ██ 4 menções (0.12/página) – 33 págs
Organizações como Al-Qaeda e Estado Islâmico (ISIS), que dominaram o discurso de segurança estadunidense por duas décadas, não são mencionadas uma única vez no documento de 2025. As poucas referências a “terrorismo” aparecem apenas em contextos genéricos ou vinculadas a “narcoterroristas” – termo usado para descrever supostos cartéis de drogas na América Latina.
Da “jihad islâmica ao “narcoterrorismo no nosso hemisfério”
O secretário do recém-renomeado Departamento de Guerra, Pete Hegseth, deixou clara a mudança de prioridades em discurso na Biblioteca Ronald Reagan no dia 6 de dezembro, dois dias após o lançamento da estratégia.
Todas as menções ao terrorismo em seu discurso foram destinadas a “narcoterroristas”: “Os dias em que esses narcoterroristas, oficialmente classificada como terroristas, operam livremente em nosso hemisfério acabaram. Esses narcoterroristas são a al-Qaeda de nosso hemisfério”, disse o secretário de Guerra norte-americano.
Hegseth afirmou que os EUA vêm desenvolvendo a nova estratégia com outros governos na América Latina, reconhecendo que em alguns casos de forma secreta: “Ao longo de nosso hemisfério, nossos aliados e parceiros reconhecem que esses narcoterroristas também os ameaçam. Então estamos trabalhando juntos, às vezes abertamente, às vezes não”.
O secretário de Guerra ameaçou veladamente os Estados latino-americanos: “Onde um país não pode ou não fará sua parte, então nós no Departamento de Guerra sempre estaremos prontos para tomar ação decisiva neste hemisfério. Em nosso hemisfério, não há refúgio seguro para narcoterroristas”.
América Latina como “quintal”: Doutrina Monroe revivida
Em meio a uma militarização sem precedentes do Mar do Caribe nas últimas décadas por parte dos Estados Unidos, o governo Trump explicita que quer a volta da Doutrina Monroe. O documento afirma que “após anos de negligência, os Estados Unidos reafirmarão e farão cumprir a Doutrina Monroe para restaurar a preeminência estadunidense no Hemisfério Ocidental e para proteger nossa pátria e nosso acesso a geografias-chave em toda a região”.
A estratégia estabelece o que denomina “Corolário Trump” à doutrina original: “Negaremos aos competidores não-hemisféricos a capacidade de posicionar forças ou outras capacidades ameaçadoras, ou de possuir ou controlar ativos estrategicamente vitais, em nosso Hemisfério. Este ‘Corolário Trump’ à Doutrina Monroe é uma restauração de senso comum e potente do poder e prioridades estadunidenses, consistente com os interesses de segurança estadunidenses”.
Hegseth reforçou a mensagem em seu discurso: “Este é o corolário Trump à Doutrina Monroe recentemente codificado tão claramente na estratégia de segurança nacional. Após anos de negligência, os Estados Unidos restaurarão o domínio militar estadunidense no Hemisfério Ocidental”.
O secretário não deixou lugar a dúvidas: “Administrações passadas perpetuaram a crença de que a Doutrina Monroe havia expirado. Estavam erradas. A Doutrina Monroe está em vigor e é mais forte do que nunca sob o corolário Trump.”
O documento especifica que “os Estados Unidos devem ser preeminentes no Hemisfério Ocidental como condição de nossa segurança e prosperidade”.
A Doutrina Monroe volta sob a desculpa (não explícita) de combate à China: “Os termos de nossas alianças, e os termos sob os quais fornecemos qualquer tipo de ajuda, devem ser contingentes ao encerramento da influência externa adversária – do controle de instalações militares, portos e infraestrutura-chave à compra de ativos estratégicos amplamente definidos”.
Hegseth afirmou que além de matar supostos “narcoterroristas”, as ações do Departamento de Guerra vão além: “garantir acesso militar e comercial estadunidense a terrenos-chave como o Canal do Panamá, o Caribe, o Golfo da América, o Ártico e a Groenlândia”.
“Em todas as instâncias, estamos prontos para trabalhar de boa-fé com nossos vizinhos, mas eles devem fazer sua parte para defender interesses compartilhados; onde não o fazem, o Departamento de Guerra está pronto para tomar ação focada e decisiva que avança os interesses dos EUA”.
A Doutrina Monroe parte de uma declaração do presidente estadunidense James Monroe em 1823 que pregava a não interferência europeia no continente americano. A partir de então tem sido invocada pelos EUA para justificar sua ingerência e intervenções em países latino-americanos. No primeiro governo Trump, seu Conselheiro de Segurança Nacional John Bolton disse que a doutrina estava “viva e bem”, ao anunciar restrições de remessas para Cuba.
Departamento de Guerra trabalhando para o setor privado
O secretário explicitou que a visão de segurança dos EUA envolve garantir negócios para empresas dos EUA na América Latina (“Hemisfério Ocidental”). “Proteger com sucesso nosso Hemisfério também requer colaboração mais próxima entre o Governo dos EUA e o setor privado estadunidense”, afirma o documento.
As embaixadas estadunidenses recebem instruções claras: “Todas as nossas embaixadas devem estar cientes das principais oportunidades de negócios em seu país, especialmente grandes contratos governamentais. Todo funcionário do Governo dos EUA que interage com esses países deve entender que parte de seu trabalho é ajudar empresas estadunidenses a competir e ter sucesso”.
China como alvo velado da Doutrina Monroe
Embora o documento não mencione a China explicitamente ao discutir o Hemisfério Ocidental, as referências a “competidores não-hemisféricos” deixam claro o alvo principal. “Competidores não-hemisféricos fizeram grandes incursões em nosso Hemisfério, tanto para nos prejudicar economicamente no presente quanto de formas que podem nos prejudicar estrategicamente no futuro”, afirma a estratégia. “Permitir essas incursões sem resposta séria é outro grande erro estratégico estadunidense das últimas décadas”.
O texto identifica a atração que governos latino-americanos sentem por investimentos chineses: “Muitos governos não estão ideologicamente alinhados com potências estrangeiras, mas são atraídos a fazer negócios com eles por outras razões, incluindo baixos custos e menos obstáculos regulatórios”.
China é foco exclusivo da seção sobre Ásia
A seção dedicada à região asiática no documento – a mais extensa depois do Hemisfério Ocidental – concentra-se quase inteiramente na China. O texto não menciona outros países asiáticos como ameaças ou desafios significativos.
Diferentemente de estratégias anteriores que enfatizavam ameaças militares, o documento de 2025 define a competição com a China primariamente em termos econômicos. “Desde que a economia chinesa se reabriu ao mundo em 1979, as relações comerciais entre nossos dois países têm sido e permanecem fundamentalmente desequilibradas”, afirma o texto.
A estratégia defende o aumento da pressão em aliados europeus e asiáticos para adotarem as políticas de interesse dos Estados Unidos. “A diplomacia America First busca reequilibrar as relações comerciais globais”, afirma o documento, exigindo que “Europa, Japão, Coreia, Austrália, Canadá, México e outras nações proeminentes adotem políticas comerciais que ajudem a reequilibrar a economia da China”.
O texto pressiona a Europa especificamente para “tomar medidas para combater a supercapacidade mercantilista, roubo tecnológico, espionagem cibernética e outras práticas econômicas hostis” – todas referências a práticas atribuídas à China.
A nova Estratégia de Segurança Nacional dos Estados Unidos representa uma ruptura com a estratégia de “Guerra ao Terror” inaugurada pelo governo Bush, focada em atacar e invadir países do Oriente Médio.
Hegseth afirmou que seu Departamento de Guerra “não será distraído pela construção de democracias, intervencionismo, guerras indefinidas, mudança de regimes”. Mas fatos recentes – como os aumentos de vendas de armamento a Taiwan, a promoção de exercícios militares conjuntos no Mar do Sul da China com Japão, Austrália e Filipinas e a vontade política do Japão rumo à militarização –, podem significar que os EUA se mantém na estratégia Giro para a Ásia (Pivot to Asia).
Essa estratégia inaugurada pelo governo Obama já previa o desvio da militarização estadunidense do Oriente Médio para outras regiões. Em 2012, no Diálogo Shangri-la, o maior fórum militar da região Ásia-Pacífico, o secretário de Defesa da administração Obama, Leon Panetta, anunciou: “Nos próximos anos aumentaremos o número e a dimensão dos nossos exercícios no Pacífico”. Panetta disse que, até 2020, a Marinha estadunidense passaria de ter suas forças distribuídas igualmente entre o Pacífico e o Atlântico, para uma divisão de cerca de 60%-40%.
Um relatório do Congresso estadunidense mostra que desde 2011, quando a estratégia para Ásia foi iniciada, os Estados Unidos negociaram o acesso a 12 novos locais militares nas Filipinas e na Austrália, construíram novas instalações no Japão e em Guam e “expandiram as instalações de dezenas de bases já existentes em toda a região”.
Segundo o relatório, o Congresso destinou “mais de US$ 8,9 bilhões para novos projetos de construção militar em locais do Indo-Pacífico desde o ano fiscal de 2020 e o estabelecimento de melhorias na infraestrutura como prioridade de investimento por meio da Iniciativa de Dissuasão do Pacífico (PDI)”.
