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Cresce a mobilização da oposição na Europa contra acordo entre União Europeia e Mercosul; assinatura fica para janeiro

Protestos de agricultores terminou com repressão policial em Bruxelas; assinatura estava prevista para acontecer sábado

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Choque entre manifestantes e polícia em Bruxelas
Choque entre manifestantes e polícia em Bruxelas | Crédito: NICOLAS TUCAT / AFP

A presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, informou, nesta quinta-feira (18), aos líderes europeus reunidos em uma cúpula em Bruxelas que a assinatura de um acordo de livre comércio com o Mercosul será adiada para janeiro, informaram fontes diplomáticas à AFP.

A Comissão Europeia queria que o acordo, que criaria a maior área de livre comércio do mundo, fosse assinado esta semana, mas o plano foi minado depois que a Itália se juntou à França para exigir um adiamento, a fim de buscar maior proteção para o setor agrícola.

No dia anterior, manifestações de agricultores tomaram as ruas de Bruxelas contra a assinatura do acordo, prevista para acontecer no sábado (20). Este foi mais um exemplo de oposição à criação da maior zona de livre comércio do mundo, denunciada por movimentos populares tanto sul-americanos como europeus

A França é o principal polo opositor do acordo, que facilita a entrada de produtos agropecuários sul-americanos na UE e industrializados europeus na América do Sul. Agricultores, franceses e de outros países da Europa temem a concorrência que viria deste lado do Atlântico.

Centenas de tratores se dirigiram nesta quinta-feira para Bruxelas, em uma demonstração da irritação dos agricultores contra o acordo comercial.

“Estamos aqui para dizer não ao Mercosul”, declarou à AFP o pecuarista belga Maxime Mabille. “É como se a Europa tivesse se tornado uma ditadura”, acrescentou, ao acusar a presidente da Comissão Europeia de tentar “impor o acordo à força”.

Os agricultores europeus expressaram a sua oposição ao pacto incendiando pneus e atirando batatas, o que levou a polícia a responder com canhões d’água e gás lacrimogêneo. Além disso, cerca de 950 tratores bloquearam ruas da capital belga, provocando uma forte presença policial em torno das instituições da UE.

Manifestantes usaram batatas nos protestos/AFP

“Ao menos na França, esse acordo pode gerar uma forte repulsa à ideia do bloco em si. Tenho escutado muito coisas como ‘se esta é a União Europeia, não queremos o bloco'”, disse ao Brasil de Fato Morgan Ody, da Via Campesina francesa.

“Este sentimento negativo em relação à União Europeia é algo novo e surgiu por causa desse acordo.”

Pressa de Lula

Lula pretendia assinar o acordo no sábado na cúpula do Mercosul em Foz Do Iguaçu junto com a Comissão Europeia. O presidente brasileiro fez um ultimato aos europeus na quarta-feira.

“Se a gente não fizer agora, o Brasil não fará mais acordo enquanto eu for presidente”, afirmou durante uma reunião ministerial em Brasília (DF). “Se disserem não, nós vamos ser duros daqui pra frente com eles”, declarou. O texto está em negociações há 25 anos e daria origem à maior zona de livre comércio do mundo.

Ursula von der Leyen precisaria do aval prévio da maioria qualificada dos estados-membros, mas vários países pediram o adiamento do acordo, entre eles França, Polônia e Hungria, que receberam a adesão da Itália na quarta-feira.

A chefe do Executivo europeu defendeu nesta quinta-feira, ao chegar à reunião de cúpula, a importância do acordo. “O Mercosul tem um papel central na nossa estratégia comercial: é um mercado potencial de 700 milhões de consumidores e é de enorme importância que consigamos a luz verde para completar a assinatura”, afirmou.

Mas o presidente francês, Emmanuel Macron, pediu antes de reunião nesta quinta-feira sobre o tema a agricultores da França “que manifestam com clareza a posição francesa desde o início: consideramos que as contas não fecham e que este acordo não pode ser assinado”, ressaltando que a França fará oposição a qualquer “tentativa de forçar” a adoção do pacto comercial com o bloco sul-americano.

Ao Brasil de Fato a analista política francesa Florence Poznanski disse que “a maioria dos franceses é contra o acordo”.

“Já havia ocorrido no passado várias manifestações de sindicatos de campesinos e agricultores, inclusive organizações de direita também, da direita dos agricultores, inclusive o equivalente do nosso agronegócio francês, que tinha se posicionado contra”, disse ela.

Na mesma linha, a primeira-ministra italiana, Giorgia Meloni, afirmou também na quarta-feira que seu país não está pronto para assinar o texto.

“Seria prematuro assinar o acordo nos próximos dias”, porque algumas salvaguardas que a Itália deseja para proteger seus agricultores “não foram concluídas”, declarou Meloni em discurso no Parlamento.

Do outro lado, Espanha, Alemanha e os países nórdicos apoiam com veemência o pacto com o Mercosul, desejosos de impulsionar as exportações no momento em que a Europa enfrenta a concorrência chinesa e o governo estadunidense inclinado a impor tarifas.

“Seria muito frustrante que a Europa não conseguisse um acordo com o Mercosul”, declarou o primeiro-ministro espanhol, Pedro Sánchez.

“Se a União Europeia quer continuar sendo confiável na política comercial global, então as decisões devem ser tomadas agora“, declarou o chanceler alemão, Friedrich Merz, em Bruxelas.

Porém, com França, Itália, Hungria e Polônia contra ou com uma tendência de abstenção, o acordo não obteria a maioria necessária na UE para permitir a assinatura, caso seja submetido à votação.

Editado por: Maria Teresa Cruz

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