CAFÉ COM JORNALISTAS

Lula diz que vai falar com Trump antes do Natal para evitar guerra na Venezuela

Na coletiva, o presidente falou ainda sobre eleições, dosimetria, relação com o Congresso, Correios, INSS e outros temas

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Presidente Lula, durante coletiva de imprensa, nesta terça (18), no Palácio do Planalto.
Presidente Lula, durante coletiva de imprensa, nesta quinta (18), no Palácio do Planalto. | Crédito: Ricardo Stuckert/PR

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) afirmou, nesta quinta-feira (18) que deve falar com o homólogo dos Estados Unidos, Donald Trump, ainda antes do Natal, para evitar uma guerra na Venezuela

“Eu estou pensando: antes de chegar o Natal, eu possivelmente tenho que conversar com o presidente Trump outra vez, para saber o que é possível o Brasil contribuir para que a gente tenha um acordo diplomático e não uma guerra fratricida”, declarou o presidente durante coletiva de imprensa nesta manhã, no Palácio do Planalto.

Lula disse que tratou do assunto com o presidente dos Estados Unidos na última chamada que tiveram, em 2 de dezembro, após ter dialogado com o venezuelano Nicolás Maduro, e voltou a se colocar à disposição para mediar diplomaticamente a situação. 

“Falei para o Maduro que se ele quisesse que o Brasil ajudasse alguma coisa, ele tinha que dizer o que ele gostaria que a gente fizesse. E disse ao Trump: ‘Se você achar que o Brasil pode contribuir, nós teremos todo interesse de conversar com a Venezuela e conversar com vocês, conversar com outros países para que a gente evite um confronto armado aqui na América Latina e na nossa querida América do Sul’, relatou o presidente.

O presidente brasileiro disse que ainda trata de entender o que está por trás das ameaças dos EUA contra a Venezuela, e disse que o tema é de interesse direto do Brasil. 

“Nunca ninguém diz concretamente por que é preciso fazer essa guerra. Não sei se o interesse é só o petróleo da Venezuela, não sei se o interesse são os minerais críticos, não sei se o interesse são as terras raras. O dado concreto é que ninguém coloca na mesa o que quer”, destacou.

“Nós temos muitos quilômetros de fronteira com a Venezuela. Nós não queremos uma guerra aqui no nosso continente”, completou Lula. 

Democracia e extrema direita

Questionado pelo Brasil de Fato se temia alguma ingerência dos Estados Unidos e da extrema direita internacional nas eleições no Brasil, o presidente Lula disse que ganhará as eleições pelos “trabalhos prestados ao país” e criticou o discurso “negacionista” e “destrutivo” da extrema direita

“Graças a Deus, a gente não vai precisar de dinheiro do FMI [Fundo Monetário Internacional], nem do Banco Mundial, nem dos Brics. Nós vamos ganhar as eleições pelos trabalhos prestados que foram feitos nesse país”, disse o presidente. “E esse discurso negacionista que tem ganhado, se você pegar as propostas, é uma proposta destrutiva, porque não coloca nada no lugar, é só destruir o que tem”, completou, reiterando que “está tranquilo” para o processo eleitoral.

“Eu tenho tanta tranquilidade da nossa relação externa, eu tenho tanta tranquilidade da nossa economia e das políticas de inclusão social que nós fizemos, da questão climática, da transição energética, que não existe um tema que eu não esteja tranquilo para debater com quem quer que seja. Então, eu acho que nós estamos muito tranquilos e aqui no Brasil a extrema direita não voltará mais a governar esse país”, afirmou, agregando que ainda há muito o que fazer.

“Eu ainda não tenho ninguém do Prouni em nenhuma instância superior no poder Judiciário. Os meninos das nossas cotas que se fizeram universidade ainda não estão em nenhuma instância de poder. Então o sistema são eles. Então o que nós precisamos é fazer esse debate coerente. E é isso que eu quero fazer, finalizou. 

Haddad candidato

Ainda sobre as eleições de 2026, o presidente foi questionado sobre o futuro político do ministro da Fazenda, Fernando Haddad, e afirmou que gostaria que ele fosse candidato. 

“É impossível você imaginar uma pessoa da envergadura do Haddad deixar o Ministério da Fazenda e voltar para casa. Acho que nem eu, nem a Ana Estela [esposa de Haddad] iríamos gostar. Mas de qualquer forma, nós estamos terminando o ano, quando começar o ano eu vou chamar muitos ministros que vão sair para ser candidatos e eu vou então decidir com eles o que eles querem fazer da vida. Eu sei que tem uma enxurrada de ministros que vão sair, eu acho que pelo menos 18 acho que vão sair. Não vou impedir ninguém de sair. Vou apenas torcer para que os que saíram sejam eleitos”, disse Lula. 

Por outro lado, o presidente sinalizou que avalia como estratégica disputa em São Paulo tanto para o governo estadual como para o Senado. 

“Vou conversar com o Haddad e com o Alckmin, porque são duas pessoas que eu tenho profundo respeito, admiração. Eu vou querer saber se eles quiserem ser alguma coisa, o que eles querem ser. Eu acho que nós precisamos de um candidato a governador em São Paulo forte e precisamos de um candidato ao Senado forte. Nós temos chance de fazer governador e fazer senador em São Paulo”, apontou. 

Candidatura de Flávio Bolsonaro 

O presidente declarou que não tem capacidade para julgar adversários e que não irá julgar o filho ou a família do ex-presidente Bolsonaro

“Eu não tenho nenhuma capacidade de julgar adversário. O adversário acha que pode ganhar, filia-se, é candidato e vamos para a disputa. Eu não cabe julgar o filho do Bolsonaro, o neto do Bolsonaro, a mulher do Bolsonaro. Eu não vou julgar. Saiam quantos quiserem. O dado concreto é que nós vamos ganhar as eleições”, afirmou. 

Correios e INSS

O presidente lamentou a crise dos Correios, destacando que uma empresa pública, embora não precise ser a “rainha do lucro, não pode ser a rainha do prejuízo”. 

“Nós não podemos ter uma empresa pública, por mais importante que ela seja, dando prejuízo. Eu sempre digo que a empresa pública não precisa ser a rainha do lucro, mas ela não pode ser a rainha do prejuízo, ela tem que se equilibrar”, defendeu o presidente, relatando ainda que trocou a presidência da empresa e está trabalhando com os ministros Esther Dweck (Gestão e da Inovação em Serviços Públicos do Brasil) e Rui Costa (da Casa Civil) para apresentar um balanço concreto e tomar as medidas necessárias para tornar a empresa produtiva. 

Por outro lado, Lula foi enfático ao dizer que, enquanto ele for presidente, não haverá privatização. “Enquanto eu for presidente, não tem privatização. O que pode ter é construção de parceria com empresas. Eu sei que tem empresas italianas querendo vir aqui discutir com o Correio. Eu sei que tem outras empresas brasileiras que querem discutir o Correio. Mas enquanto estiver na Presidência, a palavra privatização dessas empresas não vai existir. Pode existir parceria, pode transformar a empresa em empresa de economia mista, mas privatização não vai ter”, atestou.

Participaram da coletiva de imprensa nesta terça (18) 61 repórteres de 43 veículos diferentes.
Participaram da coletiva de imprensa, nesta quinta (18), 61 repórteres de 43 veículos diferentes | Crédito: Ricardo Stuckert/PR

Lula também comentou os desdobramentos das operações relacionadas à fraude no Instituto Nacional do Seguro Social (INSS) que, nesta quinta, realizou diligências envolvendo o número 2 do Ministério da Previdência, e o vice-líder do governo no Senado, senador Weverton Rocha (PDT-MA).

“No caso do INSS, nós já devolvemos para quatro milhões de pessoas R$ 4,75 milhões e todas as pessoas que estiverem envolvidas, diretamente ou não, elas vão ser investigadas pela Polícia Federal”, disse Lula, que foi questionado sobre uma suposta demora nas investigações. 

“Demorou porque, como a gente não quer fazer pirotecnia, a gente queria investigar com seriedade. A Controladoria Geral da União levou praticamente dois anos fazendo investigação, porque seria muito fácil você fazer uma denúncia e não apurar. E a operação demorou, e fomos nós do governo que tomamos a decisão de comunicar à sociedade brasileira o desfeito”. 

Acordo Mercosul – União Europeia

O presidente Lula informou que, após 26 anos de tentativas, o acordo entre Mercosul e União Europeia parecia próximo, com a União Europeia tendo se comprometido a fechá-lo este ano. Lula destacou que, embora o acordo seja mais favorável à União Europeia, o Mercosul está 100% disposto a realizá-lo devido à sua importância política e por envolver 722 milhões de pessoas e 22 trilhões de dólares. 

“Da parte do Mercosul está tudo resolvido. O Mercosul está 100% disposto a fazer o acordo. Mesmo não ganhando tudo que a gente queria ganhar, o acordo é mais favorável à União Europeia do que a nós”, disse o presidente.

O acordo entre os dois blocos seria assinado no próximo sábado (20), durante a Cúpula de Líderes do bloco sul-americano em Foz do Iguaçu. Mas a novidade recente é que, além da França, que sempre foi contra o acordo, a Itália também apresentou hesitação. Lula disse que conversou com a primeira-ministra italiana, Giorgia Meloni, que não é contra o acordo, mas pediu um prazo de até um mês devido a um “embaraço político” com os agricultores italianos. 

“Eu disse para ela [Giorgia Meloni] que vou colocar o que ela me falou na reunião do Mercosul e vou propor aos companheiros decidir o que querem fazer”, afirmou. “Bem, se não vai ser possível assinar agora porque não vai estar pronto, eu também não posso fazer nada. Vamos aguardar amanhã. A esperança é a última que morre”. 

Tarifaço 

Em relação às taxas impostas pelos Estados Unidos, o presidente defendeu o direito soberano de qualquer país de taxar produtos estrangeiros se estes estiverem causando prejuízo ao desenvolvimento nacional. No entanto, Lula disse que foi contra a taxação específica imposta anteriormente porque os motivos alegados pelos EUA não eram verdadeiros. 

Mesmo que o governo dos EUA tenha suspendido a maior parte das tarifas, Lula afirmou que envia uma mensagem pessoal a Trump a cada 15 dias para resolver toda a questão comercial. E ponderou que se não houver solução, o Brasil poderá adotar a reciprocidade.

“Se chegar o momento, a gente entende que não vai ter solução, nós poderemos colocar em prática a reciprocidade, porque eu não tenho interesse. Eu tenho interesse de continuar com uma boa relação com os Estados Unidos da forma mais civilizada, como sempre foi”, declarou. 

Relação com o Congresso

O presidente reiterou sua indicação do ministro da Advocacia-Geral da União, Jorge Messias, para o Supremo Tribunal Federal (STF), afirmando que o advogado é altamente capacitado e que sua escolha é um dever e direito do presidente da República. Lula reconheceu que houve uma “confusão” envolvendo o Senado, mas negou qualquer crise pessoal com os líderes do Congresso, Davi Alcolumbre (União-AP) e Hugo Motta (Republicanos-PB).

“Eu continuo com o nome do Messias. Vou encaminhar a papelada toda do Messias. Eu sei que não será mais votado este ano. A gente vai ter que esperar a volta do Congresso Nacional. O poder judiciário vai entrar de férias, o Congresso vai entrar de férias. Só quem não vai entrar de férias sou eu. Então eu vou fazer com que quando voltar o recesso, o nome do Messias esteja lá e eu espero que haja votação”, afirmou o presidente. 

“Veja, não tem nada pessoal entre eu e o companheiro Alcolumbre. Eu sou amigo do Alcolumbre, gosto pessoalmente dele. Ele tem nos ajudado de forma extraordinária a aprovar grande parte das coisas que a gente quer aprovar”, ressaltou.

Por outro lado, o presidente Lula afirmou que vai vetar o PL da Dosimetria, que reduziu drasticamente as penas para os condenados pela tentativa de golpe de Estado no Brasil, que recebeu apoio do Alcolumbre e Motta. 

“Eu tenho dito que as pessoas que cometeram crime contra a democracia brasileira terão que pagar pelos atos cometidos contra esse país. E, portanto, nem terminou o julgamento ainda. Nem terminou. Ainda tem gente sendo condenado e o pessoal já resolve as penas. Eu quero dizer para vocês que, com todo o respeito que eu tenho ao Congresso Nacional, hora que chegar na minha mesa, eu vetarei”.

Sobre a pauta do próximo ano, o presidente defendeu a aprovação do projeto que acaba com a chamada escala 6 por 1, quando o trabalhador trabalha seis dias por semana, folgando apenas um. E disse ser favorável à redução da jornada de trabalho sem redução de salário. “Eu acho que o país está pronto e a economia está pronta para o fim da escala seis por um”, destacou Lula.

“Não existe um único argumento que possa dizer que a sociedade brasileira não está pronta, porque se nos anos 80 a gente já queria reduzir a jornada de trabalho e já faz então 45 anos, a gente tem que pedir os avanços tecnológicos desses 45 anos para saber que quando eu era presidente do sindicato, a Volkswagen tinha 44.000 trabalhadores e produzia 100 carros por ano. Hoje ela tem só 12 e produz o dobro. Então, por que não reduz a jornada de trabalho para o trabalhador ficar mais tempo em casa, cuidar melhor da família, estudar um pouco mais?”, questionou.

Taxa de Juros

Questionado sobre a alta taxa de juros, mantida pelo Banco Central em 15%, o presidente expressou 100% de confiança no presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, no entanto, ressaltou que nunca foi a favor da independência do Banco Central. 

“Eu nunca fui favorável à independência do Banco Central, nunca. Achei que o presidente da República indica o presidente do Banco Central e tira a hora que quiser. Fernando Henrique Cardoso tirou quantos? Quatro ou cinco. Você coloca o presidente do Banco Central, ele não dá certo, você tira”, declarou. 

Lula disse estar sentindo um “cheiro” de que a taxa de juros logo começará a baixar, o que seria benéfico para o país, a indústria, o emprego e o salário.

“Eu estou sentindo um cheiro de que logo logo a taxa de juro vai começar a baixar. Agora o Banco Central tem autonomia. É importante lembrar que jamais eu farei pressão para que o Galípolo tome a atitude que tiver que tomar. É ele que tem que tomar a decisão. Eu espero que ele esteja cheirando o mesmo ar de desejo que eu estou cheirando agora. E se ele fizer isso, vai ser bom para ele, vai ser bom para mim, vai ser bom para o Brasil, vai ser bom para a indústria, vai ser bom para o desemprego, para o salário e vai ser bom para todo mundo”, afirmou o presidente.

Ataques de Zezé de Camargo às filhas de Sílvio Santos

Ao final da coletiva, de forma espontânea, o presidente manifestou solidariedade às filhas de Silvio Santos em razão do ataque feito por Zezé de Camargo. O cantor sertanejo fez críticas às donas do SBT por terem convidado o presidente para o lançamento do canal de notícias da emissora.  

“Que você transmita às filhas do Silvio Santos a minha solidariedade pela cretinice do ataque que o Zezé de Camargo fez a elas. Ele não teria coragem de fazer aquele ataque a homens, mas ele fez às mulheres”, disse o presidente, dirigindo-se ao repórter do canal. 

O presidente finalizou a coletiva se comprometendo a dedicar tempo para a luta contra o feminicídio. “E quero terminar dizendo para vocês, mulheres, a minha luta contra o feminicídio é de verdade. Eu vou dedicar um tempo da minha governança para tentar combater o feminicídio e a violência contra a mulher nesse país”, finalizou. 

Acompanharam a coletiva os ministros do Meio Ambiente e Combate à Mudança do Clima, Marina Silva, da Fazenda, Fernando Haddad, das Relações Exteriores, Mauro Vieira, e da Casa Civil, Fernando Haddad, além do secretário executivo da Secretaria de Comunicação Social da Presidência, Tiago César dos Santos. Participaram 61 repórteres de 43 veículos diferentes. 

Editado por: Luís Indriunas

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