Pacificação

China desempenha papel central no acordo de cessar‑fogo entre Camboja e Tailândia

Apoio diplomático de Pequim põe fim a combates na fronteira que deixaram cerca de 1 milhão de pessoas deslocadas

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Após o anúncio do cessar‑fogo entre Camboja e Tailândia, os ministros das Relações Exteriores Prak Sokhonn (Camboja), Sihasak Phuangketkeow (Tailândia) e Wang Yi (China) posam para foto durante encontro em Yunnan, China, em 29 de dezembro de 2025
Após o anúncio do cessar‑fogo entre Camboja e Tailândia, os ministros das Relações Exteriores Prak Sokhonn (Camboja), Sihasak Phuangketkeow (Tailândia) e Wang Yi (China) posam para foto durante encontro em Yunnan | Crédito: Agence Kampuchea Press (AKP)

Após semanas de combates intensos na fronteira entre Camboja e Tailândia, que deixaram mais de 100 mortos e deslocaram quase um milhão de pessoas, os dois países anunciaram, no final de dezembro de 2025, um cessar‑fogo imediato. O acordo é resultado de negociações diplomáticas em que a China desempenhou papel central como mediadora, promovendo estabilidade regional e oferecendo apoio humanitário.

O cessar‑fogo estabelece a suspensão das hostilidades, manutenção das posições militares atuais e a liberação de soldados cambojanos detidos, condicionada ao cumprimento de um período de observação de 72 horas. Apesar de relatos isolados de pequenas violações, a medida representa uma redução significativa da violência e abre caminho para o retorno seguro das comunidades afetadas.

China conquista a paz

A China assumiu papel central na resolução do conflito, promovendo encontros trilaterais em Yunnan, no sudoeste do país, e enviando um representante especial à região, Deng Xijun, responsável por mediar diretamente entre Camboja e Tailândia. Entre 18 e 23 de dezembro de 2025, Deng se reuniu com chefes de governo, ministros das Relações Exteriores, ministros da Defesa e altos comandantes militares de ambos os países, pressionando pela trégua imediata, proteção de civis e retomada do diálogo político.

Paralelamente, o ministro das Relações Exteriores, Wang Yi, conduziu negociações diplomáticas com o objetivo de consolidar a trégua, restaurar a confiança mútua e retomar relações diplomáticas normais.

Fontes oficiais chinesas afirmam que Pequim facilitou a comunicação direta entre Phnom Penh e Banguecoque e apoiou a observação da trégua pela Asean, a Associação de Nações do Sudeste Asiático, formada por 10 países da região, responsável por promover cooperação econômica, política e de segurança.

A China também ofereceu assistência humanitária, incluindo suprimentos básicos, medicamentos e logística para transporte e acomodação de deslocados. A atuação conjunta da China e da Asean ajudou a conferir legitimidade multilateral ao cessar-fogo, garantindo monitoramento da trégua, proteção de civis e apoio à diplomacia regional.

Wang Yi destacou que a China continuará acompanhando a implementação do cessar-fogo e incentivando negociações políticas para evitar novos confrontos.

Crise humanitária

O conflito entre Camboja e Tailândia provocou uma das maiores crises humanitárias recentes na região, afetando quase um milhão de pessoas devido aos combates intensos, ataques aéreos e artilharia pesada nas áreas fronteiriças.

No Camboja, mais de 500 mil pessoas foram deslocadas, das quais 322.545 permanecem em centros de acolhimento provisório, enquanto outras buscam abrigo com familiares ou comunidades vizinhas.
Na Tailândia, aproximadamente 430 mil pessoas foram evacuadas de áreas de risco, incluindo milhares de crianças e famílias.

Ao todo, estima-se que mais de 950 mil pessoas foram afetadas, aproximando-se de um milhão de deslocados antes do cessar‑fogo.

O acordo abre caminho para que essas comunidades retornem com segurança às suas casas, enquanto a ajuda humanitária chinesa e regional continua a chegar às áreas mais afetadas, com distribuição de alimentos, medicamentos e materiais de reconstrução.

Monges budistas cambojanos e outros participantes participam de cerimônia pela paz no memorial Win-Win, em Phnom Penh, após a Tailândia e o Camboja concordarem com um cessar-fogo ‘imediato’.
Monges budistas cambojanos e outros participantes participam de cerimônia pela paz no memorial Win-Win, em Phnom Penh, após a Tailândia e o Camboja concordarem com um cessar-fogo ‘imediato’. | Crédito: Tang Chhin Sothy/AFP

Estabilidade regional

A instabilidade na fronteira entre Camboja e Tailândia não afeta apenas os dois países, mas gera repercussões em toda a região do Sudeste Asiático. Conflitos desse tipo podem interromper rotas comerciais importantes, afetando o transporte de produtos agrícolas, minerais e manufaturados entre os dois países e com seus vizinhos.

Durante o período mais intenso do conflito, alguns pontos fronteiriços registraram quedas de mais de 20% no comércio terrestre, e, em momentos críticos, o comércio chegou a praticamente paralisar em determinadas rotas de passagem, refletindo o impacto imediato sobre pequenas e médias empresas e a circulação de bens essenciais.

Além disso, a tensão fronteiriça elevou os preços de produtos básicos em regiões próximas e gerou impacto sobre investimentos estrangeiros, com empresas internacionais adiando projetos por insegurança na região.

China mantém esforço por paz duradoura

A China destacou que a estabilidade de Camboja e Tailândia é fundamental para a paz regional e o desenvolvimento econômico sustentável, reforçando sua imagem como parceira diplomática confiável, capaz de mediar disputas entre países vizinhos de forma pacífica e sem escalada militar direta. Pequim também reafirmou seu compromisso em apoiar iniciativas multilaterais, incluindo a Asean, para manter o diálogo político, fortalecer o comércio regional e evitar novas crises humanitárias.

Pequim reafirma que está disposta a manter seu papel ativo, oferecendo suporte político, logístico e humanitário para consolidar a paz, prevenir novas escaladas e fortalecer a cooperação entre Camboja, Tailândia e Asean.

A continuidade do diálogo e o acompanhamento multilateral serão determinantes para evitar novas crises, garantindo a segurança das comunidades fronteiriças, a estabilidade regional e a manutenção do desenvolvimento econômico sustentável na região.

Contexto histórico


A fronteira de cerca de 800 km entre Camboja e Tailândia é historicamente marcada por disputas territoriais e conflitos sobre recursos naturais. Durante o período colonial francês (1863‑1953), o Camboja fazia parte da Indochina Francesa, e o território fronteiriço com a Tailândia foi palco de negociações e conflitos sobre demarcações, com algumas áreas sendo transferidas entre os dois países. Essas disputas históricas deixaram marcas profundas nas relações bilaterais, criando tensões persistentes ao longo do século 20.

Entre 1960 e 1970, incidentes fronteiriços já haviam causado mortes e deslocamentos de civis. Nos últimos anos, essas tensões se intensificaram, culminando no conflito de dezembro de 2025, caracterizado pelo uso de artilharia pesada, ataques aéreos e incursões com drones.

Editado por: Luís Indriunas

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