DEFESA DA SOBERANIA

Comitê de Apoio e Solidariedade à Venezuela é lançado em Porto Alegre

Evento na Casa Diógenes reúne entidades, juristas, dirigentes e movimentos para articular resistência e solidariedade

Ato marcou início da atuação do coletivo que foi batizado de Comitê Diógenes de Oliveira
Ato marcou início da atuação do coletivo que foi batizado de Comitê Diógenes de Oliveira | Crédito: Jorge Leão

A denúncia do sequestro do presidente venezuelano Nicolas Maduro e da primeira-comandante e deputada Cilia Flores pelos Estados Unidos, a defesa da autodeterminação dos povos e a articulação de uma rede de mobilização marcaram o lançamento do Comitê de Apoio e Solidariedade à Venezuela, realizado na noite desta quinta-feira (15), na Casa Diógenes, na Cidade Baixa, em Porto Alegre. O encontro reuniu representantes de entidades culturais, dirigentes políticos, militantes internacionalistas e integrantes de movimentos populares.

Organizado pela Associação Cultural José Martí e pela Casa Diógenes de Oliveira, o ato começou com um minuto de silêncio em homenagem aos 32 combatentes cubanos assassinados pelo Exército dos Estados Unidos durante a operação em Caracas que resultou no sequestro do presidente Maduro e de Cilia Flores. Foi lembrado que nesta quinta-feira os corpos dos combatentes retornaram a Cuba.

Na abertura, o jornalista Guilherme Oliveira, da Casa Diógenes, apresentou o espaço e destacou a importância da casa como centro de debate político e enfrentamento às ditaduras. Em seguida, Senira Beledelli, secretária da Associação Cultural José Martí, explicou o objetivo do novo comitê: “Para formar uma ponte de solidariedade com a Venezuela e o seu povo”.

Eleições na Venezuela e crítica ao capitalismo

Ato lotou a Casa Diógenes de Oliveira, em Porto Alegre
Ato lotou a Casa Diógenes de Oliveira, em Porto Alegre | Crédito: Jorge Leão

O juiz de direito Rui Portanova detalhou o funcionamento do sistema eleitoral venezuelano e ressaltou a existência de um poder eleitoral independente. “Lá são cinco poderes: o Judiciário, o Legislativo, o Executivo, o Poder popular e o Eleitoral”, disse. Portanova relatou que atuou como observador em eleições no país e descreveu o modelo de votação eletrônica com conferência em papel, acompanhada por fiscais de todos os partidos. Para ele, as críticas ao processo eleitoral fazem parte de uma ofensiva mais ampla: “O imperialismo com violência a favor do capitalismo”.

“É por causa do petróleo. É um presidente da América, do capitalismo, colocando toda a sua força para promover um sequestro, provavelmente em função do petróleo. Isso é uma avaliação pessoal, porque, no inverno, eles dependem das lareiras e do gás”, afirmou. Para ele, “o inimigo é o capitalismo”, e isso não pode ser perdido de vista.

Portanova entende que o comitê deve manter o foco na denúncia de um sistema que classificou como “exploratório e violento”, sobretudo contra mulheres, negros e pobres, e atuar para “fazer barulho contra o capitalismo e essa forma de imposição”.

Defesa da soberania e frentes da Revolução Bolivariana

Falando diretamente da Venezuela, Yhonny Garcia Calles, coordenador do Movimento de Amizade e Solidariedade Venezuela/Cuba, funcionário do Banco da Venezuela e assessor do Conselho Nacional Eleitoral, agradeceu a iniciativa brasileira e classificou como violação do direito internacional as ações praticadas pelo governo dos Estados Unidos. “Isso, evidentemente, viola todo o direito internacional, viola a Carta das Nações Unidas e o direito à autodeterminação dos povos”, afirmou, ao comentar o sequestro do presidente Nicolás Maduro e da primeira-comandante Cilia Flores.

Garcia Calles disse que a solidariedade internacional é uma das forças do povo venezuelano. “Para nós, hoje, é um orgulho saber que, a partir de Porto Alegre, surge um dos primeiros comitês de solidariedade pela liberdade do presidente Nicolás Maduro e da companheira Cilia Flores”, declarou. Ele criticou estereótipos sobre a situação no país. “É uma falácia dizer que na Venezuela estamos comendo os animais no zoológico. É assim que o império classifica os povos latinos, como selvagens”, disse. Também comentou a questão do petróleo, ao relatar que empresas norte-americanas deixaram o país em 2019 após a imposição de sanções.

Ele apresentou o que chamou de três linhas estratégicas de atuação do movimento venezuelano. A primeira, segundo Calles, está voltada à preservação da paz e da tranquilidade do povo. A segunda envolve a “batalha judicial, política e solidária” pela libertação de Maduro e Flores. Já a terceira tem como foco a manutenção e o fortalecimento do que definiu como “o poder da Revolução Bolivariana”, com a consolidação do poder popular e comunal e a transição ao socialismo.

Em tom crítico, afirmou que o governo de Donald Trump “pretende impor, com a diplomacia das canhoneiras e das bombas, o futuro dos povos deste continente e do mundo”, e que a ofensiva contra a Venezuela também ameaça países aliados, como Cuba, que chamou de “ilha da solidariedade e da liberdade”.

Solidariedade, informação e geopolítica

A vice-presidente municipal do PT de Porto Alegre, Maristela Maffei, destacou o papel das mulheres venezuelanas na resistência e afirmou ter se sentido pessoalmente atingida ao comentar o caso de Cilia Flores. “Ela apareceu para nós como uma pessoa que foi profundamente violentada, eu me senti, enquanto mulher, profundamente violentada, machucada física e espiritualmente”, declarou. Maffei também lembrou a ajuda enviada pela Venezuela ao Brasil durante a pandemia, citando o envio de respiradores a Manaus.

Eneida Brasil, do Comitê Suprapartidário Lula Livre pela Democracia na Cidade Baixa, de Porto Alegre, defendeu a construção de narrativas alternativas às versões predominantes nos grandes veículos. “Acho que tem que constituir, a partir desse comitê, a construção de uma contra-informação, para a gente se alimentar disso e poder fazer uma discussão mais qualificada”, afirmou.

O vice-presidente do PT no Rio Grande do Sul, Julio Quadros, avaliou que há uma mudança na conjuntura internacional e que o confronto político se tornou mais direto. “Antes nós brigávamos diretamente com os propósitos do capitalismo e com os propósitos do imperialismo. Agora a briga é direta com o real representante do imperialismo.” 

Para ele, Trump e representantes das indústrias armamentistas e do petróleo se deram conta que “ou eles agem agora ou eles vão perder a disputa histórica com a República Popular da China, com os Brics e com o que está do lado de cá”.

Quadros destacou que o ato não é isolado e chamou a atenção para o perigo do imperialismo. “Não há essa história de ‘química’ com Lula, isso é uma grande bobagem”, afirmou. Para ele, a defesa da soberania deve se estender a outros países e povos. “Cuba, México, Colômbia, Uruguai, assim como os povos da África e da Ásia, todos merecem a nossa solidariedade na luta por liberdade”, declarou.

Representando a Brigada Internacionalista do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), Cha Dafol relatou a experiência de viver na Venezuela e criticou o contraste entre a realidade observada no país e a imagem difundida pela imprensa internacional. “A minha vivência na Venezuela foi morar num país e ler na imprensa internacional coisas que não tinham nada a ver com o país onde eu estava”, afirmou.

Dafol reconheceu a crise econômica dos últimos anos, que atribuiu ao bloqueio dos Estados Unidos, mas disse que houve recuperação recente. “Hoje, 91% dos alimentos consumidos no país são produzidos no próprio país”, declarou, destacando políticas de diversificação econômica e incentivo à agroecologia.

Linhas políticas e propostas

O ato seguiu com discursos de representantes de outras entidades que se somam ao comitê. Também foram debatidas as linhas políticas comuns acordadas em nível continental. Entre elas, a defesa de uma campanha internacional pela “liberdade de Maduro e Cilia”; a rejeição da alegação de que Delcy Rodríguez é aliada dos EUA e que a invasão de 3 de janeiro foi um “ataque cirúrgico”; a rejeição de entender a invasão como promoção da democracia, mas sim como “roubo de petróleo”; e a “Venezuela não é uma ditadura, mas uma democracia popular”.

O grupo também definiu uma agenda de iniciativas, como a organização de brigadas de solidariedade para visitas de movimentos sociais à Venezuela, “a fim de romper o bloqueio midiático”; a promoção de intervenções culturais; a divulgação do Boletim Venezuela em Foco e o fortalecimento da Rede Continental de Mídia e Comunicadores da Aliança Bolivariana para os Povos da Nossa América (Alba) para cobertura conjunta de mobilizações.

Batizado de Comitê Diógenes de Oliveira, o grupo segue em articulação. Neste domingo (18), estará nos Arcos do Expedicionário, na Redenção, das 10h às 16h.

Editado por: Katia Marko

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