Democracia?

Estados privatizados: bilionários têm 4 mil vezes mais chances de ocupar cargos políticos que a população em geral

Relatório da Oxfam denuncia como super-ricos moldam leis, ocupam governos e reprimem quem contesta privilégios

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Billionaires Mark Zuckerberg, Jeff Bezos and Elon Musk, during Donald Trump’s inauguration ceremony, on January 20, 2025
Billionaires Mark Zuckerberg, Jeff Bezos and Elon Musk, during Donald Trump’s inauguration ceremony, on January 20, 2025 | Crédito: JULIA DEMAREE NIKHINSON/ POO/LAFP

A presença de bilionários na política não é novidade na história, mas nos últimos anos tornou-se uma estratégia de poder consolidada por grupos econômicos cada vez mais ricos e restritos. Segundo novo relatório da Oxfam, esses indivíduos têm hoje quatro mil vezes mais chances de ocupar cargos públicos do que a população em geral, resultado de um sistema moldado para preservar privilégios e bloquear qualquer tentativa de redistribuição. O documento foi divulgado neste domingo (19), na abertura do Fórum Econômico Mundial, em Davos.

A captura dos Estados pela elite econômica é uma das principais teses do relatório Resistindo ao domínio dos ricos: protegendo a liberdade do poder dos bilionários, que analisa a atuação política dos super-ricos em escala global. A Oxfam afirma que os governos estão “tomando decisões deliberadas para agradar à elite”, enquanto reprimem protestos e enfraquecem direitos sociais e democráticos.

Para a diretora-executiva da Oxfam Brasil, Viviana Santiago, essa dinâmica representa uma ameaça direta às democracias. Ela avalia que “esses grupos pressionam os Estados e, ao mesmo tempo, começam cada vez mais a compor os próprios governos”. Segundo ela, “há uma tendência comprovada de captura do Estado por interesses oligárquicos, que atuam para bloquear reformas e manter privilégios”.

De acordo com Viviana, o poder dos bilionários não se limita a influenciar políticas públicas. Ela afirma que essas estratégias de dominação incluem também a repressão a quem contesta o modelo vigente. “A atuação desses Estados deixa de ser voltada à redistribuição e ao reconhecimento da cidadania e passa a ser voltada à repressão”, diz ao Brasil de Fato.

A Oxfam destaca que os retrocessos democráticos estão diretamente ligados ao aprofundamento da desigualdade. O relatório cita uma Pesquisa Mundial de Valores, feita em 66 países, que mostra que quase metade das pessoas acredita que os ricos frequentemente compram eleições em seus países. Além disso, o risco de erosão democrática – como enfraquecimento de instituições, censura e perseguição a opositores – é sete vezes maior em países com alta concentração de riqueza.

Super-ricos no governo, protestos reprimidos nas ruas

O relatório descreve o avanço global de uma elite política formada por bilionários ou diretamente conectada a seus interesses. Um exemplo citado pela Oxfam é o retorno de Donald Trump à presidência dos Estados Unidos, em 2025. A organização aponta que a nova gestão estadunidense seguiu uma agenda abertamente pró-bilionários, promovendo cortes de impostos para os super-ricos, fragilizando regulações sobre grandes corporações e impedindo avanços na taxação de lucros e dividendos e, mais, fazendo isso para enriquecimento próprio.

Em dezembro de 2025, segundo levantamento da revista Forbes, o patrimônio pessoal de Trump chegou a US$ 6,7 bilhões (cerca de R$ 37 bilhões) após a valorização de ações da Trump Media, sua empresa de mídia e tecnologia. A fusão da companhia com a TAE Technologies, avaliada em US$ 6 bilhões, deve transformar a holding do ex-presidente em controladora de negócios de energia, rede social e serviços financeiros. A operação prevê ainda aportes de até US$ 300 milhões em caixa – tudo isso enquanto Trump ocupa o cargo de chefe de Estado da principal potência econômica do planeta.

Para Viviana Santiago, a eleição de Trump foi um “ano de presente para os super-ricos”. Ela destaca que sua administração “atuou para enfraquecer legislações de proteção trabalhista, manter monopólios e frear qualquer avanço na tributação dos setores mais lucrativos, como o de inteligência artificial”. Segundo ela, esse tipo de governo atua sistematicamente “para impedir a redistribuição de renda e aprofundar a exploração”.

Enquanto o topo da pirâmide concentra poder político, as vozes dissidentes são silenciadas. O relatório da Oxfam aponta que, em 2024, houve mais de 140 protestos significativos em 68 países. Em muitos deles, a resposta foi violenta. No Quênia, manifestações contra a nova lei fiscal resultaram em 39 mortes e 71 desaparecimentos forçados, com denúncias de tortura e sequestros. Já na Argentina, sob o governo de Javier Milei, a repressão a atos sindicais deixou mais de mil feridos, 33 deles baleados no rosto com munição não letal.

A organização sustenta que esse padrão de repressão não é exceção, mas parte da lógica dos “Estados capturados” descritos no relatório. “Esses governos atuam cada vez mais como representantes das oligarquias e se distanciam da função de garantir direitos e igualdade”, resume Viviana.

O relatório também alerta para o uso das redes sociais como ferramenta de vigilância e repressão política. Em um dos casos citados, autoridades quenianas utilizaram o X (ex-Twitter) para rastrear opositores. Segundo estudo da Universidade da Califórnia, após a compra da plataforma por Elon Musk, o discurso de ódio aumentou cerca de 50%.

Fórum de Davos

O documento foi lançado durante o Fórum Econômico Mundial, que acontece entre os dias 19 e 23 de janeiro, em Davos, na Suíça. O evento reúne chefes de Estado, presidentes de grandes empresas e representantes das maiores fortunas do planeta.

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva não participa da edição de 2026 – o Brasil é representado pela ministra do Planejamento, Simone Tebet. Enquanto o tema oficial do encontro é “Um espírito de diálogo”, a Oxfam denuncia a aliança cada vez mais explícita entre elites políticas e econômicas que, segundo a organização, estão minando as bases da democracia.

Editado por: Luís Indriunas
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