Fortalecimento

‘China e Rússia devem aprofundar relações com América Latina para conter ameaças dos EUA’, diz pesquisador chinês

Niu Haibin, diretor do Centro de Estudos Latino-americanos da Universidade de Xangai nos falou sobre a nova conjuntura

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O Centro de Estudos Latino-Americanos da Universidade de Xangai é referência na China em pesquisas e cooperação com a América Latina. Professor Niu Haibin na biblioteca, onde concedeu entrevista ao BdF
O Centro de Estudos Latino-Americanos da Universidade de Xangai é referência na China em pesquisas e cooperação com a América Latina. Professor Niu Haibin na biblioteca, onde concedeu entrevista ao BdF | Crédito: Bruno Falci/Brasil de Fato

Para o professor Niu Haibin, diretor do Centro de Estudos da América Latina da Academia de Ciências Sociais de Xangai, um dos pilares para o fortalecimento da soberania dos países da América Latina ameaçados pelos Estados Unidos de Donald Trump está em aprofundar as alianças internacionais entre o sul global. Em entrevista ao Brasil de Fato, ele analisou a atuação da China, da Rússia e do Brics frente aos ataques contra a Venezuela.

“A China e a Rússia, em parceria com os países do Brics, podem oferecer suporte político e econômico aos países da região, mostrando que a América Latina não está sozinha diante da pressão unilateral dos Estados Unidos”. ele salientou, ainda, que “o futuro da América Latina depende da construção de alianças estratégicas e do respeito ao multilateralismo”.

Para Niu, a escalada dos ataques estadunidenses evidencia um problema histórico na região. Bombardeios no território nacional, que assassinaram 100 pessoas, e o sequestro do presidente Nicolás Maduro e da primeira-dama Cilia Flores demonstram que a hegemonia dos EUA continua sendo um desafio para a autonomia política e econômica da América Latina, que já vinha sofrendo sanções econômicas e bloqueios contra países que não estão alinhados a Washington, como Venezuela, Cuba e Nicarágua. O diretor afirma que é fundamental compreender melhor o cenário e o papel das alianças do sul global.

“Países fora da região, como China e Rússia, devem fortalecer sua cooperação com a América Latina, consolidando a colaboração e tornando os países menos vulneráveis à pressão dos Estados Unidos. Instituições como BRICS, G20 e ONU precisam promover mais diálogos e ações coletivas para enfrentar essas ameaças, garantindo a soberania dos povos latino-americanos e a estabilidade da região”.

Niu ressalta que essas alianças não se limitam ao apoio econômico, mas também fortalecem a posição diplomática e estratégica da região:

“O Brics deve intensificar diálogos com América Latina, não apenas com palavras, mas com ações concretas de cooperação em segurança, comércio e tecnologia. Isso cria um ambiente internacional menos vulnerável às tentativas de dominação externa”.

O especialista destaca ainda que a atuação da China visa um mundo multipolar, diferente da lógica de hegemonia. “O objetivo da China é promover um sistema internacional mais equilibrado, em que a América Latina seja respeitada como parte do Sul Global. Nossa cooperação não é exploração, mas parceria estratégica baseada na soberania e no desenvolvimento mútuo”.

Ele conclui reforçando a importância de instituições multilaterais. “Países do Brics, junto a organismos como G20 e ONU, devem manter reuniões constantes e estratégias coordenadas, garantindo que a soberania venezuelana e regional não seja violada por ações unilaterais de potências hegemônicas”.

Haibin enfatizou que a América Latina enfrenta uma fase de vulnerabilidade histórica, mas que é possível fortalecer sua autonomia por meio de articulação e cooperação regional. “Os países latino-americanos precisam intensificar o diálogo e a coordenação para enfrentar desafios conjuntos, como o crime transnacional, a imigração e as pressões externas. Somente uma ação conjunta poderá proteger a soberania regional e impedir que interesses externos determinem o destino das nações”, disse.

O professor também destacou a necessidade de visibilidade internacional das ações dos países latino-americanos: “É importante que a comunidade internacional conheça os esforços da região para lidar com problemas internos. Mostrar que estes desafios não justificam intervenção externa ajuda a revelar as verdadeiras intenções de Washington e fortalece a posição de soberania da América Latina”.

Niu lembrou que a cooperação com potências externas deve ser estratégica e respeitar a soberania local. “Países como China e Rússia podem apoiar o desenvolvimento da região, mas sempre respeitando as decisões e prioridades dos governos latino-americanos. A chave é a cooperação igualitária, sem submissão a interesses hegemônicos”.

Para o especialista, a resistência política e diplomática será decisiva nos próximos meses. “A América Latina precisa mostrar unidade e capacidade de resposta. Não é apenas sobre defender um país, mas proteger a estabilidade de todo o hemisfério, garantindo que a região não volte a ser tratada como quintal de qualquer grande potência”.

China defende soberania da Venezuela e mundo multipolar

O professor Niu Haibin destacou a posição da China frente às ações dos Estados Unidos na Venezuela e reforçou a importância de respeitar a soberania regional. Segundo ele, Pequim rejeita qualquer tentativa de enquadrar a América Latina como área de influência exclusiva de uma potência.

“Em primeiro lugar, China se opõe à Doutrina Monroe e à ideia de uma esfera de influência promovida pelos EUA. Consideramos a América Latina parte do Sul Global e uma região estratégica para promover um mundo multipolar e a globalização econômica. Não aceitamos que qualquer país trate a região como seu quintal”.

China apoia plenamente a soberania da Venezuela e reconhece que as autoridades venezuelanas têm controle total sobre seus recursos naturais. Nossas relações comerciais e investimentos no país não serão afetados por preocupações de segurança de Washington, e faremos todos os esforços para proteger nossos direitos legítimos”, destacou.

Niu destaca ainda que Pequim não pretende recuar diante de pressões externas e que proteger seus interesses legítimos também faz parte da defesa do multilateralismo. “A China insistirá em proteger seus direitos legítimos nas relações entre Estados Unidos e Venezuela e fará todo o possível para defendê-los”, conclui.

Revolução Bolivariana não se rende

“A Venezuela resiste aos ataques dos Estados Unidos e mantém sua soberania diante de ações unilaterais. A comunidade internacional tem trabalhado para liberar o presidente Maduro, e países latino-americanos precisam se articular para proteger sua soberania. Somente com cooperação regional e alianças estratégicas será possível enfrentar os desafios externos e garantir que a região não volte a ser tratada como quintal de qualquer grande potência”

O especialista enfatizou que essas ações não são episódios isolados, mas refletem padrões históricos de intervenção que ameaçam a estabilidade política, social e econômica da região:

“trata-se de uma violação do direito internacional; os Estados Unidos, ao agir unilateralmente, desrespeitam a soberania de um país latino-americano e tratam o hemisfério ocidental como se fosse de sua propriedade. Esta ação não é apenas uma violação do direito internacional, mas um ataque direto à soberania de um povo que luta por sua autodeterminação, e só fortalece a resistência da América Latina contra a hegemonia imperialista”.

Desde meados do século XX, a América Latina tem sido palco de intervenções diretas e indiretas dos Estados Unidos. Golpes de Estado, apoio a ditaduras militares e operações encobertas marcaram a região, como o golpe de 1954 na Guatemala, a derrubada de Salvador Allende no Chile em 1973 e a repressão de movimentos populares em diversos países durante a Guerra Fria. Nos últimos anos, sanções econômicas, pressões diplomáticas e ameaças militares tornaram-se ferramentas de hegemonia que comprometem a autonomia política e o desenvolvimento regional.

Para o professor Niu Haibin, os ataques recentes não se diferenciam dessas ações históricas:

“A América Latina tem sido tratada como um território de influência, e isso precisa mudar. A Venezuela hoje é alvo de ações que violam sua soberania e desrespeitam normas internacionais fundamentais. Mesmo países com menor poder militar ou econômico têm direito de definir seu próprio caminho, sem intervenção externa”, afirma.

Editado por: Nathallia Fonseca

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