Depois dos ataques dos Estados Unidos e do sequestro do presidente Nicolás Maduro, o governo venezuelano anunciou nesta quarta-feira (21) a realização de mais uma consulta popular das comunas. A votação está marcada para 8 de março, em celebração ao Dia Internacional da Mulher.
A presidenta em exercício da Venezuela, Delcy Rodríguez, disse que os projetos votados terão como foco os dois primeiros tópicos do plano de 7 Transformações, programa de governo formado por Nicolás Maduro. O primeiro deles é referente a Transformação Econômica, orientada a projetos produtivos locais que aumentem a renda da população. O segundo é a Cidade Humana e é focada em projetos de infraestrutura, serviços públicos e melhoras na moradia.
O modelo é o mesmo das outras consultas. Cada comuna define 7 projetos que serão votados. O que receber mais votos receberá US$ 10 mil para ser executado pelo governo.
“Que nos vejam pelo que somos: uma força em ação, uma força que trabalha pelos mais altos valores da nossa República e pelo que é mais sagrado: a felicidade do povo venezuelano”, declarou a presidenta.
Na última consulta, realizada em novembro de 2025, mais de 5 mil circuitos comunais participaram da eleição e puderam escolher entre mais de 36 mil projetos inscritos.
Rodríguez pediu que governadores e prefeitos trabalhem juntos pela “Venezuela, pelo povo e pela paz e estabilidade econômica, política e social” da nação. Essa será a primeira consulta realizada depois dos ataques estadunidenses. A política está consolidada desde 2024 e é realizada a cada três meses no país.
Ela também anunciou a segunda edição do “Obratón”, campanha de obras públicas realizada pelo governo. Ao todo, serão 8.234 projetos.
Como funciona a consulta
O caráter político dessas eleições vai além da política partidária. As comunas são uma concepção própria do Estado venezuelano idealizado pelo ex-presidente Hugo Chávez. O objetivo dele é que a gestão do Estado fosse feita de baixo para cima, e que a decisão dos conselhos comunais tivesse peso na decisão coletiva.
Os projetos votados são escolhidos a partir de um debate dentro dos conselhos comunais. Por meio de assembleias, os moradores são ouvidos e argumentam quais são, segundo a sua percepção, as principais demandas. A partir daí, os grupos escolhem os projetos mais urgentes e eliminam os menos necessários para aquele momento.
Diferentemente do pleito tradicional para eleições diretas, pessoas com mais de 15 anos podem participar da consulta popular. Seja para compra de ambulâncias, manutenção no abastecimento de água potável ou construção de rede de wi-fi pública, os venezuelanos escolherão os projetos em um processo que consideram ser a representação mais profunda da democracia participativa.
História
As experiências comunais foram institucionalizadas na lei orgânica das comunas, criada em 2010 durante o governo de Hugo Chávez. Com a regulamentação, o governo formalizou um tipo de organização que não era comum no país. A ideia era descentralizar o poder Executivo para o que passou a ser chamado constitucionalmente de Poder Popular.
A ideia era formar um Estado Comunal. Isso significa ter uma gestão do Estado por uma Federação Comunera, que seria uma estrutura que reúne as comunas do país. O objetivo é que o governo seja administrado de baixo para cima, no qual a decisão dos conselhos comunais tenha peso na decisão coletiva da Federação.
Nos últimos 14 anos, os comuneros viram mudanças bruscas na sociedade venezuelana, desde tentativas de golpes de Estado até a implementação de sanções dos Estados Unidos em 2015 contra a economia venezuelana, que minaram a capacidade de investimentos do Estado sobre os diferentes setores.
Os desafios enfrentados pelo governo venezuelano a partir do bloqueio também refletiram na relação das comunas com o processo político e econômico da Venezuela.
