Coação

Em audiência no Senado, Marco Rubio enfrenta críticas por ação na Venezuela e admite possibilidade de novos ataques

Apesar da ameaça, Rubio diz que ataque não está nos planos; especialistas apontam limites para novas ações militares

No audio source provided.
O secretário de Estado dos Estados Unidos, Marco Rubio, depõe durante uma audiência do Comitê de Relações Exteriores do Senado para falar sobre a política dos EUA em relação à Venezuela
O secretário de Estado dos Estados Unidos, Marco Rubio, depõe durante uma audiência do Comitê de Relações Exteriores do Senado para falar sobre a política dos EUA em relação à Venezuela | Crédito: Saul Loeb / AFP

Nesta quinta-feira (28), o secretário de Estado dos Estados Unidos, Marco Rubio, compareceu a uma audiência no Senado para falar sobre a operação militar realizada na Venezuela e a política da administração Trump em relação ao país caribenho. O depoimento teve duração aproximada de três horas.

Durante o depoimento, Rubio foi questionado por senadores a respeito da cooperação do governo Trump com o governo interino da Venezuela, liderado por Delcy Rodríguez. Segundo o secretário de Estado, as autoridades venezuelanas estão sendo acompanhadas de perto por Washington. 

Rubio afirmou que os Estados Unidos atuam de forma gradual, com o objetivo de promover o que chamou de transição democrática no país. “Isto não é uma refeição congelada, que você coloca no microondas e em dois minutos e meio está pronta para comer. São coisas complexas”, disse.

Rubio também declarou que o governo Trump não tem planos imediatos para lançar um novo ataque contra a Venezuela, mas não descartou o uso novamente da força caso o governo de Delcy Rodríguez deixe de “cooperar” com Washington.

“Não se enganem, como o presidente já declarou, estamos preparados para usar a força para garantir o máximo de cooperação, caso outros métodos falhem.”

O secretário de Estado afirmou ainda que o governo Trump fez “diversas tentativas” para que Nicolás Maduro deixasse a Venezuela voluntariamente antes da operação militar que resultou em seu sequestro. “Ele não é alguém com quem se possa fazer um acordo”, afirmou.

Questionado sobre o motivo de os Estados Unidos não trabalharem para que a oposição assuma o poder na Venezuela, Rubio reconheceu que o chavismo mantém o controle das forças de segurança do país. “As pessoas que controlam as armas estão nas mãos deste regime”, disse.

Ele negou que a operação que resultou no sequestro do casal presidencial e deixou cerca de 100 mortos, entre civis e militares, constitua uma declaração de guerra. A resposta foi apresentada como justificativa para o fato de o governo Trump não ter solicitado autorização prévia ao Congresso, como determina a legislação dos Estados Unidos, antes de lançar os ataques.

O secretário defendeu a ação como uma operação de caráter judicial contra narcotraficantes. “Não foi a ocupação de um país estrangeiro, mas uma operação para prender duas pessoas procuradas pela Justiça dos Estados Unidos”, argumentou.

Rubio afirmou ainda que, entre as expectativas dos Estados Unidos para uma transição na Venezuela, está o afastamento do país de aliados históricos, como Rússia, China e Irã.

Para o analista de política internacional Hugo Albuquerque, a presidenta interina da Venezuela enfrenta limites tanto no plano externo quanto no interno e, para conseguir manter os laços com os aliados históricos de Caracas, será preciso contar com o respaldo militar dessas nações.

“A Delcy, obviamente, não pode romper com a China e com a Rússia, mas ela também não tem como contrabalancear as exigências americanas, no curto prazo, sem apoio militar, porque é disso que se trata”, afirmou.

Segundo Albuquerque, o discurso de Rubio no Senado, no entanto, expõe limitações da ação dos Estados Unidos. “O próprio Rubio revela a fragilidade da tática americana. Foi cirúrgica em si, mas, no seu significado estratégico, foi uma ação débil, porque eles não tinham como remover o governo.”

Na audiência, em que Rubio respondeu a questionamentos de senadores, ficou evidente o descontentamento tanto de democratas quanto de republicanos em relação às políticas adotadas por Washington para a Venezuela. De acordo com Albuquerque, os dois partidos expressaram críticas por razões distintas.

“O lado democrata, que embora nem simpatizasse com Maduro, não queria intervenção, e uma parte do lado republicano gostaria que houvesse uma derrubada do governo”, disse.

O analista também afirmou que Washington se encontra em uma situação delicada para promover um eventual segundo ataque contra Caracas, já que isso poderia gerar impactos nos planos dos Estados Unidos relacionados ao petróleo venezuelano.

“Se os EUA destroem a Venezuela, há um problema, que é justamente esse desejo americano por petróleo e a necessidade de ter um fornecedor de petróleo próximo.”

O analista venezuelano Luis Javier Ruiz avalia que, apesar das ameaças, um eventual novo ataque contra Caracas colocaria em risco os planos dos Estados Unidos de manter algum nível de estabilização política no país.

“Eles não fazem nem executaram um segundo ataque ou um ataque total porque sabem que vão perder o controle político do país, dado a rejeição da população, em especial da população que respalda o presidente Maduro e o projeto do presidente Maduro.”

Ruiz também aponta que a rejeição às ações militares não se limita a setores alinhados ao governo chavista. Segundo ele, há resistência inclusive entre grupos da oposição.

“Inclusive há opositores que se declararam contra essas ações e rejeitaram o bombardeio. Isso que María Corina Machado diz, de que há uma unidade entre os venezuelanos para que ela se converta na dirigente do país, é falso.”

De acordo com uma reportagem da agência Reuters, relatórios de inteligência dos Estados Unidos levantaram dúvidas sobre a disposição de Delcy Rodríguez em levar adiante o rompimento de relações com países considerados adversários de Washington, o que faz parte da estratégia do governo Trump para o país latino-americano.

No domingo (25), durante discurso a trabalhadores do setor petrolífero no estado de Anzoátegui, Rodríguez afirmou estar “farta” das ordens de Washington.

“Chega de ordens de Washington sobre os políticos na Venezuela. Deixemos que a política venezuelana resolva nossas diferenças e conflitos internos. Chega de potências estrangeiras”, disse.

Para Ruiz, mesmo que haja avanços nas negociações entre Caracas e Washington, a tendência é de atritos ao longo do processo.

“Certamente há uma cooperação entre os governos de Caracas e Washington, isso é inegável. Mas a Venezuela mostrou historicamente um caráter soberano, porque acredita que é possível construir um projeto distinto de estar sob a tutela dos Estados Unidos, e isso é o que entra em choque com as pretensões de uma diplomacia submissa.”

Editado por: Luís Indriunas

|

Newsletter