Celebrado em diversas cidades do Brasil nesta segunda-feira (2), o Dia de Iemanjá marca festas e atos de devoção ao orixá das águas e mares, além de mobilizações contra o racismo religioso e em defesa do direito ao culto das religiões de matriz africana.
Em Salvador, a tradicional festa de Iemanjá foi tombada como Patrimônio Cultural em 2020, título concedido pela Fundação Gregório de Mattos (FGM), mas é celebrada no Rio Vermelho desde 1924. Neste ano, a celebração na capital baiana, a maior do país, começou ainda na noite deste domingo (1º), com a entrega do presente de Oxum, Rainha das Águas Doces, no Dique do Tororó.
A tradição manda que a mãe das águas doces seja homenageada antes da mãe das águas salgadas. “É preciso frisar que todas as águas doces, em algum momento, vão desaguar nos mares. Por isso, nós usamos a expressão de que é preciso, primeiro, adoçar o coração para depois salgar os pés, numa referência de que primeiro a gente leva os presentes a esta grande divindade, que é Oxum, para depois ir às águas salgadas levar as oferendas a esta outra grande mãe, que é Iemanjá”, afirma o presidente da Associação Brasileira de Preservação da Cultura Afro-Ameríndia (Afa), Leonel Monteiro, ao Correio 24 Horas.
As homenagens a Iemanjá têm início nesta segunda-feira (2) com a entrega do presente levado por pescadores ao mar. Por volta das 5h, a oferenda chegou à sede da Colônia de Pescadores, na Praia de Santana. Às 16h, o presente segue para a Loca de Iaiá, a cerca de três milhas náuticas da costa, com apoio da Capitania dos Portos da Bahia. Ao longo do dia, fiéis e visitantes podem depositar oferendas junto ao presente principal.
Pelo segundo ano consecutivo, a preparação da oferenda ficou a cargo de Mãe Nicinha de Nanã, do Terreiro Olufanjá. Elias Conceição, ogan da casa, informou que o processo envolve pedidos de permissão a Oxalá, orixá regente do terreiro, além de banhos e consultas aos orixás para a proteção das pessoas que participam da celebração.
O ritual é realizado em parceria com os pescadores, que acompanham o povo de terreiro até a entrega do presente no mar. “Há uma harmonia entre os terreiros e os pescadores. Nós vamos no barco com eles, ficamos no barracão, porque a entrega tem que ser feita na ritualística do terreiro”, disse ao g1.
Iemanjá é a ‘orixá mais brasileira’
Em entrevista ao programa Bem Viver, do Brasil de Fato, a jornalista e doutoranda em ciências da religião Claudia Alexandre afirmou que Iemanjá é uma das figuras centrais das religiões de matriz africana. Ela explicou que a divindade também foi associada a Nossa Senhora no contexto do sincretismo criado a partir da perseguição às religiões afro-brasileiras.
“Hoje, além de celebrar a grande rainha do mar, temos muitos credos que, mesmo quem não vai na Igreja Católica, quem não vai em um terreiro, tem um apreço a essa simbologia que é tão brasileira. Iemanjá é a orixá mais brasileira que a gente tem hoje”, afirma.
Claudia Alexandre lembrou que a devoção a Iemanjá no bairro do Rio Vermelho, em Salvador, começou com o desaparecimento dos peixes em uma área conhecida pela pesca abundante, o que levou os pescadores locais a buscar proteção espiritual.
“Um deles fez uma promessa e ao sair para pescar encontrou uma imagem de Iemanjá. Na verdade, não de Iemanjá, mas de Nossa Senhora e que ficou relacionada porque há um sincretismo. E a pesca voltou a ser abundante depois disso. Coincidência não existe, mas há toda uma dimensão espiritual que agiu ali para que os pescadores fossem abençoados. E a partir daí, todo 2 de fevereiro, os pescadores promovem essa festa. As primeiras embarcações que saíram agora de manhã para o mar levam presentes a Iemanjá”, conta a pesquisadora.
Apesar de toda a importância da data e da longa história da celebração, o Dia de Iemanjá não é um feriado nacional.
