O Ministério das Relações Exteriores da China reagiu nesta segunda-feira (9) às declarações da primeira-ministra japonesa, Sanae Takaichi, sobre sua intenção de visitar o santuário Yasukuni, em Tóquio. O local homenageia 14 criminosos de guerra, entre outros japoneses que morreram a serviço do império. “Esquecer a história significa traição, negar os crimes é estar fadado a repeti-los”, disse o porta-voz do Ministério das Relações Exteriores chinês, Lin Jian, durante coletiva de imprensa.
Após uma vitória eleitoral massiva no domingo, Takaichi afirmou que trabalharia para “criar o ambiente” necessário para a visita e declarou que buscaria “compreensão” de aliados e países vizinhos.
O santuário Yasukuni homenageia cerca de 2,4 milhões de japoneses que morreram a serviço do império japonês desde meados do século XIX. O ponto central do conflito é que em 1978 foram incluídos no santuário, sem o conhecimento público, 14 criminosos de guerra classe A — ou seja, com maiores responsabilidades. Eles foram condenados pelo Tribunal Militar Internacional para o Extremo Oriente, que julgou os principais responsáveis pela agressão e atrocidades do Japão Imperial na Segunda Guerra Mundial. Entre os homenageados estão Hideki Tojo, primeiro-ministro durante a guerra, e outros líderes militares responsáveis por atrocidades cometidas durante a invasão japonesa de territórios asiáticos.
“O santuário Yasukuni é uma ferramenta espiritual e um símbolo do militarismo japonês que desencadeou guerras de agressão externa, e consagra 14 criminosos de guerra classe A que têm grave culpa pelas guerras de agressão”, disse Lin Jian.
“A questão do santuário Yasukuni é, em essência, sobre se o Japão pode ou não compreender corretamente e refletir profundamente sobre sua história de agressão militarista, o que diz respeito à consciência da humanidade, à base política das relações China-Japão e à credibilidade nacional do Japão”, complementou.
Lin destacou que 2026 marca o 80º aniversário da abertura do Tribunal de Tóquio e enfatizou que “o Japão deve especialmente enfrentar e refletir sobre a história de agressão, agir com cautela em questões históricas importantes como o santuário Yasukuni, não repetir os mesmos erros e se distanciar completamente do militarismo com ações concretas”.
Declarações após vitória eleitoral
Em entrevista à Fuji TV, na noite de domingo (8), o comentarista, Toru Hashimoto, confrontou a primeira-ministra sobre a visita ao santuário Yasukuni. “A senhora disse algo como: ‘Mesmo que eu me torne primeira-ministra, eu irei. Irei sem me importar com as vozes da China ou da Coreia do Sul’, mas até agora não foi. Deixar de visitar por causa do ‘timing’ ou de circunstâncias políticas é o ápice da blasfêmia contra a memória dos falecidos. Quando é que a senhora pretende ir?”, questionou.
Ela respondeu: “Estou me esforçando para criar o ambiente adequado para isso. Primeiro, vou buscar a compreensão dos nossos aliados. E então, pretendo obter a compreensão dos países vizinhos. Meu objetivo é criar um ambiente onde possamos, mutuamente, prestar respeito àqueles que morreram por seus respectivos países”.
A reportagem não encontrou uma menção pública de Takaichi à China ou a Coreia do Sul, como disse o comentarista, mas em várias ocasiões ela tem dito, como outros políticos da direita japonesa, que “o santuário Yasukuni não deveria ser uma questão diplomática”.
A última visita de um primeiro-ministro japonês em exercício ao Yasukuni ocorreu em dezembro de 2013, quando Shinzo Abe visitou o local, provocando forte reação de Pequim e uma manifestação de “decepção” da Casa Branca estadunidense, à época sob comando de Barack Obama.
Taiwan
Lin Jian voltou a pedir a retratação de Takaichi sobre suas declarações em relação a Taiwan, feitas semanas após assumir o cargo, quando a primeira-ministra sugeriu que o Japão poderia intervir militarmente caso houvesse um conflito na ilha. Essa se tornou a primeira vez que um primeiro-ministro ameaçou militarmente a China desde o final da Segunda Guerra Mundial.
“Instamos novamente o lado japonês a retirar as declarações errôneas de Takaichi sobre Taiwan e demonstrar com ações concretas a sinceridade básica de manter a base política das relações sino-japonesas”, afirmou o porta-voz.
“A determinação do povo chinês de salvaguardar os interesses fundamentais nacionais é inabalável, a determinação de defender os frutos da vitória na Segunda Guerra Mundial e a ordem internacional do pós-guerra é inabalável, e a determinação de contra-atacar e frustrar as provocações de várias forças anti-China é inabalável”, continuou.
Lin alertou que “se as forças de extrema-direita japonesas julgarem mal a situação e agirem arbitrariamente, encontrarão resistência do povo japonês e golpes frontais da comunidade internacional”.
