A Sapucaí está cheia de homenagens em 2026. Entre os 12 sambas-enredo que irão passar pela avenida, oito estão dedicados a narrar a história de vida de seus biografados ligados a arte, política e a religiões afro-brasileiras.
A escola que abre os desfiles é estreante no Grupo Especial, Acadêmicos de Niterói, campeã de Série Ouro em 2025. Em 2026, a Acadêmicos volta a falar de raízes nordestinas e homenageia a trajetória do presidente da República Luiz Inácio Lula da Silva.
Entre os homenageados mais contemporâneos também estão os músicos Ney Matogrosso, como tema da Imperatriz Leopoldinense, Rita Lee pela Mocidade e a carnavalesca Rosa Magalhães, pelo Salgueiro.A
Ainda há mais enredos biográficos que passarão pela Sapucaí. A Unidos da Tijuca se dedica à escritora Carolina Maria de Jesus. A Portela ao príncipe negro de Porto Alegre e líder religioso, Custódio do Bará. Indo ao outro extremo do país, a Mangueira homenageia Mestre Sacaca, o guardião da Amazônia e do saber ancestral.
As escolas do Grupo Especial, a elite do carnaval fluminense, desfilam nos dias 15, 16 e 17 de fevereiro. As seis primeiras colocadas voltam à passarela do samba dia 21 de fevereiro para o desfile das campeãs.
:: Quer receber notícias do Brasil de Fato RJ no seu WhatsApp? ::
Acompanhe a ordem dos desfiles e os temas que serão levados à Sapucaí:
Domingo (15 de fevereiro)
Acadêmicos de Niterói
Título: Do alto do Mulungu surge a esperança: Lula, o operário do Brasil
Além de traçar a trajetória de vida de Lula, a letra ressalta investimentos na educação e no combate à fome. “Tem filho de pobre virando doutor / comida na mesa do trabalhador / a fome tem pressa”, diz o samba.
A letra não deixa de citar a luta contra a ditadura militar (1964-1985) e segue até os fatos mais recentes da nossa história. “Sem temer tarifas e sanções / Assim que se firma a soberania / Sem mitos falsos, sem anistia”.
Imperatriz Leopoldinense
Título: Camaleônico
Sem ver pecado ao sul do Equador, o samba traz grandes sucessos da música brasileira eternizados na voz Ney Matogrosso e a sua personalidade libertária e transgressora. “Sou meio homem, meio bicho / O silêncio e o grito / Pássaro, mulher / Que pinta a verdade no rosto / Traz a coragem no corpo / E nunca esconde o que é”, diz o samba.
Portela
Título: O Mistério do Príncipe do Bará – a Oração do Negrinho e a Ressurreição de Sua Coroa Sob o Céu Aberto do Rio Grande
O samba conta a trajetória de Custódio Joaquim de Almeida, líder africano que se estabeleceu Porto Alegre. A figura histórica do século 19 se tornou símbolo da religiosidade e ancestralidade afro-gaúcha.
“Portela / Tu és o próprio trono de Zumbi / Do samba, a majestade em cada ori / Yalorixá de todo axé / Enquanto houver um pastoreio / A chama não apagará / Não há demanda que o povo preto não possa enfrentar”, diz a letra.
Estação Primeira de Mangueira
Título: Mestre Sacaca do Encanto Tucuju – O Guardião da Amazônia Negra
A Mangueira enaltece as tradições afro-indígenas do Norte ao trazer para avenida Mestre Sacaca. Raimundo dos Santos Souza foi curandeiro, folião e defensor dos povos da floresta. “Salve o curandeiro / Doutor da floresta / Preto velho, saravá / Macera folha, casca e erva / Engarrafa a cura, vem alumiar / Defuma folha, casca e erva / Saravá”, diz a letra.
Na Sapucaí, a verde e rosa evoca sua presença como entidade, o Xamã Babalaô. “A magia do meu tambor te encantou no Jequitibá / Chamei o povo daqui, juntei o povo de lá / Na estação primeira do Amapá”.
Segunda (16 de fevereiro)
Mocidade Independente de Padre Miguel
Título: Rita Lee, a padroeira da Liberdade
“Um belo dia resolvi mudar / Cansei dessa gente careta / Aos seus bons costumes eu sinto informar / Formei outras ovelhas negras”, começa o samba que é cheio de referências ao vanguardismo da cantora, às suas letras e jeito bem-humorado. A cantora faleceu em 2023, em São Paulo.
Beija-Flor de Nilópolis
Título: Bembé
Em um dos poucos sambas que não são baseados em uma biografia, a campeã de 2025 celebra o Candomblé. “Não me peça pra calar minha verdade / Pois a nossa liberdade, não depende de papel / Em Santo Amaro, todo treze de maio / Nossa ancestralidade é festejada à luz do céu”, afirma o samba sobre as manifestações que reverberam a força do povo preto em prol da liberdade.
Unidos do Viradouro
Título: Pra cima, Ciça
Em mais um enredo biográfico em 2026, a Viradouro homenageia seu mestre de bateria e de tanta outras escolas, Moacyr da Silva Pinto. O sambista completa 70 anos de vida e 55 anos do seu primeiro desfile, e vai cruzar a Sapucaí em pleno ofício.
“Ciça, gratidão pelas lições que eu pude aprender / E, hoje, aos teus pés / Somos todo um nessa avenida / Num furacão que nunca vai ter fim”, diz um trecho.
Unidos da Tijuca
Título: Carolina Maria de Jesus
Mineira, a escritora morou mais de uma década na favela Canindé, em São Paulo. Foi a partir do sucesso do livro Quarto de despejo – o diário de uma favelada que ela venceu a fome e deixou a região.
“Os olhos da fome eram os meus / Justiça dos homens, não é maior que a de Deus / Meu quarto foi despejo de agonia / A palavra é arma contra a tirania”, diz o samba.
Além de retratar um dos maiores sofrimentos do ser humano, a letra reivindica outro desfecho para aquelas que viveram na pele o mesmo cenário. “Por ser livre nas palavras / Condenaram meu saber / Fui a caneta que não reproduziu / A sina da mulher preta no Brasil”.
Terça-feira (17 de fevereiro)
Paraíso do Tuiuti
Título: Lonã Ifá Lukumi
A Paraíso do Tuiuti vai apresentar a história dos orixás afro-cubanos. “E o negro iniciado no segredo / Do reino de Olokun fez sua trilha / Rompendo os grilhões de morte e medo / Foi o primeiro babalaô da ilha”, diz o samba.
Segundo a vertente religiosa, existe uma conexão espiritual entre Cuba e o Brasil, enraizada nos orixás e ancestrais africanos, que se enlaçam cultural e energeticamente há gerações.
Unidos de Vila Isabel
Título: Macumbembê, Samborembá: Sonhei Que Um Sambista Sonhou a África
A Vila Isabel celebra um dos percursores do samba no país: Heitor dos Prazeres. O enredo celebra as memórias e os percursos de “um homem do povo”, multiartista, sambista, inventor e sonhador, que pintou e bordou no carnaval. E reafirma: “macumba é samba e o samba é macumba”.
“Ora yê yê ô, Oxum / Kabecilê, Xangô / Meus senhos e tambores, tintas e ‘prazeres’ / Pra você, Heitor”, diz a letra.
“Um Ogã-alabê, macumbeiro / A fumaça do cachimbo, preto-velho soprou / Encanto da gira e da de bamba / Poesia na curimba, batuqueiro e cantador”, diz o refrão.
Acadêmicos do Grande Rio
Título: A Nação do Mangue
A escola de Duque de Caixas mergulha na história do movimento de contracultura Manguebeat, que surgiu no Recife nos anos 1990. “Eu sou do mangue, filho da periferia / Sobre uma palafita Grande Rio anunciou / Ponta de lança é Daruê / Dobra o Gonguê… a revolução já começou”, diz o samba. O manifesto que emergiu das juventudes periféricas continua atual na sua crítica social.
Acadêmicos do Salgueiro
Título: A Delirante Jornada Carnavalesca da Professora Que Não Tinha Medo de Bruxa, de Bacalhau e Nem do Pirata da Perna-de-Pau
Para encerrar os três dias de desfile, outro samba-enredo biográfio. A escola do Andaraí, presta homenagem à carnavalesca Rosa Magalhães, que morreu em 2024. “Mestra, você me fez amar a festa e eu virei carnavalesco / Sonhei ser Rosa, te faço enredo”, diz um trecho.
A artista revolucionou a forma de fazer carnaval, e acumulou sete títulos no sambódromo. “Ô lê lê! Eis a flor dos amanhãs / A décima estrela brilha em Rosa Magalhães / Onde o samba é primavera, que floresce em fevereiro”.
