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Mais um aniversário do Facebook: uma data com muitos motivos para descomemorar

É o momento de reconhecer que há motivos de sobra para questionar, criticar e, sobretudo, regular

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Facebook completa 22 anos e compõe um dos maiores conglomerados privados de comunicação da história
Facebook completa 22 anos e compõe um dos maiores conglomerados privados de comunicação da história | Crédito: natanaelginting no Freepik

No começo de fevereiro, o Facebook completou 22 anos de existência. Para parte do mundo, a data ainda aparece como símbolo de inovação tecnológica, conectividade global e transformação das relações sociais. Para outra, cada vez maior, o aniversário marca algo bem menos celebrável: a consolidação de um dos maiores conglomerados privados de comunicação da história, com poder desmedido sobre dados pessoais, circulação de informação e debate público.

Desde sua criação, o Facebook não foi apenas uma rede social. Tornou-se infraestrutura. Media relações pessoais, campanhas políticas, circulação de notícias, publicidade, comércio e até políticas públicas. E, como toda infraestrutura essencial concentrada em mãos privadas, seu impacto ultrapassa o campo da tecnologia e entra no terreno dos direitos, da democracia e da soberania informacional.

Não se trata de nostalgia digital nem de demonizar plataformas por princípio. Trata-se de olhar para 22 anos de trajetória e reconhecer que há motivos de sobra para questionar, criticar e, sobretudo, regular.

Uma origem marcada por controvérsias

A história do Facebook começa cercada de disputas. Antes de lançar o TheFacebook, em 2004, Mark Zuckerberg foi acusado por colegas de Harvard — Cameron, Tyler Winklevoss e Divya Narendra — de ter se apropriado da ideia e do código de um projeto no qual havia sido contratado para programar, o Harvard Connection. A disputa resultou em um acordo judicial milionário anos depois.

Não se trata apenas de um detalhe biográfico. A controvérsia inicial antecipa um padrão que se repetiria ao longo da história da empresa: a expansão acelerada baseada não apenas em inovação própria, mas também na apropriação de ideias, funcionalidades e mercados inteiros.

Quando o Snapchat recusou uma oferta de compra de cerca de US$ 3 bilhões, em 2013, o Facebook respondeu de outra forma: copiou o principal diferencial da plataforma, os stories, e os incorporou ao Instagram, então recém-adquirido. O movimento foi decisivo para frear o crescimento do concorrente e consolidar o domínio do Instagram entre públicos mais jovens. Com o sucesso no Instagram, os stories foram ainda adicionados no Facebook e no Whatsapp, chamado de status.

Pouco antes, em 2012, o Facebook havia comprado o Instagram por US$ 1 bilhão. Em 2014, adquiriu o WhatsApp por cerca de US$ 19 bilhões. Três plataformas, com naturezas distintas, passaram a integrar um único ecossistema corporativo, hoje rebatizado como Meta. O resultado foi a formação de um oligopólio da sociabilidade digital, com efeitos profundos sobre concorrência, privacidade e circulação de informações.

A estratégia de ‘comprar ou copiar’

Documentos internos revelados em processos judiciais nos Estados Unidos ajudam a entender essa lógica. Em ações movidas pela Federal Trade Commission (FTC), regulador antitruste estadunidense, a Meta foi acusada de adotar uma estratégia deliberada de “comprar ou enterrar” concorrentes potenciais.

E-mails atribuídos a Zuckerberg indicam que aquisições como Instagram e WhatsApp foram vistas internamente como formas de neutralizar ameaças futuras. Mesmo que os processos ainda não tenham resultado em uma condenação, o conteúdo revelado reforça uma crítica antiga: a de que o crescimento da empresa não se deu apenas pela preferência dos usuários, mas por uma política agressiva de eliminação da concorrência.

Esse padrão é central para entender o poder que o Facebook exerce hoje. Não se trata apenas de uma plataforma popular, mas de uma empresa que controla, direta ou indiretamente, boa parte da infraestrutura da comunicação digital cotidiana.

O monopólio dos dados e o capitalismo de vigilância

O modelo de negócios do Facebook sempre foi baseado na coleta, tratamento e monetização de dados pessoais. Quanto mais tempo os usuários passam na plataforma, mais dados são gerados, mais precisos se tornam os perfis comportamentais e maior é o valor para anunciantes.

Esse modelo foi amplamente questionado após o escândalo da Cambridge Analytica, revelado em 2018, quando dados de até 87 milhões de usuários foram utilizados indevidamente para fins de manipulação política. O caso escancarou algo que pesquisadores e organizações da sociedade civil já denunciavam há anos: a assimetria brutal de poder entre plataformas e usuários.

Infraestrutura, soberania e o poder que não aparece no feed

Apesar de a discussão sobre plataformas digitais muitas vezes focar em moderação de conteúdo, algoritmos e privacidade individual, há um aspecto estrutural igualmente crítico que escapa ao debate superficial: a soberania tecnológica e a infraestrutura física que sustenta os serviços que dominam a internet. A ausência de regulação e a permissividade para a instalação de data centers de grandes corporações estrangeiras, incluindo Meta, Google, Amazon e outras, deixam um país como o Brasil em profunda dependência tecnológica, colocando sob controle externo não apenas os dados pessoais, mas também as bases físicas de armazenamento, processamento e circulação de informação.

A discussão recente sobre transformar regiões brasileiras em hubs de data centers aponta justamente para essa tensão entre promover investimentos e entregar infraestrutura estratégica nas mãos de empresas que não têm compromisso com a soberania nacional, concentrando ainda mais poder sobre os fluxos de informação e ampliando impactos ambientais e sociais locais, como uso intensivo de água e energia e pressões sobre ecossistemas fragilizados.

Além da dimensão física da tecnologia, há indícios políticos de que os interesses dessas corporações se alinham com figuras e forças que questionam regulações democráticas. Isso ficou explícito quando Mark Zuckerberg declarou publicamente que trabalharia com Donald Trump para “resistir a governos que estão perseguindo empresas americanas”, em um vídeo nas próprias plataformas sob seu domínio. E também quando ele, junto a outros bilionários das grandes empresas de tecnologia, apareceu em destaque na posse presidencial de Donald Trump em 2025, um gesto simbólico de alianças entre as elites tecnológicas do Vale do Silício e atores de extrema direita que advogam por um ambiente digital sem restrições legais.

Algoritmos opacos, impactos reais

Os algoritmos do Facebook, e das plataformas sob o guarda-chuva da Meta, não são transparentes. Não se sabe exatamente por que determinados conteúdos ganham alcance enquanto outros são invisibilizados. O que se sabe, a partir de pesquisas independentes e vazamentos internos, é que o engajamento costuma ser priorizado, mesmo quando isso significa amplificar conteúdos sensacionalistas, desinformação ou discurso de ódio.

Em 2025, o Intervozes – Coletivo Brasil de Comunicação Social divulgou a pesquisa Explana 2.0, realizada em parceria com o Data_Labe, e que indica que plataformas como Facebook e Instagram concentram grande parte dos ataques, desinformação e discursos de ódio direcionados à população LGBT+. Muitas dessas violências permanecem no ar mesmo após denúncias. Um exemplo de como o plano de negócios das plataformas é conivente com a violência digital contra grupos que na “vida real” também são alvos potenciais.

Essas falhas estruturais não são incapacidade técnica das big techs. Trata-se de escolhas. Moderação custa dinheiro, reduz engajamento e pode afetar receitas publicitárias. A consequência é um ambiente digital que penaliza justamente quem mais depende dessas plataformas para se informar, se expressar e se organizar.

Mudanças nas regras, riscos ampliados

Nos últimos anos, a Meta promoveu alterações em suas políticas de moderação que geraram forte reação de organizações da sociedade civil. Manifestos assinados por dezenas de entidades, incluindo organizações ligadas à defesa dos direitos digitais e da comunicação, alertaram para o enfraquecimento de mecanismos de checagem de fatos e proteção de grupos vulnerabilizados.

Essas mudanças não ocorrem no vácuo. Elas se dão em um contexto global de avanço da extrema direita, de instrumentalização das redes para campanhas de desinformação e de ataques coordenados a jornalistas, ativistas e minorias. Ao flexibilizar regras e reduzir salvaguardas, a empresa amplia riscos sociais e políticos, ao mesmo tempo em que se exime de responsabilidades.

Em manifesto lançado em janeiro de 2025, a Coalizão Direitos na Rede (CDR) questionou o anúncio da Meta de flexibilizar sua política de moderação. No documento “Contra o Retrocesso na Moderação de Conteúdo da Meta e os Ataques à Regulação Democrática do Espaço Digital”, a CDR afirma que a empresa “opta por ‘simplificar’ as medidas de moderação de conteúdo alinhado ao discurso propagado pelo recém-eleito governo de Trump” e denuncia a conivência da Meta com estruturas que promovem a violência, desigualdade e desinformação. 

Comunicação não é mercadoria qualquer

A comunicação é um direito humano fundamental, não apenas um produto. Ao controlar fluxos de informação, ao criar suas próprias leis nos termos de uso e moderação, e ao decidir quem pode falar, para quem e com que alcance, as plataformas violam direitos e fragilizam a própria democracia.

Portanto, celebrar o aniversário do Facebook sem problematizar esse poder é naturalizar uma concentração inédita na história da comunicação. É aceitar que decisões fundamentais sobre visibilidade, privacidade e discurso público sejam tomadas por conselhos corporativos sediados fora do país, guiados por interesses exclusivamente econômicos.

Descomemorar, neste caso, é um gesto político. É recusar a narrativa triunfalista da inovação permanente e perguntar: inovação para quem? A que custo? Com quais consequências?

22 anos depois, o que está em jogo

O Facebook ajudou a moldar a internet como a conhecemos. Mas também ajudou a aprofundar desigualdades, fragilizar ecossistemas informacionais e transformar dados pessoais em matéria-prima de um dos negócios mais lucrativos do mundo.

Mais do que olhar para trás, o aniversário de 22 anos deveria servir para olhar adiante. Para discutir regulação, transparência algorítmica, proteção de dados, estímulo à concorrência e fortalecimento de alternativas públicas e comunitárias de comunicação.

Há, sim, mil motivos para descomemorar. Mas há também um motivo maior para agir: a compreensão de que deixar a comunicação nas mãos de poucos é incompatível com qualquer projeto democrático de futuro.

*Júlia Lanz Monteiro é jornalista e associada ao Intervozes – Coletivo Brasil de Comunicação Social. 

Editado por: Maria Teresa Cruz

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