“Aqui a abelha totalmente morta. Tuit [produto da marca Basf] Eucalipto da Suzano [empresa de celulose]. Olha que crime a quantidade de abelha morta. Está fedendo a abelha morta”, relata Davi, um apicultor de Santa Rita do Pardo (MS), em um vídeo ao qual o Brasil de Fato teve acesso. “Ele deve ter borrifado aqui tudo e entrou lá. Eu vi a caminhonete da Suzano e o pessoal da [empreiteira] Costa Pinto com o trator. O técnico estava com eles, então eles não têm desculpa”, diz o apicultor no vídeo.
Pulverizar agrotóxicos em época de floração é considerado uma prática ilícita no Brasil, podendo ser configurado como crime ambiental, especialmente quando causa a morte de abelhas e outros polinizadores, essenciais para a manutenção do equilíbrio dos ecossistemas.
“Camboatá [árvore nativa da região] em plena floração e o trator passou aqui jogando Tuit, veneno à base de fipronil. Zero cuidado, zero respeito pelos polinizadores. A Suzano falou: ‘Calcule o prejuízo’. Eu falei: ‘Não, eu não vou calcular nada, até porque vocês vão me pagar e vão continuar. É uma outorga para vocês matarem minhas abelhas de novo’”, afirma Davi, indignado, enquanto mostra o apiário de 20 colmeias, todas atingidas pelo veneno.
O fipronil é um inseticida de amplo espectro, utilizado no controle de cupins, formigas e outras pragas, sobretudo nas lavouras de soja, milho, algodão, cana-de-açúcar, arroz, trigo, batata e eucalipto. Existem mais de 70 produtos com essa substância registrados para uso no Brasil. Enquanto isso, desde 2014 ele é proibido em culturas agrícolas da União Europeia justamente pelo alto risco de mortalidade em massa de abelhas e outros polinizadores.
No Brasil, em 2023, o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente (Ibama) suspendeu a pulverização aérea ou terrestre dessa substância pelo mesmo motivo. Mas o agrotóxico segue sendo comercializado, já que aplicações no solo ou tratamento de sementes continuam permitidas e há pouca fiscalização sobre o uso irregular desse veneno.
Ao Brasil de Fato, o apicultor afirmou que a relação problemática com as empresas de eucalipto na região não é nova.
“Tenho apiários aqui desde 1996. Então nós estamos há 30 anos em uma mesma microrregião e eu conheço o movimento deles desde o início do plantio dos clones”. “Eles estão cometendo crimes em relação à eliminação dos polinizadores e tecendo uma narrativa de sustentabilidade. Não existe essa sustentabilidade que eles propagam”, completa.
O apicultor acusa as empresas de eucalipto, sobretudo a Suzano, de instituir uma “sustentabilidade virtual, baseada em valores e em poder econômico”.
“Essas empresas, na ânsia de ocupar área e de conquistar mercado para falar que são grandes, plantam floresta demais e não têm gente para cuidar dessas florestas. Então, o grande predador deles aqui é a formiga. Na ânsia de matar uma formiga, eles matam todos os polinizadores e todos os invertebrados úteis, inclusive para o bioma”, pontua. “Nunca vi tanto abuso contra os polinizadores como o que eu estou vendo agora”, agrega Davi.
Prática comum
O caso do apicultor do vídeo não é o único. Marine Dubos-Raoul é geógrafa, doutora pela Universidade Paris 8, pesquisadora da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS) e coordenadora do Instituto Pró-Cerrado Vivo. Ela conta que em 2019, no município de Brasilândia, vizinho de Santa Rita do Pardo, realizou pesquisas em um assentamento onde houve relatos de impactos por pulverização de agrotóxicos em canaviais. Desde então, começaram a surgir cada vez mais histórias similares.
“O uso de agrotóxicos pela indústria da celulose é uma prática comum, principalmente para o controle de formigas que atacam os eucaliptos. Esse controle por inseticida faz parte desse modo de produção em monocultivos. O que ocorre nos últimos anos, tanto pela nova fase de expansão do setor de celulose quanto pelo emprego de empresas especializadas, é que esse manejo vem sendo feito sem muito cuidado com os outros sujeitos e moradores do campo. Esses relatos de impactos vividos por pequenos agricultores camponeses são recorrentes”, relata a pesquisadora, que ainda faz um alerta.
“Além das abelhas, as próprias espécies do Cerrado e a fauna selvagem acabam sendo prejudicadas pela aplicação”, afirma Marine.

Ela conta que a própria empresa de celulose mantém um cadastro dos apicultores para avisá-los sobre a aplicação de venenos. Mas que a medida tem sido insuficiente. “A Suzano garante que, por meio desse cadastro, avisa os apicultores com antecedência sobre as aplicações de veneno para que retirem as caixas e não corram o risco de contaminação. Porém, já foi relatado que, mesmo estando no cadastro, alguns apicultores sofreram perdas de colmeias por conta da aplicação. É uma estratégia da empresa para mapear esses sujeitos e ter controle social sobre o ambiente, mas os apicultores acabam sendo prejudicados da mesma forma”, observa a pesquisadora da UFMS.
Não é ‘acidente de percurso’
Jakeline Pivato, integrante da Campanha Permanente contra os Agrotóxicos e pela Vida, destaca que não se trata de um “acidente de percurso”, mas resultado de um modelo de produção agrícolas que acarreta consequências graves para as pessoas e o meio ambiente.
“A conta da produtividade a qualquer custo está chegando: abelhas mortas em massa e ecossistemas em colapso. O lucro não pode custar a vida. Agrotóxicos matam. Não é um acidente de percurso, é uma escolha de modelo agrícola. Escolhemos a vida, escolhemos a Agroecologia”, afirma a ativista.
Em nota, a empresa Suzano afirmou que “apoia mais de 158 apicultores e apicultoras no Mato Grosso do Sul por meio do seu Programa de Apicultura”, e que “em 2024, a iniciativa contribuiu para a produção de 309 toneladas de mel, o que representa 40% da produção no estado”.
O comunicado diz ainda que “todas as operações da empresa seguem rigoroso processo de conformidade legal e socioambiental, com observância das normas nacionais e internacionais, e são atestadas por certificações internacionais”.
“A companhia reitera que busca os mais altos padrões de manejo florestal, e utiliza apenas defensivos devidamente registrados no Mapa [Ministério da Agricultura e Pecuária] e aprovados pelos órgãos sanitários, respeitando as recomendações técnicas da bula, fichas de emergência e do receituário agronômico. Além do cuidado com o meio ambiente, o compromisso com as pessoas pela companhia se reflete na comunicação prévia realizada com os apicultores conveniados ao Programa de Apicultura ou cadastrados no estado como vizinhos da empresa, por meio de sua equipe social, antes de qualquer aplicação de defensivos em suas operações florestais”, diz a nota que finaliza orientando o público que utilizem os canais de comunicação abertos pela empresa para “dúvidas, sugestões, denúncias ou busca de informações sobre quaisquer temas que julgarem relevantes”.
O lobby do papel
Edmundo Hoppe Oderich é membro do Movimento Mundial pelas Florestas Tropicais (WRM, por sua sigla em inglês). A organização busca contribuir com comunidades tradicionais no Sul Global impactadas pelo modelo de desenvolvimento do capitalismo, entre elas, as afetadas pela indústria da celulose no Brasil.
Em setembro de 2025, o WRM publicou um estudo que revela o crescimento da demanda por papel em um mundo cada vez mais digital. A publicação revela que o papel para embalagens tem sido o grande promotor do aumento constante do consumo, que aumentou cinco vezes nos últimos 50 anos – com mais 32% previstos para 2022-2032.”
Segundo Oderich, a mortandade de abelhas e o prejuízo para os apicultores “é apenas um dos vários impactos da expansão do setor da celulose no Brasil”.
“Outro impacto muito severo é a seca de nascentes e a diminuição dos cursos da água”, relata o ativista. “Se pegar, por exemplo, o município de Selvíria, nesse chamado Vale da Celulose, no Mato Grosso do Sul, só nesse município, mais de 300 nascentes secaram, segundo um estudo recente. Elas secaram por estarem rodeadas de eucalipto. Isso é um impacto tremendo, não só para os agricultores e para a fauna local, quanto para toda a sociedade”, conta.

“Outro rol de impactos é na questão fundiária: a pressão nos preços da terra e a expulsão indireta e às vezes direta e violenta de pequenos agricultores e de várias comunidades tradicionais no norte do Espírito Santo, no sul da Bahia e no Maranhão, que são outras regiões onde o eucalipto está expandindo”, completa.
O membro da WRM acrescenta que os custos transferidos para a sociedade não compensam, ainda que o lobby das empresas apresente dados positivos de desenvolvimento econômico gerada pelo setor. “Elas [as empresas] não mostram esse lado violento e obscuro que faz parte intrinsecamente desse modelo de plantações e de expansão do agronegócio”, considera Oderich.
Uma questão de competência
Em respostas aos questionamentos da reportagem, o Ibama informou que “a legislação vigente atribui aos Estados, ao Distrito Federal e aos Municípios a competência para estabelecer restrições adequadas às suas realidades”.
O instituto informou ainda que “o ingrediente ativo fipronil encontra-se em processo de reanálise ambiental pelo Ibama, e algumas restrições de uso já foram implementadas”, entre as quais, o ministério destaca que, “em 2012, foi publicado comunicado que desautorizou cautelarmente a pulverização foliar aérea do fipronil e dos neonicotinoides imidacloprido, tiametoxam e clotianidina até a conclusão da reavaliação desses ingredientes ativos. No caso dos neonicotinoides, já reavaliados pelo Ibama, foram posteriormente estabelecidas exceções para pulverização aérea. Para o fipronil, não houve abertura de exceções”.
“Como medida cautelar adicional – segue o Ibama – foram suspensas as indicações de uso por pulverização foliar em área total – isto é, não dirigida ao solo ou às plantas – dos produtos contendo fipronil em reavaliação ambiental, com o objetivo de proteger insetos polinizadores, até a conclusão do procedimento de reanálise”.
Finalmente, o Ibama esclarece que a decisão que o prazo para a reanálise do fipronil é julho de 2029.
Da mesma forma, a reportagem enviou questionamentos à Secretaria de Estado de Meio Ambiente, Desenvolvimento, Ciência, Tecnologia e Inovação do Mato Grosso do Sul (Semadesc), mas não obteve resposta até o momento desta publicação. O espaço segue à disposição.
Justiça do Trabalho pode julgar caso de contaminação
Outro caso envolvendo agrotóxicos no estado do Mato Grosso do Sul ganhou novo capítulo na última semana. No começo de fevereiro, o Tribunal Superior do Trabalho (TST) negou provimento aos recursos da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), a União e entidades do setor agrícola que questionavam a competência da Justiça do Trabalho para julgar um processo relacionado ao uso de atrazina, um herbicida amplamente usado em plantações de cana-de-açúcar, soja e milho no Brasil.
O caso diz respeito a uma Ação Civil Pública movida pelo Ministério Público do Trabalho (MPT) contra a Anvisa e a União, que busca o cancelamento do registro e a proibição do uso, comercialização, produção e importação desse agrotóxico no Brasil. A Agência Internacional de Pesquisa sobre o Câncer (Iarc) classifica a atrazina como “provavelmente cancerígena” para seres vivos e ela é banida na União Europeia desde 2004.
Com a decisão do TST, o processo deve retornar para as instâncias iniciais da Justiça do Trabalho, onde ocorrerá o julgamento sobre os perigos do herbicida e decidir sobre a continuidade ou não de sua comercialização no Brasil.
A Campanha contra os Agrotóxicos divulgou nota em que celebra a decisão, mas lembra que “entre os dez agrotóxicos mais utilizados no Brasil, sete são banidos inclusive nos países que os produzem”. “O Brasil não pode continuar sendo a lixeira tóxica do mundo”, destaca o comunicado.
