Um quilombo no centro do Rio que serve feijoada às sexta-feiras, acompanhado de muito samba e caipirinha. Uma receita de sucesso que começou em 2023, após Aparecida Ferreira precisar de uma alternativa para pagar as contas.
No boca a boca, ela voltou a fazer feijoadas em eventos fechados, até que, ainda durante a pandemia, foi selecionada para participar do programa de culinária Que Marravilha, da GNT, comandado pelo chef Claude Troisgros. E foi então que o apresentador sugeriu que ela aproveitasse o espaço do quintal onde mora, para servir a feijoada.
Ela topou. Os primeiros clientes foram os trabalhadores que atuam no comércio na mesma rua e que passaram a subir até a primeira curva da rua Cândido Mendes para o Quilombo Ferreira Diniz no horário do almoço. Aos poucos, a clientela foi aumentando e atraiu responsáveis pela criação de conteúdos de páginas com um grande número de seguidores nas redes sociais. E a chegada de influencers da gastronomia carioca trouxe uma virada na rotina da feijoada da Tia Cida.
Aline Duque, do perfil Dias de Glória, foi conhecer a feijoada por indicação de um amigo e gostou muito. Antes de postar, ela avisou Aparecida para fazer um pouco de feijoada a mais, porque que seus posts costumavam dar um boom no local. Naquela época, a produção média era de 50 feijoadas e ela decidiu dobrar a produção. Não foi suficiente. “Na sexta-feira, tô ali fazendo meu feijãozinho, tranquilinha. Quando eu olhei pra fora, estava lotado. Eu comecei a tremer”, recorda. Mais tarde, Tia Cida fez uma postagem explicando que foi pega de surpresa com o aumento do movimento tão repentino.

A felicidade de ter seu trabalho reconhecido se misturou com a urgência de ampliar a estrutura do local. De lá para cá, houve muitas mudanças. O chão de terra foi coberto por concreto tanto para facilitar a disposição das mesas, quanto para as aulas de capoeira que ocorrem às quartas. O quilombo ganhou novos banheiros e uma cozinha mais ampla foi construída. Se no começo ela fazia duas panelas de feijoada, agora são cinco por sexta-feira.
Trajetória
Depois de trabalhar muitos anos fazendo quentinhas, Tia Cida realizou o sonho de ter um restaurante em 2015, na Lapa. A cada quinze dias ela fechava a rua Joaquim Silva, onde está localizada a escadaria Selarón, ponto turístico da região, e fazia uma grande feijoada. Mas depois de três anos, o movimento já não era mais o mesmo e ela decidiu fechar. “Foi a melhor decisão, porque depois veio a pandemia e ficaria complicado”, recorda.
Ela conta que começou o trabalho como cozinheira há mais de 40 anos, quando os filhos ainda eram pequenos. E a feijoada foi incorporada aos poucos. “Eu tinha uma frustração com o feijão quando era nova, depois que minha mãe pediu pra eu fazer um feijão e não deu certo”. Anos mais tarde, ela queria apresentar uma outra opção de quentinha às sextas-feiras para os clientes e decidiu se dar uma nova chance. “E aí eu fiquei tentando e a coisa foi acontecendo. A feijoada deu certo”, comemora.
:: Quer receber notícias do Brasil de Fato RJ no seu WhatsApp? ::
Fortalecimento do território
Aparecida Ferreira comemora não apenas o sucesso da feijoada, mas também a visibilidade dada ao território. “Sempre foi uma luta árdua pra manter o nosso território, pra nos mantermos aqui. E a feijoada trouxe esse benefício”, avalia.
Foi a partir da feijoada que o quilombo urbano localizado na Glória ganhou novos parceiros que fortaleceram o território e ensinaram os caminhos para o processo de garantia de posse definitiva.

E não só isso, também trouxeram possibilidades de financiamento que garantiram as reformas necessárias para que o local pudesse receber cada vez mais gente, assim como iniciar o processo de reforma do casarão onde vivem 70 pessoas das famílias Ferreira e Diniz. Atualmente, o Quilombo conta com apoio do escritório modelo de arquitetura da Universidade Federal Fluminense (UFF) para elaborar um projeto de reforma.
“Eu me sinto muito beneficiada e agradecida quando você tem o teu trabalho e ele serve para o bem, para ajudar outras pessoas”.
Desde que abriu o quilombo para feijoada, o Quilombo Ferreira Diniz está sempre aberto às sextas-feiras. A exceção foi no feriado de São Jorge de 2025, quando ela completou 60 anos. “Todo ano eu faço a feijoada de São Jorge, mas meus filhos falaram assim: ’60 anos a senhora não vai fazer feijoada’. E aí, eu fechei e fui comemorar com toda a família em um sítio”.
