A reitora da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (Ufrgs), Márcia Barbosa, foi incluída pela revista Forbes Brasil na lista “10 Brasileiras que Transformam a Ciência no Brasil e no Mundo”, divulgada em fevereiro em alusão ao Dia Internacional das Mulheres e Meninas na Ciência. A publicação reúne pesquisadoras que lideram descobertas, ampliam fronteiras do conhecimento e abrem caminhos em áreas ainda marcadas pela desigualdade de gênero.
Ao Brasil de Fato, Barbosa comentou sobre a indicação. “A revista da Forbes escolheu algumas mulheres e a minha felicidade é ver que mesmo num estado que não é localizado no sudeste, onde tudo tem mais visibilidade, a gente consegue ter uma pessoa, uma mulher da Ufrgs, indicada para essa lista. Então, isso já é uma grande vitória.”
A reitora também ressaltou o trabalho das demais indicadas. “A segunda coisa que, para mim, é muito boa é ver que, entre as minhas colegas de lista, há pesquisadoras que eu conheço e que têm um trabalho bom. Ou seja, a revista realmente buscou pessoas que têm um trabalho bom.”
Trajetória
Com graduação, mestrado e doutorado realizados na Ufrgs, a reitora é professora titular do Instituto de Física da Universidade e pesquisadora nível 1A do CNPq. Barbosa também é membro titular da Academia Brasileira de Ciências e da Academia Mundial de Ciências (TWAS). Suas pesquisas abordam principalmente a água e o uso de suas anomalias para processos físicos e biológicos, aplicando nanociência para obter mais água potável. Pelo estudo das anomalias da água ganhou o prêmio Loreal-Unesco de Mulheres nas Ciências Físicas e o prêmio Claudia em Ciência, ambos em 2013. Ao longo de sua carreira, recebeu várias distinções, incluindo o reconhecimento por sua forte atuação em questões de gênero.
Sobre sua própria atuação, a reitora apontou o que considera um diferencial na indicação: “O diferencial talvez que eu tenha com relação às demais da lista é que além de ser uma pessoa que atua na área de física teórica e tem uma publicação, também sou uma militante pela questão de mulheres na ciência, de uma maior presença de mulheres na ciência.”
Apesar da celebração, a reitora contextualiza o reconhecimento em meio a desafios estruturais enfrentados pela ciência no Brasil. “A premiação sempre nos deixa alegres, mas eu tenho a consciência de que temos muitas mulheres nesse país que são capazes de fazer ciência de qualidade, mesmo nesses momentos que a gente tem um financiamento da ciência tão irregular, ele é interrompido e sofre perseguições, Ainda com tudo isso, a gente tem mulheres que estão lá na frente, transformando e criando ciências”, pontua.
Por mais mulheres na ciência
Barbosa é defensora da ciência brasileira e de uma maior inclusão das mulheres nas ciências, em especial as Exatas, e lamenta a perda de profissionais brasileiros para universidades estrangeiras por não terem condições de fazer ciência no Brasil.
Ela ingressou no curso de Física da Ufrgs, onde notou ser minoria: dos 80 alunos e somente 8 eram mulheres e na formatura, Barbosa foi a única mulher. Participou dos movimentos estudantis, pedindo por democracia e o fim da ditadura ainda na graduação. Seguiu para a pós-graduação, onde foi orientada por Walter K. Theumann tanto no mestrado quanto no doutorado e fez três estágios de pós-doutorado na Ufrgs, na Universidade de Maryland e na Universidade de Boston.
Ao longo da carreira, Márcia Barbosa acumulou distinções científicas e institucionais de relevância nacional e internacional. Em 2013, recebeu o L’Oréal-UNESCO For Women in Science Award, reconhecimento internacional por seus estudos sobre as moléculas de água, além do Prêmio Cláudia, na categoria Ciência.
Em 2009, foi agraciada com a Medalha Nicholson da American Physical Society, distinção concedida a cientistas que se destacam na defesa da participação feminina na Física. Já em 2016, recebeu o Prêmio Anísio Teixeira, da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes), pelo trabalho desenvolvido na pós-graduação.
Em 2018, foi condecorada com a Ordem Nacional do Mérito Científico, no grau de Comendadora — uma das principais honrarias concedidas pelo governo federal a pesquisadores brasileiros. Em 2021, recebeu a Medalha Silvio Torres, da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio Grande do Sul (Fapergs), pelo conjunto da contribuição científica.
A visibilidade pública também marca sua trajetória recente. Em 2020, foi listada pela ONU Mulheres entre sete cientistas que moldam o mundo. No mesmo ano, apareceu na Forbes Brasil entre as 20 mulheres mais poderosas do país e, em 2026, voltou a ser reconhecida pela publicação como uma das cientistas que transformam o mundo.
Mais recentemente, em 2025, recebeu da Câmara Municipal de Porto Alegre o título de Cidadã de Porto Alegre, homenagem concedida a personalidades com contribuição relevante à cidade.
Barbosa assumiu a reitoria da Ufrgs em 2024. Sua gestão tem sido marcada pela defesa da universidade pública, pela valorização da pesquisa científica e pela promoção de políticas de equidade de gênero na academia.
