COLMÉIA CULTURAL

Arte, cuidado e resistência: Casa MEL realiza programação especial no mês das mulheres

Espaço cultural em Porto Alegre promove oficinas, debates, cinema e teatro sobre direitos, saúde e autonomia feminina

No audio source provided.
Mulheres reunidas em evento do Festival MEL, que promove debates e articulações para fortalecer a presença feminina nos espaços públicos e políticos
Mulheres reunidas em evento do Festival MEL, que promove debates e articulações para fortalecer a presença feminina nos espaços públicos e políticos | Crédito: Divulgação/Festival MEL

O mês de março, marcado internacionalmente pela luta por direitos das mulheres, ganha uma programação cultural e formativa na Casa MEL ─ Mulheres Em Luta, espaço que articula arte, formação política e iniciativas de cuidado coletivo em Porto Alegre. A agenda reúne oficinas, apresentações teatrais, rodas de conversa, exibições de cinema e encontros de formação voltados a temas como dignidade menstrual, saúde, violência de gênero e participação das mulheres na cultura.

A iniciativa integra a rede de atividades promovidas pela Casa MEL com o objetivo de fortalecer espaços de convivência e reflexão sobre os direitos das mulheres. A programação também busca aproximar diferentes linguagens artísticas de debates sociais contemporâneos, combinando atividades culturais com processos formativos e espaços de escuta.

A agenda se insere no contexto mais amplo das mobilizações do mês das mulheres, período que historicamente reúne ações de organizações sociais, coletivos culturais e instituições públicas em torno de pautas relacionadas à igualdade de gênero, autonomia econômica e combate à violência.

Formação e dignidade menstrual

Entre as atividades programadas está a oficina de absorventes sustentáveis promovida pelo Projeto Jane, que aborda a chamada dignidade menstrual. O encontro combina conversa e prática sobre a produção de absorventes reutilizáveis, discutindo também os impactos sociais e ambientais do acesso limitado a produtos menstruais.

A dignidade menstrual tem sido cada vez mais debatida no Brasil e em diversos países como uma questão de saúde pública e de justiça social. Organizações da sociedade civil apontam que a falta de acesso a produtos de higiene menstrual afeta principalmente meninas e mulheres em situação de vulnerabilidade, podendo impactar a frequência escolar e a participação social.

A oficina proposta na Casa MEL busca apresentar alternativas sustentáveis e ampliar o debate sobre o tema, incluindo aspectos ligados à educação, saúde e meio ambiente.

Teatro e narrativas feministas

A programação também reserva espaço para a linguagem teatral, com oficinas e apresentações que dialogam com perspectivas feministas. Uma das atividades é a oficina de vivências dramáticas, conduzida por Juçara Gaspar e Thali Bartikoski, que propõe uma introdução ao teatro feminista por meio de exercícios de expressão corporal, improvisação e reflexão coletiva.

Segundo as organizadoras, o objetivo é explorar o teatro como ferramenta de elaboração de experiências e construção de narrativas que partam da perspectiva das mulheres.

Além da oficina, o espaço recebe a apresentação do espetáculo Esse Não É Um Conto Sobre Bruxas, que teve circulação no circuito cultural do Porto Verão Alegre. A peça aborda simbolicamente a figura das bruxas, frequentemente associada historicamente à perseguição de mulheres, para discutir temas como autonomia, poder e resistência.

Cuidado coletivo na cultura

Outro eixo da programação é o cuidado entre trabalhadoras da cultura. Uma roda de cuidado mútuo voltada para mulheres que atuam no setor cultural propõe um espaço de escuta, acolhimento e troca de experiências.

A atividade é organizada pelo Plantão Colméia, iniciativa vinculada à Casa MEL que busca criar redes de apoio para profissionais da cultura. O encontro pretende abordar questões relacionadas às condições de trabalho, à saúde mental e aos desafios enfrentados por mulheres no campo cultural.

Dados de pesquisas sobre o setor cultural no Brasil indicam que mulheres representam parcela significativa da força de trabalho nas áreas artísticas e criativas, mas enfrentam desigualdades salariais, precarização e menor acesso a espaços de decisão.

Cinema e debate sobre mulheres no esporte

A agenda inclui ainda sessões de cinema seguidas de debate. Um dos filmes exibidos será “Marinette”, produção que aborda a trajetória da jogadora francesa Marinette Pichon, considerada uma das pioneiras do futebol feminino na Europa.

A exibição será acompanhada de conversa sobre a presença das mulheres no futebol e os desafios históricos enfrentados pelas atletas para conquistar reconhecimento profissional.

No Brasil, o futebol feminino enfrentou décadas de restrições institucionais. Entre 1941 e 1979, por exemplo, um decreto do governo federal proibiu a prática de futebol por mulheres no país, sob o argumento de que a modalidade seria incompatível com a “natureza feminina”. Mesmo após o fim da proibição, a modalidade continuou por anos com pouco investimento e visibilidade.

Nos últimos anos, entidades esportivas e movimentos de atletas têm pressionado por maior estrutura, financiamento e reconhecimento para o futebol feminino.

Menstruação, território e América Latina

Um dos destaques da programação é o Festival Latino-Americano de Artes e Menstruação, que acontece nos dias 24 e 25 de março. O evento reúne exibições de filmes e oficinas que abordam a menstruação a partir de perspectivas culturais, sociais e ambientais.

Entre as atividades previstas está a exibição do longa “Kuñha Karaí e as Narrativas da Terra”, que aborda relações entre território, espiritualidade e saberes femininos. Também está prevista uma oficina voltada a educadores e profissionais da educação sobre como tornar as escolas espaços seguros para meninas que menstruam.

Organizações que atuam no campo da educação apontam que o tema ainda enfrenta tabus em muitas escolas, o que pode dificultar o acesso à informação e a políticas de cuidado para estudantes.

Autonomia, saúde e enfrentamento à violência

A programação do mês inclui também atividades voltadas à autonomia e segurança das mulheres. Um aulão de defesa pessoal, conduzido pela treinadora Carine Borba, busca oferecer técnicas básicas de proteção e estratégias de prevenção à violência.

O tema da violência de gênero também aparece em outro encontro previsto para o final do mês, que reúne representantes de bares e restaurantes para discutir formas de prevenção e acolhimento em ambientes de lazer. A iniciativa propõe debater protocolos de atendimento e estratégias de conscientização em espaços frequentados pelo público.

Segundo dados do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, a violência contra mulheres permanece como um dos principais desafios sociais no país, com registros recorrentes de agressões físicas, psicológicas e feminicídios.

Arte e experiências sobre o corpo

Encerrando a programação cultural, a Casa MEL recebe o monólogo Menopausa Sem Vergonha, protagonizado por Márcia Selister. O espetáculo aborda experiências relacionadas à menopausa a partir de uma narrativa que combina humor e reflexão sobre o corpo feminino, envelhecimento e invisibilidade social.

A peça se soma às atividades que buscam ampliar o debate sobre saúde e experiências das mulheres em diferentes fases da vida, temas que frequentemente recebem pouca atenção nos espaços culturais e educacionais.

Programação

11/03 (quarta-feira) às 14h: Oficina de Absorventes Sustentáveis – Projeto Jane
Conversa e prática sobre dignidade menstrual e confecção de absorventes sustentáveis.
Inscrições: R$8 no link https://www.sympla.com.br/evento/oficina-de-absorventes-sustentaveis-pela-dignidade-menstrual/3317136

14/03 (sábado) às 14h: Oficina de Vivências Dramáticas – Introdução ao Teatro Feminista
Com Juçara Gaspar e Thali Bartikoski.
Inscrições: R$100 no link https://www.sympla.com.br/evento/oficina-de-teatro-vivencia-dramatica/3318526

14/03 (sábado ) às 20h: Espetáculo Esse Não É Um Conto Sobre Bruxas
Sucesso no Porto Verão Alegre, em apresentação única na Casa MEL.
Ingresso: R$45 no link https://www.sympla.com.br/evento/este-nao-e-um-conto-sobre-bruxas/3318555

16/03 (segunda-feira) às 14h: Roda de Cuidado Mútuo para Trabalhadoras da Cultura
Espaço de escuta, acolhimento e troca organizado pelo Plantão Colméia.
Evento gratuito, com inscrições pelo link https://forms.gle/rVNE7T1DYPwQ9VjN9

17/03 (terça-feira) às 19h: Cine-Debate – Filme Marinette
Sessão seguida de debate sobre mulheres no futebol e a luta por reconhecimento.
Ingresso: R$5 + taxas no link https://www.sympla.com.br/evento/cine-debate-casa-mel-exibicao-do-filme-marinette/3334524

20/03 (sexta-feira) às 19h30: Projeto Mulher que Escreve – 2ª edição.
Mais informações em breve no perfil do Instagram @casamelcb

21/03 (sábado) às 14h: Aulão de Defesa Pessoal para Mulheres com a treinadora Carine Borba.
Inscrição: R$100 no link https://www.sympla.com.br/evento/aulao-de-defesa-pessoal-para-mulheres/3317046

24 e 25/03 (terça e quarta-feira): FLAM | Festival Latino-Americano de Artes e Menstruação

26/03 (quinta-feira) às 19h30: Menopausa Sem Vergonha – O monólogo, com Márcia Selister
Ingresso: R$50 no link https://www.sympla.com.br/evento/monologo-menopausa-sem-vergonha/3324506

30/03 (segunda-feira) às 15h: Bar Amigo da Mulher
Encontro com bares e restaurantes para discutir prevenção à violência de gênero em ambientes de lazer.

Editado por: Marcelo Ferreira

|

Newsletter