CRISE ENERGÉTICA

Presidente de Cuba anuncia mecanismo de investimentos externos no país e confirma ‘negociações’ com EUA

País luta contra estrangulamento econômico e energético de Washington

No audio source provided.
Coletor de materiais recicláveis em frente ao Teatro América em Havana
Coletor de materiais recicláveis em frente ao Teatro América em Havana | Crédito: YAMIL LAGE / AFP

O presidente de Cuba, Miguel Díaz-Canel, anunciou um mecanismo para investimentos estrangeiros no país, cujos detalhes serão dados na próxima semana. Díaz-Canel confirmou, nesta sexta-feira (13), que “funcionários cubanos mantiveram recentemente conversas” com representantes dos Estados Unidos, em um momento de tensão entre Washington e Havana.

O mecanismo de, investimentos funcionará de duas maneiras. Quando um doador especifica o destinatário da sua contribuição, o governo trabalha em conjunto para priorizar instituições específicas — policlínicas, maternidades, lares para idosos, centros para crianças sem apoio familiar — e garante que a contribuição cumpra precisamente o objetivo acordado.

Quando as doações chegam sem um destinatário específico, o Estado as distribui de acordo com as prioridades nacionais, com foco nos setores mais vulneráveis ​​e nos serviços sociais essenciais. As doações não são cobradas da população, os alimentos recebidos são distribuídos gratuitamente e, quando passam a fazer parte da cesta mensal de uma comunidade, são registrados no cartão de racionamento familiar sem custo algum.

“O país não obtém nenhum benefício econômico com isso. O benefício é social porque nos ajuda, mas nada de lucrativo é feito com a doação”, explicou Díaz-Canel.

Negociando com a Casa Branca

Díaz-Canelm em uma reunião com as principais autoridades do país, segundo imagens exibidas pela televisão cubana, confirmou que Havana vem dialogando com Washington, o responsável pelo bloqueio econômico e energético que estrangula o país.

“Funcionários cubanos mantiveram recentemente conversas com representantes do governo dos Estados Unidos”, afirmou Díaz-Canel em uma reunião com as principais autoridades do país, segundo imagens exibidas pela televisão cubana.

Díaz-Canel esclareceu que as negociações com Washington estão em fase inicial e ainda longe de um acordo concreto. “São processos conduzidos com muita discrição. São processos longos que devem começar pelo estabelecimento de contatos, pela criação de canais de diálogo e pela demonstração de disposição para dialogar”, explicou.

“As conversas foram orientadas a buscar soluções, por meio do diálogo, para as diferenças bilaterais que temos entre as duas nações”, acrescentou. Donald Trump não esconde o seu desejo de uma mudança de governo em Cuba e ameaçou Havana a “chegar a um acordo” ou enfrentar as consequências. No final de fevereiro, Trump disse que considerava uma “tomada amistosa” de Cuba. “Eles não têm dinheiro, não têm nada agora, mas estão conversando conosco e talvez vejamos uma tomada amistosa de Cuba”, declarou.

A ilha enfrenta uma crise energética que praticamente paralisou sua economia depois que Washington cortou o fornecimento de petróleo da Venezuela, seu principal fornecedor, e ameaçou impor sanções a outros países que lhe vendem combustível.

O México, que enviou recentemente a Cuba mais de 2.000 toneladas de ajuda humanitária para enfrentar a crise, comemorou a notícia nesta sexta-feira. “O México sempre vai promover a paz e o diálogo diplomático e, em particular, diante dessa injustiça que tem sido cometida há muitos anos contra o povo de Cuba com o bloqueio”, disse a presidente Claudia Sheinbaum em sua coletiva de imprensa diária.

Um comboio internacional que chegará a Havana em 21 de março e conta com o apoio da ativista climática Greta Thunberg transportará “mais de 20 toneladas” de alimentos, medicamentos e equipamentos de energia solar para a ilha.

funcionários trabalham na montagem do parque solar fotovoltaico La Yuca, na província de Cienfuegos, Cuba.
Funcionários trabalham na montagem do parque solar fotovoltaico La Yuca, na província de Cienfuegos, Cuba | Crédito: Yamil Lage/ AFP

Alternativas energéticas

O presidente confirmou que Cuba está atravessando uma das mais graves crises energéticas de sua história recente. “Já se passaram mais de três meses desde que qualquer carregamento de combustível entrou em nosso país, e estamos trabalhando em condições muito adversas que estão tendo um impacto imensurável na vida de todo o nosso povo”, alertou Díaz-Canel.

Cuba adicionará mais de 100 megawatts de energia fotovoltaica à rede elétrica nacional até o final de março. O presidente Miguel Díaz-Canel explicou que quatro parques solares de 21 MW, contribuindo com aproximadamente 85 MW, serão adicionados a outras três instalações que acrescentarão mais 15 MW nos próximos dias.

Este número representa o maior aumento na capacidade de energia renovável até agora neste ano. Esses parques já estão construídos e aguardam validação técnica de seus fornecedores para sincronização com a rede. Uma vez conectados, eles reforçarão a geração solar, que atualmente cobre entre 49% e 51% da demanda durante o dia — a única fonte que sustenta o sistema.

Díaz-Canel apresentou um levantamento parcial, atualizado diariamente, que revela a escala da transformação em curso. Existem 2.247 entidades privadas com seus próprios sistemas solares, mais de 900 empresas estatais operando com fontes fotovoltaicas e 6.765 residências já conectadas à rede elétrica por meio desses sistemas. Além disso, existem 636 estações de bombeamento solar para aquedutos comunitários e 462 para irrigação agrícola.

O governo também eliminou as tarifas de importação de equipamentos de energia renovável, estabeleceu tarifas preferenciais para quem gera e fornece eletricidade à rede e aplicou tratamento tributário diferenciado para importadores, instaladores e prestadores de serviços do setor. Segundo o presidente, os resultados já são visíveis no tecido produtivo do país.

A diversificação está avançando em direção a outras fontes de energia. Até o final de 2025, Cuba planeja conectar um novo parque eólico em Herradura, província de Las Tunas, restaurar a capacidade dos parques eólicos de Gibara e incorporar novas usinas hidrelétricas ao sistema.

O primeiro-ministro, Manuel Marrero, anunciou que Cuba investiu em 400 carros elétricos, os primeiros 100 dos quais chegarão nos próximos dias com um propósito específico: transportar pacientes de hemodiálise por todo o país.

“Estaríamos tornando um serviço tão vital quanto a hemodiálise independente de sua dependência de combustíveis fósseis”, afirmou Díaz-Canel. Os veículos terão tempo adicional disponível para apoiar outros serviços de saúde.

Editado por: Rodrigo Durão

|

Newsletter