Com a agressão militar estadunidense e israelense ao Irã entrando em sua terceira semana, o governo de Donald Trump deslocou sistemas antimísseis da Coreia do Sul e mais de dois mil fuzileiros navais de Okinawa, no Japão, para o Oriente Médio, também chamada de Ásia Ocidental. No dia 10 de março, o Pentágono confirmou o início da transferência de componentes do THAAD (sigla em inglês para Sistema de Defesa de Área de Alta Altitude), e de parte dos interceptores dos sistemas Patriot da Coreia do Sul para o Oriente Médio.
Dois dias depois, imagens mostravam todos os seis lançadores do THAAD sendo retirados da base de Seongju. Simultaneamente, a 31ª Unidade Expedicionária de Fuzileiros Navais embarcou no navio de assalto anfíbio USS Tripoli também rumo a mesma região.
Para o pesquisador e ativista sul-coreano Dae-Han Song do Centro de Estratégia Internacional e do Instituto de Políticas da Coreia, esses sistemas nunca foram pensados para a defesa da Coreia do Norte. “O THAAD não detecta nem intercepta mísseis direcionados à Coreia do Sul. O que ele faz é detectar alvos no interior da China continental”, afirmou Song ao Brasil de Fato.
Já Yusei Ota, ativista da organização Batalha de Okinawa Nunca Mais, conta que souberam no último fim de semana do deslocamento de tropas e se mobilizaram de imediato. “Nossa coalizão realizou um protesto de emergência em frente ao governo prefeitural de Okinawa assim que a movimentação veio a público”, disse ao BdF.
Os deslocamentos sugerem a confusão no governo norte-americano em relação à agressão ao Irã. No fim de semana, o presidente estadunidense publicou em suas redes sociais que os EUA haviam destruído “100% da capacidade militar do Irã” e que o país estava “totalmente decapitado”. Na mesma publicação, pediu que Reino Unido, França, Japão, Coreia do Sul e até a China enviassem navios de guerra para manter o Estreito de Ormuz “aberto e seguro” de um inimigo que, segundo ele próprio, já estaria completamente derrotado. Reino Unido, França, Japão e Austrália, já se manifestaram descartando o envio de navios.
Bases militares pensadas para a China
A instalação do THAAD em Seongju, em 2017, foi justificada pelos governos estadunidense e sul-coreano como medida de proteção contra mísseis da Coreia do Norte. “Se esse fosse o caso, a localização não faria sentido: o sistema está muito ao norte e não seria capaz de interceptar mísseis que atingissem a região metropolitana de Seul, onde se concentra cerca de 50% da população”, explicou Song.
Segundo Dae-Han Song, que também pertence ao Coletivo Contra a Guerra Fria, o radar do THAAD possui dois modos de operação: um de curto alcance e outro de longo alcance. No modo de longo alcance, o radar consegue detectar e monitorar partes do território chinês, o que permitiria aos Estados Unidos neutralizar o sistema de defesa antimíssil da China, projetado para impedir a aproximação de navios e aeronaves estadunidenses à região. “O que os Estados Unidos fazem ao instalar esses radares é tentar neutralizar a capacidade de interdição aérea da China”, afirmou Song.
Desde o início, o sistema gerou discórdia na Coreia do Norte. Quando o sistema foi instalado em Seongju em 2017, o presidente Trump, em seu primeiro mandato, chegou a exigir que a Coreia do Sul pagasse o custo de 1 bilhão de dólares pelo equipamento.Seul recusou, lembrando que o Acordo de Status de Forças entre os dois países, o SOFA, estabelece que cabe à Coreia do Sul fornecer o terreno e a infraestrutura, enquanto os custos de implantação e operação do equipamento são responsabilidade estadunidense. Quase uma década depois, o mesmo governo estadunidense retirou o sistema sem consulta.
A reação popular à instalação começou com preocupações dos moradores de Seongju com a radiação eletromagnética emitida pelo radar, mas foi se aprofundando à medida que a população compreendeu as implicações geopolíticas do sistema. “Os moradores se viram presos num jogo geopolítico muito maior, que não tinha nada a ver com eles, nada a ver com a Península Coreana. Era sobre as maquinações dos EUA para tentar conter a China”, disse Song.
Agora, com os lançadores removidos, os sentimentos na Coreia do Sul são ambíguos. Segundo Song há um alívio por ver partir um sistema que escalava as tensões regionais, mas preocupada com o destino dos equipamentos. “Não é algo a ser comemorado que esteja indo para outro lugar, onde vai causar danos. Mas é definitivamente positivo que esteja saindo da Coreia”, ponderou.
Okinawa: a ilha forçada a ser base do império
Em Okinawa, arquipélago japonês que concentra a maior parte das bases militares estadunidenses no Japão, a mobilização foi imediata. Yusei Ota, ativista da organização Batalha de Okinawa Nunca Mais, conta que as organizações locais realizaram um protesto de emergência em frente ao governo prefeitural assim que confirmaram o deslocamento da 31ª Unidade Expedicionária. “Alguns de nós estávamos preocupados na semana anterior e tentamos pesquisar por conta própria para verificar. Descobrimos que as forças estadunidenses estacionadas nas bases de Okinawa estavam sendo enviadas ao Irã”, relatou Ota à Brasil de Fato.
As organizações apresentaram uma carta ao governador Denny Tamaki com uma série de exigências, entre elas que o governo local declare oposição formal ao deslocamento de tropas para o Irã a partir de bases okinawanas, e que o governo japonês se recuse a autorizar o uso das Forças de Autodefesa no conflito. “Exigimos a retirada completa das bases militares estadunidenses de Okinawa e do Japão, que servem de trampolim para guerras de agressão ao redor do mundo”, declarou Ota.
“Precisamos nos levantar contra esta agressão”
Ota lamenta que os EUA continuam manchando Okinawa com suas agressões militares em outros países. Ele conta que desde a Guerra do Vietnã os bombardeiros B-52 decolavam de Okinawa para atacar o país asiático, o que levou os vietnamitas a chamar o arquipélago de Ilha do Diabo. “Os okinawanos nunca quiseram ser agressores, nunca quiseram fazer parte dessa guerra global e do império estadunidense. Mas o fato de o governo japonês e o governo dos EUA terem forçado os okinawanos a manter essas bases faz com que, sempre que essas guerras imperialistas começam, os okinawanos sejam obrigados a participar”, disse.
Song traça um paralelo histórico sombrio para o momento atual. “Os Estados Unidos agem com total impunidade no mundo e poucos países estão se levantando contra isso. Muitos comparam com o início da Primeira Guerra Mundial, mas é mais parecido com o início da Segunda, quando os nazistas tomavam ações agressivas e ninguém os detinha”, afirmou. “É nestes momentos que precisamos despertar e nos levantar contra essa agressão”.
