Antimilitarismo

Movimentos contra militarização dos EUA e Japão em Okinawa intensificam alerta sob novo governo do Japão

Orçamento militar recorde e expansão de bases estadunidenses elevam temor de que arquipélago se torne campo de batalha

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Manifestantes numa das entradas do lugar de construção de uma nova base militar na Baía de Henoko, em Okinawa. O cartaz em japonês diz: "O futuro dos nossos filhos não precisa de bases militares".
Manifestantes numa das entradas do lugar de construção de uma nova base militar na Baía de Henoko, em Okinawa. O cartaz em japonês diz: “O futuro dos nossos filhos não precisa de bases militares”. | Crédito: Jiang Chenxing

Okinawa é um arquipélago no sul do Japão que representa apenas 0,6% da área total do país. No entanto, essas ilhas concentram cerca de 70% de todas as instalações militares que os Estados Unidos mantêm em território japonês. A enorme presença militar desde o final da Segunda Guerra Mundial, afeta a vida dos moradores locais, que há décadas enfrentam poluição sonora, contaminação ambiental, acidentes e crimes envolvendo militares estadunidenses.

A reportagem do Brasil de Fato esteve recentemente no arquipélago e conversou com integrantes de organizações locais. Essas entidades que se opõem à historicamente forte militarização da região temem que Okinawa se torne novamente alvo de conflitos militares. O governo japonês argumenta que as bases garantem a segurança da população. Mas militantes locais questionam essa narrativa e há anos lutam contra a construção de novas instalações, a implantação de mísseis e os exercícios militares realizados pelos Estados Unidos e pelas chamadas Forças de Autodefesa japonesas.

Keiko Yonaha, correpresentante das organizações “Não Mais a Batalha de Okinawa” e “A Voz de Okinawa”, destaca que além da ameaça de guerra, a presença das bases militares traz outros problemas para Okinawa.

“Na minha opinião, a raiz de todos os problemas em Okinawa ainda está nas bases militares dos EUA. Recentemente, até as bases das Forças de Autodefesa se tornaram parte do problema”, declarou.

“Há questões como agressão sexual contra mulheres, assim como acidentes causados por soldados estadunidenses; por exemplo, helicópteros ou jatos que caem em Okinawa. Há também problemas como contaminação do solo”, diz Yonaha.

Impactos econômicos

Takamatsu Gushiken, também correpresentante da organização “Não Mais a Batalha de Okinawa”, questiona o argumento de que as bases dinamizam a economia de Okinawa. Segundo a Universidade de Standford, há 52 mil militares e civis dos EUA presentes no arquipélago.

Mas Gushiken afirma que a presença das bases militares estadunidenses não beneficia economicamente Okinawa. “No passado, alguns argumentavam que as bases militares dos EUA apoiavam a economia de Okinawa. Mas pesquisas mostraram que isso é incorreto”, afirmou. “Estudos indicam que a presença das bases dos EUA é, na verdade, um dos maiores obstáculos ao desenvolvimento econômico de Okinawa. Portanto, não se pode mais dizer que ‘a economia de Okinawa prospera por causa das bases militares dos EUA’. O povo de Okinawa está muito claro sobre isso.”

Segundo levantamento do The Borgen Project a pobreza em Okinawa atinge 35%, o que significa o dobro da média nacional. A taxa de pobreza infantil é de 29,9%, também sendo a mais alta entre todas as prefeituras do Japão, e mais que duplicando a média nacional, 13,5%, de acordo com dados da prefeitura de Okinawa.

Okinawa tem a menor renda per capita do país, 2,249 milhões de ienes, ela representa apenas 37% da de Tóquio, que ocupa o topo da lista e é de 6,037 milhões de ienes.

O desemprego também está acima da média nacional. Em novembro de 2025, a taxa de desemprego foi de 3,4%, enquanto no Japão foi de 2,6%.

Questionamento à submissão japonesa aos EUA

Kadena é a maior base militar dos Estados Unidos em Okinawa. Há décadas, os residentes reclamam dos ruídos e outros problemas causados pela presença militar na região. A cidade de quase 13 mil habitantes possui mais de 80% do seu território ocupado por instalações militares estadunidenses.

Yoshihiro Fukuchi, vice-líder do grupo que move ações judiciais contra a poluição sonora, explicou que a organização busca, pelo menos, proibir atividades ruidosas noturnas, além de obter compensação por danos. “Nossas demandas principais incluem a proibição de voos noturnos (ou seja, proibir decolagens e pousos de aeronaves durante o período noturno) assim como interromper os testes de motores noturnos e atividades relacionadas”, afirmou.

No entanto, Fukuchi ressalta que essas reivindicações têm sido sistematicamente rejeitadas pelos tribunais japoneses. “Essas demandas têm sido difíceis de serem reconhecidas pelos tribunais. Consequentemente, em nosso esforço contínuo para garantir nossos direitos, já ajuizamos quatro ações judiciais sucessivas”, disse. “Como os tribunais têm consistentemente recusado conceder uma liminar contra voos noturnos, essa situação problemática persiste, necessitando ações legais repetidas.”

Fukuchi questiona o quão soberano é o Japão. Embora os tribunais reconheçam que os residentes locais sofreram danos causados pelo ruído gerado dentro do próprio território do Japão, eles simultaneamente afirmam que não há soluções legais disponíveis, diz Fukuchi.

“Isso nos leva a questionar: o Japão é realmente um Estado soberano? O Japão não possui os direitos inerentes a qualquer nação soberana?”, questionou. Segundo ele, o Japão é considerado legalmente incapaz de interromper operações ou funções militares dos EUA.

O trauma histórico da Batalha de Okinawa

A ocupação militar do arquipélago ocorreu após a chamada Batalha de Okinawa, no final da Segunda Guerra Mundial, em 1945. Segundo a prefeitura de Okinawa, mais de 100 mil civis foram mortos pelas forças dos Estados Unidos ou do Japão, além de vítimas de suicídios forçados, fome e doenças.

Após a derrota do Japão, Okinawa permaneceu sob administração direta do Exército dos Estados Unidos durante 27 anos, até 1972.

Gushiken também é voluntário na recuperação de restos mortais de vítimas da guerra e se dedica há décadas a esse trabalho. “A razão pela qual me oponho às bases militares em Okinawa é para evitar que Okinawa se torne um campo de batalha novamente”, explicou. “Dos 28 anos até agora, aos 71, tenho me dedicado a coletar os restos daqueles que morreram na Batalha de Okinawa. Esse trabalho envolve devolver os restos às suas famílias.”

Ao longo do processo, Gushiken foi confirmando que, entre as vítimas, não havia apenas soldados. “Havia residentes comuns, idosos, crianças e mulheres”, disse.

Gushiken relata que perguntou repetidamente aos sobreviventes da Batalha de Okinawa se teria sido possível evitar que a região se tornasse um campo de batalha. “Suas respostas foram quase unânimes: quando o Exército japonês veio para Okinawa, o fez sob o nome de ‘proteger Okinawa’, e naquela época as pessoas de fato acreditaram nisso. Mas uma vez que a guerra começou, a realidade foi completamente diferente. Eles disseram que o Exército japonês era ainda mais terrível do que as forças dos EUA”.

Okinawa como base para operações militares do império estadunidense

A experiência de Gushiken ilustra o papel histórico de Okinawa em operações militares dos Estados Unidos. “Quando eu ainda estava no ensino fundamental, eu via formações de bombardeiros B-52 decolando de Okinawa todos os dias, seguindo em direção ao Vietnã”, recordou. “O som era enorme, e assim que eu ouvia aquele rugido, eu sabia: ‘Ah, eles estão voando para o Vietnã de novo’. Isso acontecia quase diariamente”.

“A partir de notícias esparsas, eu sabia que o que eles estavam fazendo no Vietnã envolvia matar um grande número de vietnamitas”, disse. “Eu sentia fortemente que as forças dos EUA estacionadas em Okinawa estavam matando muitas pessoas no Vietnã, e que os sacrifícios que Okinawa havia suportado estavam sendo repetidos, intactos, no Vietnã, no Afeganistão e em outros lugares. Isso sempre me encheu de profunda tristeza”.

O temor de uma nova guerra

A preocupação das entidades okinawanas que lutam pela desmilitarização aumentou nos últimos anos. Keiko Yonaha destaca que desde 2021 há declarações sugerindo que Okinawa poderia se tornar um campo de batalha, com bases sendo continuamente fortalecidas e militarizadas. “Nessa situação, estamos realmente agindo para proteger as vidas de nossos filhos e netos”, disse. “Especialmente os idosos que vivenciaram a guerra e a ocupação dos EUA; eles agora se tornaram a força central do movimento pela paz. Nós não queremos sob nenhuma circunstância que nossos filhos e netos vivenciem esse tipo de sofrimento novamente. Não queremos que eles passem por essas tragédias de guerra novamente”.

Ela cita um ditado no dialeto de Okinawa: “命どぅ宝” (Inochi du takara), que significa “A vida é a coisa mais preciosa”. “Então, acima de tudo, nosso objetivo é evitar que vidas sejam perdidas novamente em uma guerra, e estamos comprometidos de todo o coração em preservar a paz em Okinawa”, diz Keiko. “Desde 2021, quando as pessoas começaram a dizer que Okinawa poderia se tornar um campo de batalha, temos erguido o slogan ‘Não mais guerras, não mais bases’ e continuamos nossas atividades”.

Keiko relata o impacto psicológico da situação atual. “Estamos diretamente expostos, todos os dias, ao perigo de que nossas vidas possam ser tiradas em um instante. É por isso que os idosos que vivenciaram a Batalha de Okinawa agora dizem que não conseguem dormir à noite”, disse. “O trauma daquela guerra ainda existe, e agora essas memórias estão sendo reativadas, deixando-os sem sono. Em suma, a guerra nunca deve acontecer novamente. Acredito que isso é verdade não apenas para Okinawa, mas para todo o Japão também.”

Tensões regionais e orçamento militar

Takamatsu Gushiken enfatiza que a oposição ao militarismo em Okinawa não se dirige apenas às forças estadunidenses. “Atualmente, as Forças de Autodefesa estão estacionadas em Okinawa com o suposto propósito de atacar a China no caso de uma ‘contingência em Taiwan'”, afirmou. “Enquanto as Forças de Autodefesa estiverem estacionadas aqui com mísseis, Okinawa inevitavelmente será arrastada para a guerra. É por isso que pedimos a retirada das Forças de Autodefesa de Okinawa. Esta é uma posição dirigida ao próprio Exército do Japão”.

A preocupação das entidades okinawanas aumentou com a chegada da primeira-ministra japonesa Sanae Takaichi. Além de tensionar as relações com a China logo no começo do mandato, seu governo aprovou um orçamento militar superior a 9 trilhões de ienes, mais de 307 bilhões de reais.

Para justificar os gastos e mudanças na legislação, a China é apresentada pelo governo como uma ameaça à segurança do Japão. Hiroshi Taniyama, conselheiro do Centro Internacional de Voluntariado do Japão, discorda dessa visão. “A China sempre foi uma defensora firme da paz regional e global, aderindo ao caminho do desenvolvimento pacífico. Como vizinhos importantes, a cooperação amigável é a corrente principal das relações entre China e Japão”, afirmou.

Segundo Taniyama, o governo chinês defende consistentemente o aumento da compreensão mútua através do diálogo e intercâmbios, e a promoção da construção de uma relação China-Japão que atenda aos requisitos da nova era. “A China respeita as escolhas feitas por cada nação com base em suas próprias condições, enquanto se opõe firmemente a qualquer ‘teoria da ameaça chinesa’ baseada em informações falsas”, disse.

“A China está disposta a trabalhar com o Japão e outros países para fortalecer a comunicação, aprofundar a cooperação e promover conjuntamente a paz, estabilidade, desenvolvimento e prosperidade regional e global”, conclui Taniyama.

Editado por: Maria Teresa Cruz
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