FENÔMENO GLOBAL

Vamos falar de pesquisas eleitorais?

No Brasil, há um debate crescente sobre a transparência ou opacidade das pesquisas registradas no TSE

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Urna eletrônica
Urna eletrônica | Crédito: Divulgação/TSE

O fenômeno das pesquisas eleitorais realizadas por instituições privadas e divulgados amplamente na grande mídia é um fato mundial. Onde há eleições, há pesquisa eleitoral ou meras enquetes. 

Resta-nos conhecer o grau de credibilidade e confiança que podemos depositar nestes eventos – que também são políticos. 

É necessário identificar e diferenciar a pesquisa científica da enquete online. São produtos – políticos e comerciais – bem distintos.

A confiabilidade das pesquisas tradicionais é um desafio constante. Os métodos científicos para garantí-la também evoluem, enquanto as enquetes online são, por natureza, fontes de dados viesados e não confiáveis para medir a intenção de voto real da população.

Enquanto uma enquete online é apenas um “retrato da hora” de um grupo específico e autosselecionado, a pesquisa eleitoral segue procedimentos rigorosos para garantir que a amostra entrevistada represente o eleitorado como um todo.

O crescimento de enquetes online é um fenômeno global, impulsionado pelo baixo custo, rapidez e pelo alcance massivo nas redes sociais. No entanto, sua falta de confiabilidade é um consenso na comunidade científica por várias razões.

Quem responde a uma enquete online não é o “eleitor médio”.

Um estudo da National Science Foundation (NSF) dos USA analisou enquetes políticas no Twitter (agora X) durante as eleições de 2020 e descobriu que elas eram desproporcionalmente “criadas e respondidas por homens republicanos”, apresentando um viés vantajoso ao candidato Donald Trump em comparação com pesquisas tradicionais. Fica evidente, que as enquetes frequentemente refletem a opinião de uma “bolha” específica, não do eleitorado.

Também é real e verdadeiro que as pesquisas tradicionais igualmente enfrentam desafios.

As taxas de resposta vêm caindo drasticamente no mundo todo. Na Islândia, por exemplo, caíram de 70% na década de 1980 para 36% em 2021.

Isso torna as pesquisas mais caras e complexas. No entanto, a ciência não parou. Para compensar, os institutos desenvolvem técnicas estatísticas avançadas de “ponderação (weighting) e modelagem” para corrigir os vieses das amostras online e de baixa resposta, tentando extrair estimativas mais precisas.

Métodos como a “ponderação (pós-estratificação)” e a “modelagem (MRP – Multilevel Regression with Poststratification)” são usados para ajustar os dados coletados online, tentando fazê-los refletir as características conhecidas da população (com base no Censo nacional, por exemplo).

Na Alemanha, o renomado instituto Forsa, por exemplo, não permite que pessoas se inscrevam por conta própria em seu painel online (“omninet”). Em vez disso, elas são recrutadas primeiro por entrevistas telefônicas (com discagem aleatória) e depois convidadas a participar online, garantindo uma base mais representativa.

A preocupação com a qualidade dos dados não é só internacional.

No Brasil, há um debate crescente sobre a transparência ou opacidade das pesquisas registradas no Tribunal Superior Eleitoral (TSE).

Quem fizer uma análise profissional para analisar pesquisas divulgadas recentemente, vai encontrar padrões numéricos considerados extremamente improváveis do ponto de vista da ciência estatística, sugerindo a necessidade de que o TSE exija a divulgação dos microdados (dados brutos de cada respondente, no geral, entrevistam de 2 mil a 2,5 mil indivíduos) para permitir uma auditoria externa e coibir possíveis manipulações. É preciso que a amostra exija o chamado “controle de cotas”, a saber: gênero, idade, escolaridade, renda e localização.  

Desconfiar das tais pesquisas ou enquetes é – sobretudo – um ato político.

Verifique com agudeza crítica se tais informações são mero entretenimento ou criativas iscas de engajamento. O ideal é que sejam fontes genuínas de informação sobre a realidade político-eleitoral.

O caso do eleitor evangélico

Quando os institutos de pesquisa e a mídia comercial apresentam o voto “do evangélico”, há sempre um viés de simplificação somado com distorção. Uma vez que se trata de uma realidade muito mais complexa.

A principal crítica é que o termo “evangélico” agrupa uma imensa diversidade teológica, comportamental e, sobretudo, socioeconômica.

Usar “evangélico” como um marcador isolado, sem o cruzamento com renda, escolaridade, região e, principalmente, denominação religiosa, cria uma categoria vaga e potencialmente enganosa.

É como se nas pesquisas, falássemos do voto “do brasileiro” sem distinguir entre um empresário branco do Paraná e um extrativista familiar do Amazonas. O peso e o significado político dessa grosseira generalização seriam, no mínimo, questionáveis.

A Assembleia de Deus (de origem pentecostal mais tradicional) tem um perfil e uma história muito distintas da Igreja Universal do Reino de Deus (neopentecostal) ou das igrejas Batistas (protestantes históricos).

Agrupá-las é como juntar numa mesma cesta teológica católicos carismáticos, católicos progressistas e católicos apenas de batismo. A fotografia fica borrada e inútil para análises precisas e responsáveis. Vai predominar, sim, a picaretagem pseudo-analítica. Comumente associada ao favorecimento de um candidato da extrema direita.

A mídia corporativa, ao divulgar tais pesquisas, faz leituras particulares e tendenciosas. Enxergam os “evangélicos” como se fora uma classe social única, padronizada, um bloco singular demograficamente numeroso e influente do ponto de vista político-eleitoral. Ora, tudo isso é falso.

Ao tratar “evangélico” como uma categoria homogênea, as pesquisas deixam de captar fatores cruciais.

Um dos achados mais importantes de estudos recentes é o “trade-off” (escolha de compromisso) vivido pelo eleitor evangélico de baixa renda.

Ele se vê dividido entre vivência material e vivência moral.

Materialmente o sujeito busca melhoria de vida, quer dizer, almeja políticas sociais – sempre associadas aos partidos de esquerda.

Moralmente o sujeito se alinha a pautas de costumes e valores – sempre defendidas pela direita.  

Essa pressão cruzada, além de gerar um conflito no indivíduo, ajuda a explicar por que, em alguns contextos, parte desse eleitorado simplesmente opta por não votar, em vez de escolher entre suas necessidades e suas crenças. A pesquisa que apenas pergunta “em quem você vota?” sem captar esse tensionamento (entre o material e o moral) perde a dimensão fundamental do comportamento eleitoral.

Outro fator a ser considerado: há um número crescente de pessoas que se identificam como evangélicas na fé, mas não frequentam ou pertencem a uma igreja específica. São os chamados “desigrejados”.

O Censo 2022, realizado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) mostrou que o avanço evangélico perdeu força numérica pela primeira vez desde a década de 1960. Estudiosos do tema interpretam esse fenômeno como o desencanto de uma parcela dos fiéis com o forte envolvimento político-eleitoral de algumas lideranças religiosas evangélicas nos últimos anos.

Portanto, é preciso um melhor refinamento na formulação das pesquisas eleitorais. É necessário explicar que, por trás do rótulo “evangélico”, existe um eleitor majoritariamente jovem, de baixa renda, geograficamente concentrado e sujeito a tensões entre suas necessidades materiais e seus valores.

É preciso sempre questionar o monolitismo evangélico. É necessário tratar esse segmento com a mesma diversidade com que tratam outros segmentos sociais ou demográficos, como “o eleitor do Nordeste” ou “a mulher brasileira”.

Existe um padrão unitário e monolítico para o segmento “mulher brasileira”? Óbvio que não. Com o evangélico ocorre o mesmo. E aí reside uma das grandes fragilidades das pesquisas eleitorais realizadas no Brasil.

Isso tem que mudar. Cabe, portanto, à Justiça Eleitoral exigir das instituições de pesquisas mais rigor e menos frivolidade oportunista no trabalho que apresenta aos eleitores brasileiros.

O voto é uma expressão pálida da democracia que buscamos. Votar a cada 24 meses, vamos convir, não é democracia substantiva. Representa, sim, um simulacro de cidadania.

Portanto, se o exercício de votar vier submetido a procedimentos nebulosos, enganosos e com viés discutível, logo estaremos marchando cegamente para regimes antipopulares e opressores.

*Cristóvão Feil é sociólogo.

**Este é um artigo de opinião e não necessariamente representa a linha editorial do Brasil do Fato.

Editado por: Vivian Virissimo

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