Entrevista

Na China, ministro Alexandre Padilha detalha parcerias para modernizar SUS e produzir tecnologia médica no Brasil

Ministro fala ao BdF sobre hospitais inteligentes, hemoderivados e cooperação Sul-Sul em missão à China

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Em uma semana de visitas e reuniões intensas em Shenzhen, Chengdu e Xangai, o ministro brasileiro da Saúde, Alexandre Padilha, liderou uma missão que visa incorporar no Sistema Único de Saúde (SUS) tecnologias de ponta que já são realidade nos hospitais chineses.

A missão, encerrada nesta terça-feira (19) em Xangai, reuniu representantes de universidades, entre elas a Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), cujo reitor integrou a delegação, e a Universidade de São Paulo (USP), além da Hemobrás, maior fábrica estatal de hemoderivados da América Latina, entre outras instituições públicas de saúde brasileiras.

Entre os acordos, está a negociação com gigantes chinesas da tecnologia médica como Mindray e Huawei para o fornecimento de equipamentos e infraestrutura digital à Rede Nacional de Hospitais e Serviços Inteligentes do SUS, que será a primeira rede de saúde totalmente digitalizada do país, com 14 UTIs inteligentes distribuídas em 13 estados nas cinco regiões do Brasil.

A empresa Neusoft anunciou ainda a instalação de uma fábrica de equipamentos de imagem em Santa Catarina. Já em Chengdu, foi assinado um memorando de entendimento entre a Hemobrás e a Tiantan, gigante chinesa do setor ligada ao grupo Sinopharm. O acordo deverá ampliar a capacidade de produção nacional de hemoderivados, com transferência de tecnologia e compra de insumos e equipamentos chineses, reduzindo a dependência externa de produtos essenciais para pacientes de UTI, portadores de hemofilia e doenças autoimunes.

O projeto central que motivou a missão é a Rede Nacional de Hospitais e Serviços Inteligentes do SUS, iniciativa com investimento total previsto de R$ 4,8 bilhões em parceria com o Novo Banco de Desenvolvimento, o Banco do Brics. A rede será implementada em etapas: na primeira fase, as 14 UTIs inteligentes entrarão em operação ainda no primeiro semestre deste ano, distribuídas em 13 estados das cinco regiões do país. Na segunda fase, será construído o Instituto Tecnológico de Emergência no complexo do Hospital das Clínicas da USP, o primeiro hospital inteligente da América Latina, com investimento de R$ 1,7 bilhão.

Em entrevista exclusiva ao Brasil de Fato, Padilha detalhou o que o governo espera trazer da China para o SUS: da biópsia de câncer com resultado em dois dias à ambulância conectada em tempo real à UTI do hospital de destino. O ministro também destacou a transferência de tecnologia como elemento comum a todos os acordos, afirmando que o objetivo é que as tecnologias desenvolvidas na China sejam progressivamente produzidas em solo brasileiro, em parceria com empresas privadas, instituições públicas e universidades brasileiras.

Ele ainda situou a cooperação com a China e os Brics num contexto geopolítico mais amplo, marcado pela retirada dos Estados Unidos da Organização Mundial da Saúde e pelo corte de investimentos estadunidenses em pesquisa de vacinas.

Um exemplo já concreto dessa cooperação é a retomada da produção de insulina no Brasil. O ministro citou o caso como modelo do que pretende replicar com as novas tecnologias: “O Brasil voltou a produzir insulina numa plataforma tecnológica nova, biotecnológica, que é a insulina glargina, depois de 20 anos sem produzir insulina no Brasil, graças a uma transferência de tecnologia da indústria chinesa para a indústria nacional brasileira, tanto a instituição pública Fiocruz, quanto com a empresa privada nacional”.

Padilha colocou a importância da modernização do SUS diante do que identifica como dois grandes desafios que, na sua avaliação, vão moldar o futuro da saúde pública brasileira e global: o envelhecimento da população e o impacto das mudanças climáticas sobre os sistemas de saúde.

Confira a entrevista completa:

Brasil de Fato: Ministro, poderia resumir os objetivos desta missão à China? Quais são as tecnologias que a delegação visitou e quais os potenciais impactos para o Brasil?

Alexandre Padilha: Nesta visita, queremos levar para o Brasil a verdadeira revolução de saúde digital que já acontece na China e fortalecer a capacidade de produção de medicamentos e de tecnologias de saúde que salvam vidas. A China é um parceiro estratégico do setor de saúde do Brasil. Um exemplo concreto: o Brasil voltou a produzir insulina numa plataforma tecnológica moderna, a insulina glargina, graças a uma parceria público-privada coordenada pelo Ministério da Saúde, pela Fundação Oswaldo Cruz, por uma empresa nacional brasileira e por uma empresa internacional chinesa.

Somos também parceiros estratégicos na coalizão de saúde do G20, que o Brasil preside. O governo chinês confirmou sua participação formal e integra o Comitê Diretivo, que lançará em março os desafios públicos para estimular essas parcerias. E temos, através do financiamento do Banco do Brics, um grande projeto de serviços e hospitais ultraconectados, a chamada Medicina Inteligente, que levaremos para o SUS. Esta missão concentra as ações para avançar ainda mais esses projetos.

A agenda está concentrada, de um lado, na saúde digital, com parcerias com empresas, instituições e hospitais chineses para pavimentar a revolução digital na saúde que já começou no Brasil. De outro, num conjunto de parcerias com empresas e instituições de pesquisa chinesas que vão levar mais medicamentos e mais diagnósticos a serem produzidos no Brasil, consolidando nossa parceria institucional e política no campo da saúde com o governo e as instituições chinesas.

A China vem desenvolvendo e implementando diversas tecnologias médicas avançadas, como inteligência artificial aplicada ao diagnóstico, cirurgia robótica e sistemas de monitoramento em tempo real. O que desses avanços será levado para ser incorporado à rede de saúde pública brasileira e quais os impactos concretos para os pacientes do SUS?

O que é futurístico é o presente na China e será o futuro imediato do SUS. Queremos, ainda este ano, começar a usar algumas dessas tecnologias que estamos negociando.

Um exemplo muito concreto é o uso da inteligência artificial para reduzir o tempo de resultado de uma biópsia de câncer. Visitamos um hospital em Shenzhen que conseguiu reduzir de duas semanas para dois dias o tempo entre o exame e o resultado chegar ao paciente e ao médico.

Estamos levando para o Brasil, para o SUS, a primeira rede de hospitais ultraconectados, hospitais inteligentes. São 5 regiões do país que terão serviços de UTI com equipamentos conectados à ambulância que traz o paciente ao hospital, já iniciando o atendimento, o tratamento e o monitoramento dentro da ambulância, com acesso aos dados pelo celular do médico e da equipe de enfermagem, alta conectividade e uso de inteligência artificial. A rede inclui ainda um grande hospital ligado à Universidade de São Paulo, que será 100% inteligente para urgência e emergência, e três hospitais ligados a estruturas do governo federal: um da Universidade Federal de São Paulo, outro em Porto Alegre, do Grupo Hospitalar Conceição, e um do Instituto Nacional do Câncer, o Inca, no Rio de Janeiro.

As tecnologias que estamos vendo aqui vão desde a inteligência artificial reduzindo o tempo do diagnóstico de câncer até a cirurgia robótica, que permite maior precisão e pode ser realizada à distância em áreas remotas, passando pela logística hospitalar robotizada, com armazenamento e distribuição de medicamentos com alta precisão, economia de custos e, o mais importante, redução do tempo de espera do paciente.

O senhor mencionou o Instituto Tecnológico de Emergência, que será construído no complexo do Hospital das Clínicas da USP e se tornará o primeiro hospital inteligente da América Latina. Como esse modelo vai funcionar na prática para os pacientes? E o projeto prevê mecanismos de transferência de tecnologia?

É um hospital ultraconectado. Quando um paciente que precisa de urgência e emergência liga para o SAMU, a ambulância que vai até a sua casa já está conectada via internet à UTI, ao pronto-socorro, ao serviço de tomografia, ao serviço de ressonância e à unidade de hemodinâmica do hospital. Esse paciente começa a ser monitorado não quando chega à UTI, mas quando sai de casa, dentro da ambulância.

Isso faz com que ele chegue ao hospital já com o diagnóstico inicial pronto. Pode ir direto para a tomografia ou para a hemodinâmica, ganhando tempo precioso. Em urgência e emergência, o tempo é vida.

Para todos esses projetos, construímos mecanismos de transferência de tecnologia. O Brasil voltou a produzir insulina, especificamente a insulina glargina, depois de 20 anos sem produzir, graças a uma transferência de tecnologia da indústria chinesa para a indústria nacional, tanto pela via pública, com a Fiocruz, quanto pela via privada nacional. Para as tecnologias do hospital inteligente, estamos construindo acordos semelhantes, para que o que é desenvolvido aqui na China seja produzido no Brasil em parceria com empresas privadas, empresas públicas e instituições de pesquisa.

Uma das ações é envolver as universidades nesse processo. O reitor da Universidade Federal do Rio de Janeiro e professores ligados à USP estão conosco nesta missão. À medida que se utiliza essa super-conectividade para reunir e analisar dados, abre-se um campo enorme para a pesquisa, para que estudantes e pesquisadores possam produzir mais conhecimento a partir da realidade brasileira. Queremos uma inteligência artificial treinada com imagens de tomografia, raio-x e ressonância do Brasil, que dialogue com os problemas de saúde da nossa população. E o SUS é o melhor lugar para isso, porque é o sistema com maior capilaridade em todo o país, da região amazônica ao extremo sul.

Nesta missão foi assinado um memorando de entendimento entre a Hemobrás e a Tiantan. O senhor pode comentar sobre esse acordo e o que ele significa?

Essa é outra frente importante da agenda: avançar nas parcerias de desenvolvimento produtivo, coordenadas pelo Ministério da Saúde, envolvendo instituições públicas brasileiras, empresas privadas nacionais e empresas internacionais.

O memorando da Hemobrás foi firmado com a Tiantan, gigante chinesa na produção de hemoderivados ligada ao grupo Sinopharm, com alguns dos maiores setores produtivos do mundo nessa área. Esses produtos vão desde derivados da doação de sangue até tratamentos para doenças do sangue: albumina, usada em pacientes de UTI e grandes queimados; fatores de coagulação, essenciais para quem tem hemofilia; e imunoglobulina, utilizada em doenças autoimunes e infecciosas.

A Hemobrás é hoje a maior fábrica de hemoderivados da América Latina. Com essa parceria, poderá crescer ainda mais na produção, tanto pela transferência de tecnologia quanto pela compra de insumos e equipamentos de parceiros chineses.

Brasil e China são grandes parceiros comerciais e essa relação se torna cada vez mais diversa, incluindo cooperação em conhecimento e ciência. Qual é a importância das alianças entre o Brasil, a China e outros países do BRICS na área da saúde, especialmente considerando a recente parceria para o enfrentamento de doenças socialmente determinadas?

É decisivo. O futuro da saúde global está na cooperação internacional, na capacidade de todas as regiões do mundo produzirem cada vez mais suas próprias tecnologias de saúde. Ninguém quer repetir o que vivemos na pandemia da Covid-19: depender de uma única região para insumos e produtos de saúde, com toda a cadeia logística vulnerável. Vivemos, infelizmente, mais uma guerra no mundo, que sempre traz risco de impacto logístico. É cada vez mais importante que a produção seja cooperada, envolvendo várias regiões e fortalecendo capacidades regionais.

Os BRICS têm um papel decisivo nisso. Lançamos a parceria estratégica do bloco para o enfrentamento dos determinantes sociais da saúde e para a produção de tecnologias contra essas doenças. Crescemos essas parcerias: a produção de insulina no Brasil conta com uma parceria com a China e outra com a Índia, dois países do BRICS.

Temos também uma ação importante num momento em que os Estados Unidos saíram da Organização Mundial da Saúde, fazem campanha contra a vacina e cortam investimentos em pesquisa de vacinas de RNA mensageiro. As parcerias com os países do BRICS são fundamentais para a saúde global, para fortalecer a OMS e para consolidar a cooperação Sul-Sul, a cooperação entre pares, como algo estrutural para a saúde do mundo.

Para além dos projetos já consolidados, como o senhor enxerga a saúde pública brasileira nos próximos anos?atualmente está pensando o futuro da saúde pública brasileira?

Estamos construindo uma verdadeira revolução digital na saúde, que já começou. Vejo dois grandes desafios imediatos com impacto profundo na saúde pública brasileira e mundial.

O primeiro é o envelhecimento da população. Esse processo traz doenças que exigem cuidado continuado e acompanhamento com tecnologias, exames e novas terapias: doenças crônicas, câncer, doenças autoimunes, doenças cardiovasculares. Precisamos de alta tecnologia para acompanhar o paciente em todos os seus passos, não apenas dentro do hospital. Queremos usar a tecnologia para chegar ao paciente que está no meio da Amazônia ou na periferia de São Paulo, trazendo-o para os centros especializados mesmo estando em casa. Hoje estamos instalando 10 mil equipamentos de telessaúde nas unidades básicas de saúde de todo o país.

O segundo desafio é o impacto das mudanças climáticas na saúde pública. A crise climática é uma crise de saúde pública. Em 2024, um em cada 12 hospitais no mundo teve suas atividades paralisadas por tragédias climáticas. As mudanças climáticas fazem doenças aparecerem em regiões onde antes não existiam: temos hoje o vetor da doença de Chagas no sul dos Estados Unidos por conta do aumento da temperatura média, e houve transmissão de chikungunya na França. É preciso adaptar os sistemas de saúde para que se tornem resilientes, capazes de resistir a tragédias climáticas.

Para isso, estamos implementando centros de monitoramento de saúde e clima nas capitais de todas as regiões do Brasil. Com o acompanhamento informatizado dos dados climáticos cruzados com dados de saúde, conseguimos construir mapas preditivos: onde vai aparecer mais idoso com diabetes ou hipertensão descompensada, mais criança com síndrome respiratória, mais casos de dengue. Assim nos antecipamos e cuidamos melhor da população. E para tudo isso, precisamos de muita tecnologia.

Editado por: Nathallia Fonseca

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