O Príncipe Custódio dá as boas vindas à Travessa dos Venezianos. Ele morou na casa de pedra bem na esquina da Lopo Gonçalves, com o número 498 de 1901 a 1935. Logo a seguir vem o Centro Africano São Miguel Arcanjo do Pai Alfredo, fundado em 20 de maio de 1980. E depois todo o conjunto de 17 casas populares tombadas pelo município, coloridas, a mais fulgurante de Porto Alegre.
Casas branca, marrom, azul, vermelha, verde, roxa e assim por diante, construções que datam do início do século 20, de arquitetura simples, com fachadas resumidas a um esquema de porta e uma ou duas janelas, com pé direito alto, grudadas umas às outras. Na entrada tem dois murais de personagens da história da comunidade negra. Os paralelepípedos são irregulares, mas originais e datam do início dos anos de 1930. E bares. Muitos bares, onde se reúnem pessoas de todas as tribos.

Meio difícil de localizar sem olhar mapas do Google, a Venezianos fica entre as ruas Lopo Gonçalves e Joaquim Nabuco, na Cidade Baixa de tanta diversidade e cultura. As casas são todas do mesmo tamanho, diz uma moradora, Yandre Soares, filha do Pai Alfredo. A jornalista Thamara Costa Pereira, que faz caminhadas históricas pela cidade, conta que uma guia turística disse ao grupo que a acompanhava que ali está a menor casa da cidade. Pode ser. Olhando com cuidado, sem fazer medição, não pude observar tal casa. Parecem realmente todas do mesmo tamanho.

Os espaços são alternativos, descontraídos, cheios de alto astral, gritos de júbilo e felicidade, regados a drinques, cervejas, caipirinhas. Muito se fuma por ali, tal o número de baganas, bitucas ou guimbas de cigarro espalhadas pelo chão, o que faz o gari da Cootravipa, que frequentemente está por ali, Carlos Alberto Xarão da Silveira, dizer que é muito difícil deixar o local ‘um brinco’ em razão das pedras irregulares. Falta luz com frequência na área e, às vezes, água. Mas a vida do lugar histórico segue com muita animação. Só parou mesmo durante a enchente de 2024, onde as águas não perdoaram nada na região. E também, claro, durante a pandemia.
Variedades

Yandre Soares conta que o Centro Africano funciona eventualmente e realiza eventos especiais religiosos, mas não deixa que se entre no local. Diz que os bares da travessa funcionam principalmente de quintas a domingos, sempre com muito público. “A rua fica lotada, muita agitação, música, gente jovem, gente velha. É muito bonito”, diz ela. Tem bares diferenciados como Xeque Mate, Ceva do Guernica, Pó da Rabiola, Mark Hamburgueria (quase pronto para inaugurar) e outros. Quem vai até ali fica realmente envolvido com o bom astral.
Tem também o Milonga, bar e espaço cultural fundado no inverno de 2023, em uma casa de 120 anos. “O espaço busca fomentar a cultura do Pampa e da América Latina, com manifestações folclóricas às expressões mais contemporâneas, dentro do contexto diverso e multicultural do bairro mais boêmio de Porto Alegre. O Milonga é um bar comunitário, feito a partir da presença e da participação de muita gente, sendo uma reflexão permanente sobre a identidade do Rio Grande do Sul”, diz Pepe Martini, um dos sócios do local.

Sua programação é focada em apresentações musicais virtuosas, de diferentes gêneros musicais. O bar também realiza uma Roda aberta de Milonga com frequência mensal. A milonga é um gênero musical e dança folclórica originária da Argentina, Uruguai e do Sul do Brasil, precursora do tango. Caracteriza-se por um ritmo rápido, alegre e sincopado, dançado com passos curtos e ágeis, sendo também o nome dado à festa ou local onde se dança tango.

Outro local que merece uma visita é o Ponto de Cultura e Memória Parrhesia, um espaço legitimamente grego. Parrhesia é um termo antigo que significa “discurso destemido” ou franqueza, no qual o orador arrisca a própria segurança pessoal para dizer toda a verdade ao poder. Envolve um dever moral de falar abertamente, em vez de permanecer em silêncio, sendo frequentemente empregado no discurso democrático ou para desafiar autoridades. O conceito enfatiza um estilo de comunicação corajoso, honesto e crítico. Ali são realizados debates, discussões e estudos. Além de se beber à vontade.
Uma longa história
A Travessa dos Venezianos tem uma longa história. Até a metade do século 19 e o fim da Guerra dos Farrapos, em 1845, a região tinha uma espécie de vida rural, sempre envolvida com enchentes, alagamentos, provocadas pelo arroio Dilúvio, que era livre, leve e solto naqueles tempos, e o Guaíba, com suas margens empurradas pouco a pouco para mais longe. Era também a zona de escravos, que fugiam dos seus donos – a escravidão só foi encerrada em 1888 pela Lei Áurea da Princesa Isabel. Sua evolução se fez a partir da instalação de uma olaria nas imediações.

Cronistas da época citam como aspectos pitorescos o carnaval que movimentava as ruas do bairro, sendo que um dos grupos mais conhecidos era o Bloco dos Venezianos. O beco, pode-se assim dizer, também, abrigou até pouco tempo, a Associação Riograndense de Artes Plásticas Francisco Lisboa, o mineiro Aleijadinho*, mas em 2022 foi transferida para a Galeria do Dmae na rua 24 de Outubro, bairro Moinhos de Vento.
Estas casas originalmente eram ocupadas por pessoas de renda muito baixa, em regime de aluguel. Com o passar dos anos, seus ocupantes passaram a ser os proprietários. Sua denominação deriva do antigo nome da rua Joaquim Nabuco – Rua dos Venezianos – sendo que esta travessa era um beco que a ligava à Lopo Gonçalves. Sua primeira aparição no mapa oficial da cidade data de 1935. O conjunto começou a ser restaurado em 1983, com auxílio dos próprios moradores. Para preservar-se não só a arquitetura, mas também a atmosfera característica do entorno, foram tombados juntamente imóveis limítrofes nas ruas Lopo Gonçalves e Joaquim Nabuco.
Príncipe Custódio

Não há dúvidas de que o Príncipe Custódio foi um dos principais nomes que morou na Travessa dos Venezianos. Pouca gente realmente sabia da sua história, não fosse a Escola de Samba Portela, do Rio, homenageá-lo no Carnaval deste ano com o enredo “O Mistério do Príncipe do Bará”. Líder religioso influente no batuque do RS no início do século 20, a homenagem celebrou a cultura e a resistência negra em tempos de perseguições.
Custódio Joaquim de Almeida foi um babalorixá de origem nobre do país africano Benin, que morou em vários lugares do estado (Rio Grande e Bagé, por exemplo) e se fixou na Lopo Gonçalves, entrada dos Venezianos. Ele foi figura central da negritude gaúcha, unindo a elite gaúcha através de curas e mediações, apesar das perseguições à sua religião de matriz africana.
O seu nome africano era Osuanlele Okizi Erupê (Golfo da Guiné, atual Benin**, 1832 – Porto Alegre, 28 de maio de 1935), que no Brasil adotou o nome Custódio Joaquim de Almeida, Príncipe de Ajudá. Ele foi um dirigente tribal africano exilado em solo brasileiro, onde tornou-se curandeiro através de ervas, e líder religioso.
Atualmente, o economista Marcus Vinícius, seu bisneto, é o atual detentor do título de Príncipe de Ajudá. O Príncipe Custódio peregrinou pela Europa, países do Prata e depois veio para o RS, onde tornou-se conhecido do político e presidente da província Júlio de Castilhos, tratando-o com sucesso de várias enfermidades. A pedido de Castilhos, se mudou para Porto Alegre, passando a residir em casarão na Lopo Gonçalves, entrada da Venezianos, reduto da resistência negra e religiosa e coletividade da população africana e afro-brasileira desde o período da escravatura.

Ali formou-se o Quilombo da Mocambo, com festejos afros que poderiam durar até três dias. Nessas celebrações havia o consumo de requintadas comidas e de licores e vinhos importados, fazendo-se presentes pessoas de diferentes segmentos sociais, com destaque à presença de políticos locais, entre eles o então presidente do estado Borges de Medeiros, por dois mandatos. O fato se justificava pelo prestígio que o príncipe possuía entre as camadas populares e que muito interessava aos anseios eleitorais dos políticos da época.
Durante o período da escravatura no Brasil, foram trazidos africanos de distintos povos e culturas, cuja herança cultural passou pelo processo de sincretismo, principalmente no âmbito religioso. Nesse processo os elementos religiosos originados na África foram mesclados com elementos da religiosidade católica, indígena e posteriormente do espiritismo kardecista, surgindo, assim, no solo brasileiro, uma religiosidade de matriz africana própria. Ela se desenvolveu e ficou conhecido como batuque ou nação, expressão religiosa que mais se aproxima dos elementos da religiosidade puramente africana, centrando suas celebrações apenas no culto dos orixás.
Seu maior prestígio deve-se aos trabalhos feitos enquanto sacerdote do batuque. É considerado Bará (senhor dos caminhos, encruzilhadas, movimento e prosperidade) do Mercado Público, Príncipe Custódio teria feito mais seis assentamentos em diferentes lugares de Porto Alegre, o que totalizariam sete, o número deste orixá. Entre eles, teria um assentamento no Palácio Piratini, sede do governo gaúcho, para a proteção de Borges de Medeiros, com o qual o príncipe Custódio mantinha boas relações.
* Antônio Francisco Lisboa (1738–1814) era o artista conhecido como Aleijadinho. Natural de Ouro Preto, ele foi o maior expoente do barroco mineiro e da arte colonial brasileira. Atuou como escultor, entalhador e arquiteto, cujas obras em pedra-sabão e madeira marcam cidades como Ouro Preto e Congonhas.
** Benin, país de língua francesa da África Ocidental, é o local de origem da religião vudu (ou “vodu”) e do antigo Reino do Daomé (1600 a 1900, aproximadamente). Em Abomey, antiga capital de Daomé, o Museu Histórico ocupa dois palácios reais, com baixos-relevos que narram o passado do reino e com um trono montado sobre crânios humanos. Ao Norte, no Parque Nacional Pendjari, há safáris com elefantes, hipopótamos e leões. A capital é Porto Novo, idioma é o francês e línguas tribais, com área de 44.310 quilômetros quadrados e 14,46 milhões de habitantes.
