Daniel Jadue, membro do Partido Comunista do Chile e ex-prefeito da Comuna de Recoleta, é parte da grande comunidade palestina que vive no país. São cerca de 500 mil pessoas, entre os nascidos na Palestina e descendentes — a maioria absoluta, cristãos —, formando a maior diáspora da nação sem estado fora da Ásia Ocidental. Criaram até um time de futebol, o Clube Palestino (1920), que venceu duas vezes o campeonato chileno e duas vezes a Copa do Chile.
Na segunda parte da entrevista que deu ao Brasil de Fato, Jadue, que foi militante da Frente Popular de Libertação da Palestina (FPLP) por 15 anos, analisa algumas das implicações da guerra que EUA e Israel iniciaram ao atacar injustificadamente o Irã, incluindo o sentimento palestino diante do maior ataque militar sofrido por Israel em sua história.
Esta entrevista foi feita alguns dias antes do escândalo do pedido de demissão de Joe Kent — chefe de contraterrorismo da CIA —, que denunciou a inexistência de qualquer ameaça iraniana à segurança nacional dos EUA, e confirmou as suspeitas de que Donald Trump teria iniciado a guerra somente pela insistência de Benjamin Netanyahu. Para Jadue, esta guerra é o segundo erro histórico do projeto sionista. O primeiro foi o genocídio do povo palestino em Gaza, pois “o fato de o projeto sionista ter se apresentado ao mundo — mesmo que tenha sido uma mentira — como uma resposta ao Holocausto nazista, ao genocídio, e de hoje se encontrar envolvido justamente naquilo que lhe deu origem, mas como perpetradores, destrói sua narrativa histórica, sua coerência”.
Jadue expôs sua tese há cerca de dois meses, portanto, antes do início da guerra no Irã, em um artigo intitulado “Israel está morto”. Para ele, a acertada estratégia iraniana, que chamou de “guerra dos pobres”, baseada, por um lado, em armamentos baratos e, por outro, em pressão econômica, com o fechamento do Estreito de Ormuz para nações hostis a Teerã, deve marcar o “fim do projeto sionista (…), mas também marca o declínio definitivo do poder hegemônico dos EUA”.
Apesar das contradições expostas entre países do Brics com a guerra — Índia e Emirados Árabes Unidos muito próximos de Israel —, Jadue acredita que o grupo está aprendendo a lidar com a diversidade de ideologias e orientações políticas, mas alerta para seu principal desafio: “Precisamos de um mundo multipolar. Precisamos de um mundo multilateral. Não precisamos passar de um país explorando a população mundial para quatro países explorando a população mundial. Precisamos de um mundo onde ninguém explore ninguém”.
Confira a segunda parte da entrevista de Daniel Jadue:
Brasil de Fato: Você é um militante de longa data pela causa palestina e dedicou muito tempo a essa causa, por muitos anos. Depois de mais de dois anos desse genocídio brutal do povo palestino — que vemos todos os dias em nossos celulares —, como você vê os ataques sem precedentes que Israel está sofrendo do Irã? Você tem conversado com pessoas na Palestina? Como elas estão reagindo, como estão encarando esses ataques históricos contra Israel?
Daniel Jadue: Imagine como o povo palestino deve se sentir ao ver, pela primeira vez em 70 anos, alguém espancando aqueles que os humilharam, perseguiram, assassinaram, torturaram e estupraram sem que o mundo dissesse uma palavra, com a tolerância cúmplice e um manto de imunidade e impunidade para o Estado de Israel? Acredito que isso gerou grandes expectativas, uma mudança de humor, uma mudança que também está afetando a estrutura da “liderança palestina”, que está altamente desacreditada, muito distante de seu próprio povo e não é mais respeitada. A Autoridade Nacional Palestina é uma ficção, mas a resistência palestina ressurgiu, por assim dizer, e, nos últimos dois anos, travou uma batalha formidável contra o genocídio. Israel não conseguiu atingir nenhum de seus objetivos, e o objetivo não declarado foi revelado: os ataques cirúrgicos que realizaram no Irã para assassinar o líder da Revolução Islâmica, tentar assassinar seu sucessor e toda a “cúpula” do governo iraniano. Poderíamos dizer: “Bem, se eles quisessem atacar a classe dominante palestina, nunca tiveram mais informações do que as que tinham sobre os iranianos”. Portanto, em Gaza, o objetivo não declarado sempre foi o genocídio e o extermínio completo, certo? Então, depois de vivenciar esse último período, acho que hoje os palestinos, de uma forma ou de outra, sentem que há um pouco de justiça em relação ao que Israel está passando, porque, como não sentir um pouco de justiça ao ver todos os colonos ilegais fugindo e retornando aos seus países de origem? E os palestinos não têm para onde ir porque são de lá. A ironia é evidente, né? Agora todos os israelenses querem retornar aos seus países de origem. Eles estão indo embora. Não têm nenhuma ligação com aquela terra, nenhum apego a ela além de serem uma ferramenta do capital transnacional para a dominação do globo inteiro. E hoje estão sofrendo as consequências e tentando desesperadamente sair, mas não tem como.
Quais consequências você acha que esses ataques podem ter? Por exemplo, recentemente publicamos uma entrevista com o professor iraniano Mohammad Marandi, que diz que parece ser o começo do fim do regime sionista em Israel. Bem, veremos. Mas se isso acontecer, se o regime sionista, ou pelo menos esse setor que está atualmente no comando de Israel, realmente se enfraquecer, quais você acha que podem ser as consequências para o povo palestino nos próximos anos?
Veja, eu escrevi um artigo, há uns dois meses, chamado “Israel está morto”. Exatamente com a mesma tese. Foi publicado, entre outros, no jornal El Desconcierto, que diz que Netanyahu e sua coalizão acreditam estar escrevendo a página final do conflito, mas, se o sionismo sobreviver a este episódio, jamais poderá apagar de sua história o que fez. Está terminando o túmulo físico e político de seu projeto, porque onde há imperialismo há resistência, e onde há genocídio haverá justiça. Penso que havia uma “aura” inventada de moralidade no projeto sionista.
O fato de o projeto sionista ter se apresentado ao mundo — mesmo que tenha sido uma mentira — como uma resposta ao Holocausto nazista, como uma resposta ao genocídio, e de hoje se encontrar envolvido justamente naquilo que lhe deu origem, mas como perpetradores, destrói sua narrativa histórica, destrói sua coerência. Acredito que o projeto sionista jamais sobreviverá a isso porque, além disso, acredito que esses são os dois maiores erros de sua história: o erro de cálculo em Gaza e no Irã. Acho que eles nunca previram a resposta do Hamas, mesmo tendo eles próprios formado e financiado o Hamas para enfraquecer a Organização para a Libertação da Palestina (OLP) na década de 1980. Eles jamais imaginaram que o Hamas conseguiria recrutar praticamente todo o pessoal militar das outras facções palestinas, unificando-as. Não por serem fundamentalistas, mas porque era a única força que oferecia um espaço para continuarem fazendo o que seus corações diziam que precisavam fazer, e também para fazerem a única coisa que souberam fazer nos últimos 70 anos. E isso é muito importante porque os sionistas não previram isso lá, e também não previram no Irã.
O Irã claramente desenvolveu uma estratégia extremamente inteligente. O fato de o Irã estar atacando todos os seus vizinhos, todas as bases militares americanas, sem que nenhum vizinho ouse responder, é o seu maior sucesso. Porque agora os países da região estão considerando se não seria menos custoso, mais útil e mais seguro incorporar o Irã em suas estratégias de defesa regional em vez dos EUA, que estão tão distantes. Parece que o Irã pode se defender muito melhor de qualquer ameaça interna ou externa do que os EUA, que falharam completamente. E mais, apesar do apagão de informações, apesar da censura americana pró-Israel contra tudo o que eles fizeram, todos sabem que estão perdendo a guerra e que vão perdê-la porque o Irã está travando o que agora é conhecido como a “guerra dos pobres”. Armas que custam muito menos do que as que os EUA possuem, que são fabricadas em muito menos tempo do que as que EUA e Israel possuem, e que podem ser recarregadas com recursos próprios que nem Israel, nem EUA, possuem. Além disso, o fechamento do Estreito de Ormuz deixou o mundo inteiro em alerta e ninguém quer atacar o Irã e todos estão culpando os EUA, então isso significa o fim do projeto sionista, por um lado, mas também marca o declínio definitivo do poder hegemônico dos EUA.
Estudei um pouco a estratégia iraniana e uma coisa que me fascina é que o Irã vem se planejando há mais de 30 anos para alcançar esse nível de desenvolvimento. Por um lado, sim, existem armas muito baratas, e isso é o que se chama de “guerra dos pobres”, mas o Irã também planejou, em alguns setores, incluindo mísseis e aeroespacial, um projeto de desenvolvimento de alta tecnologia que vem sendo realizado há décadas. Começa com a massificação do ensino universitário, depois massificam os estudos de pós-graduação, a Guarda Revolucionária cria um centro de estudos que conecta a universidade com as forças armadas, e eles trabalham juntos. Quer dizer, é um plano estilo chinês de 30 anos. Recentemente, nos acostumamos a pensar que somente os chineses é que planejam a longo prazo, mas os iranianos são brilhantes também, né?
A questão é que os iranianos e os chineses têm algo que o Ocidente não tem: milhares de anos de história. Essas são culturas que sobreviveram a todos os modos de produção e a centenas de invasões ao longo da história e da pré-história da humanidade.
Portanto, o fato de que alguns ocidentais ingênuos, arrogantes, criminosos e assassinos acreditarem que podem superar duas culturas antigas com tecnologia demonstra que eles não entendem absolutamente nada de história. As universidades são apenas para inglês ver.
Como você vê o futuro da região? Bem, você já abordou esse assunto um pouco ao mencionar o Irã como um potencial parceiro de defesa. Mas o que está acontecendo agora é que, por um lado, o assassinato de Ali Khamenei parece estar gerando uma espécie de união entre sunitas e xiitas. Há vários países onde as pessoas estão se manifestando. Mas, por outro lado, é claro que as ações retaliatórias do Irã, como os bombardeios a bases e outros ativos dos EUA em países da região, também causam tensão em nível estatal. Mas você acha que o que está acontecendo agora, essa instabilidade, poderia causar levantes populares em algum desses países? Seria essa uma das estratégias do Irã? Por exemplo, no Bahrein, que tem 80% de população xiita, parece que as coisas estão se intensificando.
Acho que esta parte do mundo se acostumou a olhar para o Oriente através das lentes distorcidas das Cruzadas e isso a impede de ver ou se lembrar de certas coisas. No mundo cristão, os cristãos se envolveram em guerras entre si com mais frequência do que os muçulmanos. As duas guerras mundiais de que temos conhecimento foram entre cristãos. Elas não envolveram nenhuma outra religião. É importante lembrar disso para não superestimar as diferenças entre as lideranças do Islã. Em última análise, a grande divisão entre xiitas e sunitas surge no nível do poder, dentro das estruturas de poder das sociedades. Mas os muçulmanos, sejam xiitas ou sunitas, são muçulmanos. E, claro, exceto quando entram em conflito entre si, o que pode durar algum tempo, eles possuem uma unidade ética e moral, bem como uma unidade formal, muito mais forte do que a que existe entre os cristãos. Uma das razões pelas quais nenhum país se atreve a atacar o Irã é porque sabem que, neste momento, todos os povos — sunitas, xiitas, todos — estão com o Irã. E se algum governo reacionário, qualquer monarquia absoluta, se algum governo se aliar aos Estados Unidos e a Israel neste momento, é provável que caia.
Estes são o tipo de governo que o Ocidente adora, que é seu principal parceiro, incluindo os progressistas que assinam acordos com eles, incluindo o governo de Boric [Gabriel, do Chile] que acabou de terminar, que condena projetos progressistas na América Latina [Venezuela e Cuba], mas assina acordos de cooperação com os Emirados Árabes Unidos. Eles são inacreditáveis. Até mesmo os progressistas no mundo árabe sabem disso, e quando digo “incluindo os progressistas no mundo árabe”, estou pensando no Catar com a Al Jazeera. Veja o que aconteceu na última sexta-feira (13) do Ramadã, o Dia Mundial de Al-Quds [dia em homenagem a Jerusalém, pela causa Palestina]. Em todas as capitais do mundo árabe, ocorreram as mais impressionantes marchas em solidariedade à Palestina, mas ainda acompanhadas por imagens do líder iraniano assassinado.
Como os Estados-nação têm 300 anos de história, a nação muçulmana tem 1.400. Portanto, também precisamos considerar os processos históricos envolvidos. Veja bem, desde o nascimento do cristianismo até a separação entre Igreja e Estado, passaram-se 1.648 anos, até a época de [a Paz de] Vesfália [série de tratados que deram fim a longas guerras entre monarquias europeias, estabeleceram as bases do Estado-nação moderno, e princípios como soberania territorial e igualdade jurídica entre estados. Considera-se como uma espécide de nascimento do direito internacional]. Logo, pode-se dizer que há um intervalo de 600 anos em relação ao mundo islâmico. De 1648 a 2200, é altamente provável que, em alguns anos, ou talvez em mais 100 anos, os muçulmanos estejam discutindo a separação entre Igreja e Estado, seguindo o mesmo caminho de desenvolvimento histórico de todas as culturas. Porque o que estamos vivenciando hoje foi vivenciado pelo mundo cristão há 500 anos. Lembrem-se de que, no mundo cristão, mulheres eram queimadas na fogueira por estudarem e eram chamadas de bruxas. Os cristãos nas Cruzadas cometeram crimes horríveis, e eles são cristãos. E alegam que esses são valores ocidentais. Portanto, todas essas coisas são relativas quando vistas da perspectiva da própria história. Temos um horizonte que se estende 80 anos para trás, 80 anos para frente. A história dos nossos pais, a história dos nossos filhos. Mas essa história não é nada na história das nações. Então, é claro, o Ocidente se esquece do que teve que atravessar para se tornar o chamado mundo semissecular que é hoje. Acredito que o Islã esteja trilhando o mesmo caminho, e acredito que outras culturas também. Os chineses passaram por isso também, e hoje são uma sociedade completamente secular, apesar de ainda serem, com essa fusão de marxismo e confucionismo, uma sociedade extremamente tradicional. Portanto, acho que não devemos olhar para o que está acontecendo no mundo agora com uma perspectiva diferente daquela que usamos para analisar todos os processos no Ocidente.
Sim, concordo. Eu gostaria de voltar à estratégia do Irã: como você acha que eles estão pensando a relação com os países árabes da região?
Neste momento, acredito que seja mais do que uma estratégia de resistência; não é mais apenas uma estratégia defensiva, é uma estratégia para vencer a guerra. E é uma estratégia composta por vários elementos, sendo o primeiro deles mobilizar todos os seus adversários regionais e trazê-los para o seu lado. E isso é muito notável e muito importante. Hoje, até mesmo o Iraque, que esteve em guerra [contra o Irã] por oito anos, está totalmente do lado do Irã. Porque sabe que o povo iraquiano não toleraria que eles cedessem. Veja, sabe do que isso me lembra? A primeira invasão do Kuwait pelo Iraque em 1991. Quando [Yasser] Arafat nunca apoiou a ocupação iraquiana, ele sabia que não podia apoiar a coalizão internacional [liderada pelos EUA] que foi formada para derrotar [Saddam] Hussein. E isso significava isolamento completo do mundo inteiro. Mas Arafat sabia que esse isolamento era melhor do que trair seu próprio povo e pôr fim à sua liderança nacional. Porque aliar-se aos Estados Unidos e a Israel para atacar o Iraque teria significado uma morte em vida para ele. Acredito que o que Arafat compreendeu naquela época é compreendido hoje por todos os governos árabes e muçulmanos, inclusive os asiáticos da região.
O que você acha que vai acontecer com o Brics? Temos um conflito onde, por um lado, já existem muitas evidências de que a China e a Rússia estão apoiando o Irã com tecnologia de inteligência, dados, geolocalização etc. E, por outro lado, temos a Índia — [Narendra] Modi esteve no Knesset [parlamento israelense], aos abraços com Netanyahu, dias antes do início dos ataques criminosos; e os Emirados Árabes Unidos, que também têm laços muito estreitos com os sionistas. Ao mesmo tempo, o Irã está se defendendo e bombardeando os Emirados Árabes Unidos, não apenas bases americanas, mas também hotéis, aeroportos, e outros alvos. No entanto, o Brics ainda não se pronunciou publicamente sobre as questões mais importantes que estão acontecendo no mundo neste momento. Como você vê o futuro do Brics? O futuro do grupo está ameaçado por este conflito?
Não, não. É como a ASEAN, a Associação das Nações Asiáticas. Os Brics já entenderam que o futuro será caracterizado por diversas ideologias, que não haverá uma única potência hegemônica dominando todo o planeta. Mas os Brics ainda têm dívidas a pagar. Precisamos de um mundo multipolar. Precisamos de um mundo multilateral. Não precisamos passar de um país explorando a população mundial para quatro países explorando a população mundial. Precisamos de um mundo onde ninguém explore ninguém. E onde compreendemos que nossa casa comum, que é a natureza, assim como nosso corpo inorgânico, conforme [Karl] Marx o define em termos de trabalho alienado, não pode ser explorado além da necessidade. Que não podemos continuar permitindo que o deserto chileno se encha de roupas novas que não podem ser vendidas a cada ano. Que não podemos continuar comprando carros apenas para trocá-los a cada dois anos simplesmente para manter as empresas lucrando — um capitalismo que instaurou a obsolescência programada, tanto técnica quanto emocional, como meio de sobrevivência. Então, teremos que começar a pensar em outras coisas. Leis que exijam que os produtos que compramos tenham uma vida útil como antigamente, de 20, 30, 50 anos. E que tenhamos direito a reparos. Dessa forma, precisamos desacelerar e mudar nossa relação com a natureza para um tipo de troca que seja, em primeiro lugar, mais livre e, em segundo lugar, guiada pela necessidade em vez da acumulação de capital. Em outras palavras, precisamos parar de combater a pobreza e começar a combater a riqueza. Precisamos parar de debater o salário mínimo e começar a debater o salário máximo.
O problema é que a esquerda aprendeu a falar a língua, a economia, que nos foi imposta pelo Banco Mundial e pelo FMI. Se não nos dermos conta disso, continuaremos a reproduzir um tipo de cultura extrativista, uma cultura onde a natureza se torna uma mercadoria e não o nosso corpo inorgânico, algo que precisamos superar. Se isso não estiver claro, estamos perdidos. Porque a destruição do planeta, seja capitalista ou socialista, é igualmente ruim. Portanto, precisamos mudar nossos estilos de vida. Precisamos descolonizar corpos, linguagem e desejo. O problema é que existe um segmento da esquerda que quer viver como o establishment. Existe um segmento da esquerda que se tornou excessivamente institucionalizado e quer aparecer nas capas de revistas frequentadas pelo 1% mais rico do mundo. Há uma parcela da esquerda que quer trocar de carro todo ano. Há uma parcela da esquerda que quer viver de investimentos sem trabalhar. Há também uma parcela da esquerda que se encantou com o poder de explorar os outros. É isso que precisamos impedir. Portanto, precisamos descolonizar — repito — a linguagem, os corpos e o desejo. E a coisa mais difícil de descolonizar é o desejo.
