ECONOMIA SOLIDÁRIA

Feira da Vivi promove economia solidária, cultura e conscientização sobre feminicídios no RS

Evento foi realizado neste sábado (21), na praça do Tambor, centro histórico de Porto Alegre

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Um dos destaques desta edição foi a instalação de um Banco Vermelho
Um dos destaques desta edição foi a instalação de um Banco Vermelho | Crédito: Joseph Matheus

A Feira da Vivi, organizada pelo Sindicato dos Bancários de Porto Alegre e Região (SindBancários), reuniu neste sábado (21), na praça do Tambor, centro histórico de Porto Alegre, economia solidária, manifestações culturais e debates sociais em memória de Virgínia Faria, bancária da Caixa Econômica Federal que faleceu em decorrência da covid-19.

Realizada há três anos, a iniciativa busca homenagear a trabalhadora e, ao mesmo tempo, fortalecer espaços coletivos de geração de renda, expressão artística e mobilização social. A programação incluiu apresentações de música, dança e poesia falada, com participações de artistas como Roberta Moura, Preta Guedes e Mica, do slam.

“A Feira da Vivi é esse espaço de encontro, de arte, de comercialização, mas também de visibilidade e conscientização”, afirma a secretária-geral do SindBancários, Sabrina Muniz.

Conforme pontuou Muniz, a feira reúne bancárias, familiares e convidadas que expõem produtos autorais, muitas delas mulheres que conciliam múltiplas jornadas de trabalho. “São mulheres que muitas vezes têm jornada tripla e ainda encontram tempo e energia para sua expressão cultural e artística”, destacou.

Banco Vermelho: símbolo de luta contra feminicídios

Um dos destaques desta edição foi a instalação de um Banco Vermelho na Praça do Tambor (Praça Brigadeiro Sampaio). A ação integra uma campanha internacional de conscientização sobre feminicídios e amplia uma iniciativa já realizada anteriormente na sede do sindicato.

A advogada Denise Argemi, integrante do Conselho Estadual dos Direitos da Mulher e coordenadora dos Estados Gerais das Mulheres – Brasil, explica que o projeto tem origem na Itália e vem sendo desenvolvido há cerca de uma década em diversos países, incluindo o Brasil.

Segundo ela, a proposta vai além do símbolo visual. “O banco vermelho é um mobiliário urbano que chama atenção, mas ele não basta por si só. Por trás da instalação, há todo um trabalho de formação e capacitação nas comunidades, escolas e universidades, para difundir os diferentes tipos de violência contra as mulheres.”

Argemi também destacou que o feminicídio representa a etapa final de um ciclo de violências. “Antes dele, há uma série de agressões, como assédio moral, assédio sexual e outras formas de violência que vão se acumulando.”

A iniciativa tem se expandido em diversas cidades do Rio Grande do Sul, como Uruguaiana, Farroupilha, Tupanciretã, Bento Gonçalves e Seberi, com previsão de novos lançamentos ao longo do mês de março.

A vice-presidenta da Associação Comunitária do Centro Histórico, Marivane Anhanha Rogério, destacou a importância da realização da Feira da Vivi na Praça Brigadeiro Sampaio, espaço que, segundo ela, é um dos mais simbólicos da cidade. “Essa é uma praça muito emblemática, a primeira da cidade. A gente busca manter esse espaço como lugar de convivência e harmonia”, afirmou.

Ela ressaltou que a parceria com o Sindicato dos Bancários fortalece o uso do local para ações culturais e sociais, e destacou o papel do Banco Vermelho no enfrentamento à violência contra as mulheres. “Esse símbolo vai nos ajudar muito. A ideia é promover debates, palestras e acolher mulheres, tanto as que sofrem violência quanto as que muitas vezes se calam.”

 A feira contou com apresentações de música, como da artista Roberta Moura e Trio Mande | Crédito: Joseph Matheus

Cenário alarmante da violência de gênero

Dados recentes apontam que o Brasil vive um cenário preocupante em relação à violência de gênero. Em 2025, foram registrados 1.568 feminicídios no país, uma média de quatro mulheres assassinadas por dia. No Rio Grande do Sul, até o momento, já são 23 casos em 2026.

Durante a feira, a roda de conversa destacou que o enfrentamento à violência contra as mulheres passa pela garantia de direitos, autonomia econômica, valorização da cultura e construção de uma sociedade mais justa. “A luta das mulheres é coletiva. Ela passa pelo enfrentamento à violência, pela garantia de direitos e pela construção de um mundo onde possamos viver, e não apenas sobreviver”, destacou Muniz.

A atividade contou com a participação de Kelly Quirino, primeira mulher negra eleita representante dos funcionários no Conselho de Administração do Banco do Brasil (Caref).

Em uma fala marcada por denúncias e relatos concretos, ela chamou atenção para o avanço da violência de gênero no país e para o nível de crueldade dos crimes. “Não é apenas o aumento dos feminicídios que nos impacta, mas a barbárie, a misoginia e a crueldade com que esses crimes são cometidos.”

Quirino relatou casos recentes de violência, incluindo estupros e assassinatos, para evidenciar a gravidade da situação. “É uma dor que muitas vezes nos paralisa. Há situações em que nem conseguimos encontrar palavras para explicar o que está acontecendo.”

A dirigente também destacou os impactos do feminicídio sobre as crianças que ficam órfãs. “Como essa criança elabora que a mãe foi assassinada pelo próprio pai? Não é só uma questão material, é um trauma profundo”, apontou.

Racismo, infância e desigualdade

Ao abordar a interseccionalidade das violências, Quirino destacou que mulheres negras enfrentam camadas adicionais de opressão ao longo da vida. Segundo ela, o racismo estrutural se manifesta desde a infância.

A dirigente citou experimentos sociais que mostram a diferença de tratamento entre crianças negras e brancas em espaços públicos, evidenciando a invisibilização da infância negra. “Se não morremos pelo feminicídio, morremos mais cedo pelas múltiplas violências que atingem o corpo da mulher negra.”

Ela também relacionou essas violências às desigualdades históricas no Brasil e à desvalorização da vida negra, lembrando casos emblemáticos que marcaram o país nos últimos anos.

Para as empreendedoras, as feiras vão além da economia: representam espaços de resistência, solidariedade e empoderamento feminino | Crédito: Joseph Matheus

Masculinidades e transformação social

Durante sua fala, Quirino reforçou que o enfrentamento à violência contra as mulheres exige mudanças estruturais na sociedade, incluindo o debate sobre masculinidades. “Não são todos os homens, mas é sempre um homem. Precisamos discutir masculinidades, promover letramento de gênero e construir novas formas de relação.”

Ela também defendeu a importância de políticas públicas interseccionais e ações educativas desde a infância, incluindo iniciativas de educação antirracista.

Quirino ainda conectou o debate sobre violência de gênero às condições de trabalho, defendendo a redução da jornada e o direito ao tempo livre. “A gente não é máquina. A gente precisa descansar, conviver, viver. Trabalhar menos também é uma forma de garantir dignidade”, afirmou, ao mencionar a luta contra a escala 6×1.

A roda de conversa contou com a participação de diretoras do sindicato, que abordaram temas como o aumento do ódio contra mulheres nas redes sociais e a situação de crianças órfãs do feminicídio.

Mulheres negras e a invisibilidade nos feminicídios

Diretora de base do SindBancários e à frente da Secretaria de Combate ao Racismo da Central Única dos Trabalhadores (CUT), Isis Garcia, questionou a invisibilidade das mulheres negras nas estatísticas de feminicídio. “Vocês viram alguma mulher negra ser citada como assassinada na RBS? Nenhuma. Todas as vítimas eram mulheres brancas, com o fenótipo gaúcho, loiras, olhos claros. Mas sabemos que, na realidade, as mais mortas são as negras. Existe uma proteção seletiva: mulheres brancas geram comoção, mulheres negras são apagadas, invisibilizadas. Elas convivem diariamente com a violência e, quando morrem, pouco se fala”, afirmou.

De acordo com o “Retrato dos Feminicídios no Brasil”, elaborado pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública, entre 2021 e 2024, mulheres negras representaram 62,6% das vítimas de feminicídio, enquanto mulheres brancas corresponderam a 36,8% dos casos. Metade das vítimas tinha entre 30 e 49 anos.

Garcia lembrou o feminicídio de Simone Oliveira dos Santos, trabalhadora do setor de limpeza do SindBancários, mulher negra que já cuidava de órfãos na família e foi assassinada, deixando os filhos e sobrinhos sob a responsabilidade de outra irmã. “Se não mostramos esses rostos, as mulheres negras continuam sendo descartáveis. Eu não sou guerreira no sentido de caça; sou uma mulher com direitos e deveres, representando um ramo majoritariamente feminino. Nossa luta é trazer outras mulheres para ocupar espaços e garantir direitos.”

Redes de ódio e movimentos misóginos

Em sua intervenção, a diretora Sandra Chaves alertou para a violência de grupos virtuais que atacam mulheres, conhecidos como Red Pill, Black Pill e Incels (pessoas que se identificam por sua incapacidade de estabelecer parcerias sexuais). “O Red Pill se vê como um despertar da verdade, mas para eles, o movimento feminista é uma ameaça. Eles instigam violência e têm subgrupos, como os Incels, que veem mulheres como rejeição e justificativa para agressão. Já o Black Pill é ainda pior, tratando a mulher como incapaz e apenas passível de violência”, explicou.

Ela destacou o alcance e a influência desses grupos: “São milhões de seguidores e visualizações, inclusive entre jovens e crianças. Precisamos de legislação que regule o que circula nas redes sociais. Liberdade de expressão não pode ser usada para ensinar violência.”

Diretora de base do SindBancários e à frente da Secretaria de Combate ao Racismo da Central Única dos Trabalhadores (CUT), Isis Garcia, questionou a invisibilidade das mulheres negras nas estatísticas de feminicídio | Crédito: Joseph Matheus

Caso Wueslen: visibilidade para desaparecidos

Outro momento marcante foi a manifestação de uma família que busca por Wueslen, um jovem desaparecido que completa aniversário no dia 3 de abril. No sábado familiares e amigos realizaram uma caminhada pelo centro da capital. A organização do evento cedeu espaço para dar visibilidade ao caso junto ao público presente.

A mãe de Wueslen, Miriam Ferreira de Assis, relatou a angústia da família diante do desaparecimento do filho, que completa 43 dias sem respostas. “Ele saiu para ver um amigo, disse que já voltava e nunca mais voltou. Ele sempre avisava onde estava. Quando começaram a responder do telefone dele, eu percebi que não era ele. Eu mandava um ponto de interrogação e ele sabia que tinha que responder com áudio. Quem estava com o celular não sabia disso”, contou.

As mensagens enviadas, segundo Miriam, não condiziam com o jeito do filho. “Diziam que ele estava com uma namorada, e ele não falaria assim comigo. Ele não tinha namorada.”

A mãe também critica a dificuldade de acesso a informações que possam ajudar nas buscas. “A gente pede para que as autoridades verifiquem as câmeras de segurança, mas elas têm tempo limitado de gravação. Já são 43 dias, e talvez nem seja mais possível acessar essas imagens.”

Moradora do bairro Mario Quintana, Miriam relata que deixou o trabalho para se dedicar integralmente às buscas. “Eu pedi demissão depois do que aconteceu. Estou há 43 dias procurando meu filho, sem nenhuma resposta”, desabafou.

Segundo o Sistema Nacional de Informações de Segurança Pública, do Ministério da Justiça, o Rio Grande do Sul registrou 7.611 pessoas desaparecidas em 2025, equivalente a cerca de 20 casos por dia, quase um por hora.

“Não se trata apenas da venda de produtos, mas de posicionamento”, frisa Ana Mack | Crédito: Joseph Matheus

Feirantes reforçam economia solidária e empoderamento feminino

A Feira da Vivi reuniu diversas empreendedoras que aproveitam o espaço para divulgar seus trabalhos, fortalecer a economia solidária e valorizar a cultura afro-brasileira. Juliana Santos da Silva, dona da marca Use Seu Poder, destacou sua trajetória e o impacto social do seu trabalho. “Sou uma afroempreendedora periférica e sempre empreendi de alguma forma, inclusive junto com minha mãe. Hoje, produzo acessórios artesanais de tecido africano e materiais sustentáveis, como brincos feitos de papel. A economia solidária caminha comigo desde sempre”, disse.

Silva ressaltou que seu trabalho também busca inspirar mulheres que passam por situações de violência, oferecendo uma alternativa de autonomia e expressão criativa. Ela mora no bairro Rubem Berta, em Porto Alegre, e participou da feira durante a inauguração do Banco Vermelho, ligado à luta contra a violência de gênero.

Daiane dos Santos, fundadora da marca Adai Biju, contou que empreende formalmente há seis anos, embora tenha iniciado suas atividades ainda criança. “Estar nas feiras é gratificante: o público conhece nosso trabalho e podemos trocar experiências com outras mulheres do mesmo ramo. Meu objetivo é empoderar mulheres e elevar a autoestima delas”, afirmou.

Santos também explicou que seu trabalho percorre diferentes lugares, ampliando o alcance da marca, e que o movimento da feira varia ao longo do ano, mas é sempre oportunidade de crescimento e aprendizado.

Ana Mack, designer de biojóias e acessórios artesanais, reforçou o caráter político e cultural da participação na feira. “Não se trata apenas da venda de produtos, mas de posicionamento. Nossas peças têm recorte étnico e são inspiradas na matriz africana e na orixalidade. As feiras nos permitem resistir ao patriarcado, fortalecer nossa identidade e criar espaços de valorização do trabalho artesanal”, explicou.

Ela destacou ainda a importância de datas simbólicas, como o Dia Internacional da Igualdade Racial, para conectar a produção cultural à luta por visibilidade e direitos.

Para as empreendedoras, as feiras vão além da economia: representam espaços de resistência, solidariedade e empoderamento feminino, fortalecendo redes de apoio, autoestima e autonomia em comunidades periféricas.

Editado por: Katia Marko

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