PRESSÃO

Universidade Federal de Ciências da Saúde de Porto Alegre amanhece com seus portões bloqueados

Ação dos servidores integra a greve nacional que já alcança cerca de 50 universidades e institutos federais

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Servidores técnico-administrativos organizam bloqueio nos portões da UFCSPA durante jornada nacional de lutas em Porto Alegre
Servidores técnico-administrativos organizam bloqueio nos portões da UFCSPA durante jornada nacional de lutas em Porto Alegre | Crédito: Vitor Hugo Xavier/Assufrgs

A greve dos servidores técnico-administrativos em educação das instituições federais entrou em uma nova fase de intensificação nesta segunda-feira (30), com ações coordenadas em diversas regiões do país.

Em Porto Alegre, a Universidade Federal de Ciências da Saúde de Porto Alegre (UFCSPA) amanheceu com seus portões cadeados. As atividades foram paralisadas após o bloqueio do campus, organizado pelo Comando de Greve do Sindicato dos Técnico-administrativos em Educação da Ufrgs, UFCSPA e IFRS (Assufrgs).

A mobilização integra um movimento nacional que já alcança cerca de 50 universidades e institutos federais, reunindo servidores de instituições como a Universidade Federal do Rio Grande do Sul (Ufrgs), a própria UFCSPA e o Instituto Federal do Rio Grande do Sul (IFRS).

As atividades foram paralisadas após o bloqueio do campus | Crédito: Vitor Hugo Xavier/Assufrgs

A ação teve início nas primeiras horas da manhã e buscou impedir o acesso ao campus como forma de pressão política. Myrela Leitão, do Comando Local de Greve, afirmou que a iniciativa representa um endurecimento da mobilização diante da falta de avanços nas negociações com o governo federal.

Segundo ela, o ato foi um sucesso: “conseguimos garantir que os portões da UFCSPA ficassem fechados o dia inteiro, sem nenhuma atividade acadêmica ou administrativa e principalmente sem nenhum tipo de transtorno ao acesso à saúde que a instituição oferece”.

O movimento ocorre após meses de tensionamento entre os trabalhadores e o governo, especialmente em torno da implementação de acordos firmados ao longo de 2024, que tratavam da reestruturação da carreira e da recomposição salarial da categoria.

O coordenador-geral da entidade, Ricardo Souza, destacou o caráter de enfrentamento do movimento e criticou medidas do governo federal relacionadas à carreira. Segundo ele, o ato do presidente Lula sancionar o PL 6170 é firmar retrocessos à carreira, indo na contramão do acordo de greve. “Hoje tivemos um dia de luta radicalizado. Nós trancamos os portões da UFCSPA no nosso dia nacional de luta da nossa greve para cobrar que o presidente Lula negocie com a categoria.”

Bloqueios e paralisações marcam novo momento da greve | Crédito: Vitor Hugo Xavier/Assufrgs

Projeto de lei acirra conflito sobre carreira

O centro do impasse está no Projeto de Lei 6170, que trata da reorganização da carreira dos técnico-administrativos das universidades federais. De acordo com representantes sindicais, o texto aprovado no Senado não contempla pontos considerados essenciais pela categoria e altera aspectos que haviam sido previamente negociados.

A coordenadora geral da Assufrgs, Maristela Piedade, sustenta que o projeto foi aprovado sem a incorporação de emendas defendidas pelos trabalhadores, o que, segundo ela, compromete direitos históricos. Na avaliação da dirigente, esse cenário tende a prolongar a paralisação e ampliar a adesão ao movimento.

Entre as principais críticas está a possibilidade de flexibilização nas formas de contratação de profissionais voltados à acessibilidade, como tradutores e intérpretes de Língua Brasileira de Sinais. Para os trabalhadores, a medida abre espaço para vínculos precários e descontinuidade no atendimento a estudantes. Piedade defende que esses cargos sejam ocupados por servidores efetivos e argumenta que “nós exigimos concurso público para esses profissionais, que eles façam parte de nossa categoria de técnico-administrativos em educação; não aceitamos menos. É uma política de Estado a acessibilidade”.

Após o ato foi realizada uma assembleia no local onde foi debatido e defendido que a greve se mantenha com atos como esse até que o governo cumpra integralmente o acordo de crédito de 2024. Charles Almeida, também do Comando Local de Greve, afirmou que a categoria espera uma reabertura imediata do diálogo com o governo federal. “Governo Lula, nós clamamos: abra a negociação imediatamente, que a nossa categoria, os técnico-administrativos em educação, precisam ser respeitados e atendidos nas nossas demandas, que são mais do que justas”.

Gestão universitária busca manter serviços essenciais

Diante do bloqueio, a Reitoria da UFCSPA orientou estudantes e servidores a não se deslocarem até o campus. Em comunicação institucional, a universidade recomendou a adoção de atividades remotas sempre que possível, tanto para aulas quanto para funções administrativas.

Apesar da paralisação total dos acessos, houve negociação entre o comando de greve e a administração para assegurar o funcionamento de serviços considerados indispensáveis. Entre eles estão atividades relacionadas à manutenção de biotérios, laboratórios com organismos vivos e atendimentos assistenciais vinculados à universidade.

A gestão também tem lidado com tensões relacionadas ao uso dos espaços universitários durante o período de greve. Integrantes do movimento criticam o que consideram restrições à realização de atividades políticas no campus. Maristela Piedade expressou preocupação com essa postura e afirmou que “nos preocupa muito também a postura da UFCSPA não permitindo que se realizasse, aqui nesse espaço, a Conferência Antifascista. A UFCSPA é uma universidade pública, gratuita, de qualidade, e é muito importante que ela debatesse o antifascismo e a inclusão de todos e todas”.

Apoio político e disputa por narrativa

A mobilização dos técnico-administrativos também tem repercutido no cenário político nacional. Parlamentares têm se posicionado em relação à greve, reforçando a disputa de narrativas sobre o movimento. O deputado federal Glauber Braga manifestou apoio às reivindicações da categoria, destacando que, em sua avaliação, os trabalhadores buscam apenas o cumprimento de compromissos já assumidos pelo governo federal.

Segundo o parlamentar, não estão pedindo nenhum favor, simplesmente o cumprimento do que foi acordado no ano de 2024. “Eles estão lutando em defesa da educação pública, em defesa dos seus direitos.” A fala reforça a leitura, entre setores aliados à greve, de que o conflito não se dá por novas demandas, mas pela implementação de acordos anteriores.

Por outro lado, o governo federal ainda não apresentou uma resposta pública detalhada sobre as críticas ao projeto de lei, mantendo as negociações no âmbito institucional entre ministérios e representações sindicais.

Caravana a Brasília e continuidade da mobilização

A tendência, segundo as deliberações mais recentes da categoria, é de continuidade e ampliação do movimento. Em assembleia realizada na semana anterior, os servidores aprovaram a manutenção da greve e a organização de uma caravana a Brasília, prevista para os dias 14 e 15 de abril.

A agenda inclui participação em atos nacionais que devem reunir diferentes categorias do funcionalismo e movimentos sociais, ampliando o escopo das reivindicações. Entre as pautas que devem ser levadas à capital federal estão, além da carreira dos técnicos, temas mais amplos ligados às condições de trabalho, como a crítica à escala 6×1.

Editado por: Katia Marko

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