A Prefeitura de São Paulo, comandada por Ricardo Nunes (MDB) ainda não apresentou o projeto de habitação social para a área em que estava localizado o Teatro de Contêiner Mungunzá, no bairro de Campos Elíseos, no centro de São Paulo. A gestão municipal também não têm disponível o contrato específico do prédio que alega que deve ser construído no local.
Em janeiro deste ano, a Prefeitura interditou a área onde funcionava o teatro, na Rua Gusmões com a Protestantes, desde então as atividades exercidas pela Companhia de Teatro Mungunzá tiveram que ser deslocadas para a sede da Fundação Nacional de Artes (Funarte), também no centro da capital. Em março a subprefeitura da Sé realizou o despejo das estruturas de contêiner.

A reportagem do Brasil de Fato buscou a Companhia Metropolitana de Habitação de São Paulo (Cohab – SP) para ter acesso ao projeto e ao cronograma de execução do prédio, uma vez que o teatro foi removido às pressas e interditado sem uma solução definitiva, segundo integrantes da Companhia Mungunzá.
A Cohab informou que o projeto de habitações populares e área de convivência para área encontra-se em fase de elaboração e será executado pela Concessionária Habita São Paulo, em uma Parceria Público Privada (PPP) municipal da habitação. Disse ainda que está prevista a implantação de 92 unidades habitacionais, bem como de área de esporte e lazer aberta à comunidade.
Na ação de retirada do teatro do local houve a desmontagem integral das unidades e o transporte dos materiais para um depósito municipal na Avenida do Estado. A interdição do Teatro de Contêiner em janeiro de 2026 já havia gerado tensões. A Cia Mungunzá relata que, ao longo de 2025, buscou uma solução digna para a realocação do espaço, apresentando diversas propostas.
No entanto, o poder público teria se mantido irredutível quanto à exigência de que a transferência fosse concluída ainda naquele ano, desconsiderando o tempo e os estudos técnicos necessários. Um acordo firmado no final de 2025 previa a cessão de um terreno na Rua Helvétia, mas, desde a interdição, o diálogo com a prefeitura e o governo estadual foi interrompido, inviabilizando qualquer mudança efetiva.
Marcos Felipe, um dos fundadores do Teatro de Contêiner, diz que a saída do teatro “nunca foi justificada”. Segundo ele, um projeto para o espaço também não foi apresentado aos integrantes do Teatro. “Não há projeto de construção de habitação social para aquele terreno. Não me espanta saber que não há projeto. Esse é só mais um dado das enormes violências que nós temos sofrido.”

A reportagem solicitou também o contrato específico da obra que deve ser feita no local. Em resposta, a Prefeitura de São Paulo encaminhou um contrato de 2018 sem qualquer especificação relativa ao endereço onde estava localizado o teatro.
O documento de 2018 menciona que “o poder concedente poderá, mediante solicitação da concessionária e prévio exame de mérito em face do interesse da política pública municipal de habitação, outorgar poderes para а concessionária promover desapropriações de terrenos para destiná- los exclusivamente à implantação, em quaisquer das fases, nos termos do edital e deste contrato.”
Procurada, a Habita São Paulo também não confirmou se há um projeto com a Prefeitura já definido para construção de moradias no local. Em nota a empresa informou somente que “quaisquer informações relativas a este empreendimento deverão ser solicitadas diretamente por meio dos canais oficiais de comunicação da Cohab.”
No site da companhia, os empreendimentos elencados em fase de andamento se localizam na zona leste, norte e na rua da Consolação.
Para o vereador Nabil Bonduki (PT), a reintegração de posse e derrubada do teatro fazem parte de uma estratégia para que o local seja vendido. “Claro que não era urgente. É que para fazerem uma licitação naquele terreno, o terreno deve estar desimpedido, porque ninguém entraria em uma licitação de uma parceria público-privada em um terreno que está ocupado.”
Débora Ungaretti, jurista e pesquisadora do LabCidade da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo (FAU-USP), critica o modelo de PPP, que, segundo ela, utiliza contratos guarda-chuva para que novos ritos de contratação e transparência não precisem ser feitos. “Na prática, é uma PPP que era para ser executada no extremo norte de São Paulo, ali na Cachoeirinha, e está sendo usada para desmantelar atividades em Campos Elíseos. Na prática, esses contratos guarda-chuva fazem com que a gestão vá sendo feita de forma picotada.”
“Existe uma crítica geral a essa forma de gestão pública”, diz ela. “É uma gestão pública pela via contratual, sem discussão pública do projeto, sem discussão do que vai ser feito e para ser um projeto de desmantelar e de combater práticas culturais e formas de existência na cidade.”
“A remoção do Teatro de Contêiner, às pressas, sob o pretexto de habitação social, não se justifica. Nosso jurídico não encontrou um único edital ou contrato que sustente esse projeto; nos parece uma promessa vazia para justificar o desmonte de um polo cultural vivo. Se o objetivo é moradia social no Centro, por que ignorar os inúmeros prédios abandonados da região? Defendemos as políticas de habitação popular; elas são urgentes, mas é necessária gestão e planejamento. O que falta no Centro não é espaço, é vontade política e respeito ao que já funciona”, declara o vereador Hélio Rodrigues (PT) e presidente do Diretório Municipal do PT-SP.
Impasse logístico e financeiro
Embora o grupo tenha aceitado a transferência para um terreno na rua Helvetia, os artistas alegam falta de suporte para fazer a mudança dos 11 contêineres que compõem a estrutura. O custo do novo projeto do teatro está estimado em R$ 2 milhões. A Justiça, porém, considerou que o prazo da liminar se esgotou e que a ocupação em área pública era irregular e a prefeitura ofereceu um suporte de R$ 100 mil.
Como já afirmado ao Brasil de Fato, Marcos Felipe já recorreu às redes sociais para explicar que o grupo precisava de mais tempo para organizar a retirada do equipamento. Segundo ele, os integrantes tentam diálogo com a prefeitura desde dezembro, sem sucesso. “A Prefeitura não está nos recebendo para conversar. Faço esse apelo: conversem com a gente. Agentes públicos chamem a gente para o diálogo”, pediu.
Uma década de ocupação
O projeto nasceu em 2016, quando a Cia. Mungunzá ocupou um terreno abandonado que servia como descarte de lixo. O local transformou-se em um premiado centro cultural que, ao longo dos anos, recebeu cerca de R$ 2,5 milhões em verbas públicas via editais.
A retirada do teatro mobilizou até nomes como Fernanda Montenegro e Marieta Severo, que enviaram cartas ao prefeito defendendo a permanência do grupo como essencial para a segurança e a vida do bairro.
Em 2023, o Sesc São Paulo indicou o projeto como exemplo de inovação em arquitetura teatral para o International Theatre Engineering and Architecture Conference (Iteac), evento especializado realizado em Londres, no Reino Unido.
Na última quarta-feira (1), integrantes do teatro se juntaram a diversos coletivos culturais da cidade de São Paulo para protestar contra o que classificam como “desmonte” da cultura na capital paulista.
Marcos Felipe destacou que o ato visava mobilizar a sociedade civil e os trabalhadores da cultura contra as ações da prefeitura em favor da especulação imobiliária. “O ato mostra que foram ultrapassados todos os limites de violência praticados pela prefeitura e pelo governo do estado. Eles estão acabando com todos os movimentos e espaços de cultura popular. A especulação imobiliária a serviço e em parceria com o Estado está acabando com tudo. Não iremos mais suportar tamanha violência e apagamento cultural na cidade de São Paulo”, afirmou.
