O risco de encerramento das atividades do Centro de Reabilitação de Porto Alegre (Cerepal) mobilizou pacientes, trabalhadores e vereadores na Câmara Municipal, que pressionam a prefeitura para manter os contratos com a instituição, referência no atendimento a pessoas com paralisia cerebral e outras síndromes neurológicas motoras. As manifestações ocorreram durante a 9ª reunião ordinária da Comissão de Defesa do Consumidor, Direitos Humanos e Segurança Urbana (Cedecondh).
Com 62 anos de atuação, o Cerepal atende cerca de 2 mil crianças e jovens por mês, além de oferecer suporte às famílias. Durante a reunião, representantes da entidade relataram dificuldades financeiras e alertaram para o risco de rompimento do contrato com o Executivo municipal ao fim deste ano.
Autor da proposta da reunião, o vereador Erick Dênil (PCdoB) destacou a importância histórica da instituição. “A Cerepal é uma instituição que tem mais de 60 anos, não são 60 dias. São anos de história atendendo crianças atípicas e pessoas com deficiência com acolhimento. Uma instituição tão importante não pode simplesmente não ter recursos suficientes para se manter aberta.”
A presidenta da comissão, vereadora Natasha Ferreira (PT), criticou a gestão municipal. “Sebastião Melo pode aumentar o repasse, porque quem distribui os recursos e tem autonomia de caneta no município é o prefeito. O município investe milhões em publicidade. Por que não investir mais recursos em quem está cumprindo um papel que é do Estado?”, afirmou.
Dênil também responsabilizou a gestão municipal. “Na verdade o que existe é o que é ou não prioridade do governo Melo. Infelizmente a saúde e a assistência social não são prioridades”, declarou.
Pressão por continuidade
A vice-diretora da entidade, Tânia Rauber, ressaltou a luta para manter o serviço e o papel do Cerepal na vida das famílias. “É uma luta constante que não abrimos mão. O Cerepal tem uma importância grande para esses jovens e crianças porque é onde elas têm uma vida social e aprendem muitas atividades, que são simples para outras crianças, mas para eles exige certo estímulo.”
O advogado da instituição, Maxsoel Bastos, afirmou que há dificuldades para manter o funcionamento com os valores atuais e relatou entraves no diálogo com o poder público. “É impossível uma instituição ficar de pé com os valores que recebemos. Em julho de 2025, a prefeitura rompeu nosso contrato, mas conseguimos entrar com uma ação judicial para manter o nosso serviço ativo. Agora, soubemos que mais uma vez a Prefeitura disse que vai romper o contrato. Várias vezes tentamos ser recebidos na Secretaria Municipal de Saúde, mas não fomos ouvidos.”
Usuários e familiares destacaram os impactos do atendimento. “Não podemos deixar acabar o trabalho de uma instituição séria. Tive um tempo que estava na cadeira de rodas e a minha reabilitação motora foi muito rápida, por meio das terapias com convívio social que dialogam com a educação e a saúde. Estou ansiosa para voltar e não quero parar, pois saí da cadeira e hoje ando com minha bengala. O trabalho dessa instituição não pode parar”, afirmou a paciente Odoraci Marina do Amaral .
“Meu filho aprendeu a caminhar no Cerepal e eu me emociono ao falar disso. Isso aconteceu graças ao trabalho que é desenvolvido lá. Esse fechamento atinge muitas famílias”, disse Leandro Walter, pai de duas crianças atendidas pela instituição.
Secretarias e encaminhamentos
Representando a Secretaria Municipal de Saúde (SMS), Geórgia Volkmer disse que que a SMS vem tentando trabalhar e ajudar a Cerepal de todas as maneiras. “O valor que é repassado ao Cerepal é para dar conta de todas as demandas da instituição”, afirmou.
O representante da Secretaria Municipal de Assistência Social (Smas), Nelson Beron, afirmou que a pasta está aberta ao diálogo. “Acho que essa luta é importante e também devemos chamar a atenção do governo para a saúde e assistência social.”
A Cedecondh aprovou o envio de pedido de providências à Prefeitura de Porto Alegre para suspender qualquer medida que implique o encerramento dos contratos e solicitou informações sobre como será garantido o atendimento aos usuários em caso de interrupção dos serviços.
O Brasil de Fato RS questionou a SMS e a Smas sobre o possível fechamento e possíveis alternativas para a prestação dos serviços à população. Não houve retorno até o fechamento desta matéria.
