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Música e artesanato mongóis em Xinjiang recebem apoio de políticas de patrimônio imaterial

Tovshuur foi reconhecido nacionalmente em 2014; produção artesanal saltou de 4 para 100 instrumentos por mês

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Luthier Ma Ergeli tocando o tovshuur, instrumento mongol, em frente a sua oficina no Condado de Wenquan, Prefeitura Autônoma Mongol de Bortala, no noroeste da Região Autônoma Uigur de Xinjiang
Luthier Ma Ergeli tocando o tovshuur, instrumento mongol, em frente a sua oficina no Condado de Wenquan, Prefeitura Autônoma Mongol de Bortala, no noroeste da Região Autônoma Uigur de Xinjiang | Crédito: Mauro Ramos/Brasil de Fato

No condado de Wenquan, na Prefeitura Autônoma Mongol de Bortala, em Xinjiang, o luthier Ma Ergeli produz o Tovshuur, instrumento de cordas da etnia mongol reconhecido em 2014 pelo Conselho de Estado da China como Patrimônio Cultural Imaterial Nacional. A base de produção que ele dirige, segundo documentos do Centro Cultural do Condado de Wenquan, fabrica hoje mais de 100 instrumentos por mês, ante quatro mensais quando a operação era exclusivamente artesanal.

O Tovshuur tem cerca de 90 centímetros de comprimento e duas cordas tradicionalmente feitas de tripa de carneiro. A caixa de ressonância é coberta por madeira de pinho ou paulownia. “Nossa etnia tem um dom natural para o canto e a dança”, diz Ma Ergeli ao Brasil de Fato. “Depois de levar o gado para pastar, não tem muito mais o que fazer. Mas esse instrumento traz uma alegria musical enorme para a vida das pessoas”.

O Tovshuur acompanha danças, epopéias orais e as chamadas canções de melodia curta, composições de estrutura simples cantadas em festas, casamentos e encontros comunitários. Essas canções receberam reconhecimento separado como patrimônio cultural imaterial nacional em 2021, na quinta leva de reconhecimentos promovidos pelo Conselho de Estado.

O pai de Ma Ergeli, Ma Dega, de 74 anos, é transmissor oficial do patrimônio cultural imaterial na fabricação do Tovshuur. A tradição familiar abrange pelo menos três gerações: o avô fabricava os instrumentos, a avó cantava, o pai toca e constrói até hoje. Ma Ergeli trabalhou como barbeiro antes de retornar ao ofício familiar em 2015, quando o pai o chamou para dar conta de um pedido grande de encomendas.

Recepção tradicional mongol no Condado de Wenquan, na Prefeitura Autônoma Mongol de Bortala, no noroeste de Xinjiang.
Recepção tradicional mongol no Condado de Wenquan, na Prefeitura Autônoma Mongol de Bortala, no noroeste de Xinjiang. À esquerda, uma reconstrução de um kalun. | Crédito: Mauro Ramos / Brasil de Fato

“Lembro de ver o rosto do meu pai brilhando de suor, o cabelo já ficando branco, mas ele ainda trabalhando com dedicação”, conta o luthier. “Essa imagem me fez assumir esse caminho sem hesitar”. Em 2018, Ma Ergeli introduziu equipamentos modernos na base, convertendo o processo para um modelo semi-industrial, mantendo a escultura à mão nos componentes essenciais.

A preservação cultural em Wenquan não se restringe aos instrumentos. No vilarejo de Bogdar, no mesmo condado, moradores mantêm torres de estilo mongol que evocam os postos de vigilância de fronteira do período Qing, e recebem visitantes com danças e músicas tradicionais. Ayigul Jumatai, secretária do Comitê do Partido Comunista da vilarejo, disse ao Brasil de Fato que Bogdar é formada por uigures, mongóis, han e cazaques, e que a memória histórica dos Mongóis Chahar estrutura a identidade local.

“Em 1762, os Chahar migraram para o oeste a partir de Zhangjiakou, divididos em três grupos, e se estabeleceram permanentemente no condado de Wenquan”, afirmou Jumatai. “Mais de 20 Kalun foram estabelecidos. A missão dos Kalun era apenas uma: guardar a fronteira da nossa pátria. Isso está profundamente enraizado aqui”.

Os Kalun, termo derivado do manchu karan, eram postos militares de controle de fronteira da dinastia Qing, com funções de patrulhamento e fiscalização. Para os mongóis Chahar, representam mais do que memória militar: foi a missão de guarnecer esses postos que determinou o deslocamento permanente de suas comunidades para Bortala, trazendo consigo língua, música e costumes que persistem até hoje.

Yerken é músico descendente dos Mongóis Chahar, toca o Matouqin, outro instrumento de cordas com cabeça esculpida em forma de cavalo, e integra grupo artístico do condado fundado em 1965. Para ele, a transmissão cultural passa pelos rituais do cotidiano. “Precisamos herdar a cultura da nossa nação”, disse à reportagem do Brasil de Fato, que assistiu a um ensaio de cerimônia de casamento mongol. “Antes, fazíamos casamentos na estepe. Agora fazemos num restaurante na cidade. O casamento mongol de verdade é o que vocês viram aqui”.

Segundo documentação do Centro Cultural do Condado de Wenquan, a Prefeitura Autônoma Mongol de Bortala foi moldada por séculos de intercâmbio entre mongóis, cazaques, uigures, russos e han, o que influenciou o repertório musical local. As canções de melodia curta de Wenquan incorporaram elementos de melodias de diversas dessas etnias ao longo do tempo. O reconhecimento formal dessas práticas pelo Estado amplia as possibilidades de financiamento e institucionalização. “Quero que mais pessoas se apaixonem pelo Tovshuur”, disse Ma Ergeli. “E que essa arte continue a se desenvolver”.

Editado por: Thaís Ferraz

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