SABERES ANCESTRAIS

Caminho de Peabiru mobiliza debate indígena após falsos documentos e pressão turística

Seminário em Santa Catarina cobra responsabilidade, pesquisa científica e protagonismo indígena sobre rota guarani

No audio source provided.
Seminário do Caminho de Peabiru promove escuta de lideranças indígenas na Assembleia Legislativa de Santa Catarina
Seminário do Caminho de Peabiru promove escuta de lideranças indígenas na Assembleia Legislativa de Santa Catarina | Crédito: Clarissa Londero

O plenarinho da Assembleia Legislativa de Santa Catarina foi palco para discussões a respeito do Caminho de Peabiru, a trilha ancestral guarani que ligava o oceano Atlântico ao Pacífico, na última sexta-feira (24). O trajeto se iniciava em Santa Catarina e rumava a noroeste até o atual Chile, conectando saberes ancestrais no que diz respeito à navegação, cultura tradicional, tempos naturais e espiritualidade.

Segundo o pesquisador em arqueoastronomia, o guarani Karaí Vydju, a palavra Peabiru significa “abrir caminhos de luz”. Para ele, “entender a profundidade dessas palavras originárias” e levar para a Assembleia de Santa Catarina, “onde todos têm voz, é uma oportunidade ótima e ajuda que o caminho seja respeitado”.

Liderança guarani Karaí Vydju leva a voz e as simbologias da cultura ancestral de seu povo à Assembleia Legislativa de SC | Crédito: Clarissa Londero

O seminário foi promovido pelo gabinete do deputado estadual Marquito (Psol) e articulado pela Rede Brasileira de Trilhas SC, no intuito de esclarecer o tema após a divulgação de falsos documentos que visavam efetivar a exploração turística das trilhas. O deputado considera o tema sensível e em constante disputa. “Por isso, promovemos reuniões ampliadas, audiências públicas e agora este seminário, para dar transparência e trazer luz ao debate.” 

Rosana Bond, autora de cinco livros sobre o Peabiru e considerada uma das maiores especialistas no assunto, levou ao seminário a análise do laudo do Ministério Público que investigou os falsos documentos que estão sendo divulgados desde 2021. Segundo ela, os envolvidos na publicação são da extrema direita e não possuem “qualquer embasamento teórico ou prático que demonstrasse domínio sobre os temas relacionados a documentos históricos e patrimônio arqueológico.”

A jornalista e escritora Rosana Bond falou ao público presente sobre a investigação dos falsos documentos | Crédito: Clarissa Londero

Valorização da fala dos povos indígenas

A organização do seminário declarou a importância de serem ouvidas as lideranças indígenas sobre o tema, tanto no dia do encontro quanto na regulamentação do uso das trilhas. Durante a manhã do evento, tiveram espaço de fala os representantes das culturas tradicionais que estudam a história e os saberes ancestrais dos seus povos.

Vydju é pesquisador dos símbolos e das histórias do Caminho de Peabiru e considera ser papel de quem sabe “levar adiante os ensinamentos” que os antepassados do seu povo “guardam a sete chaves”. Tanto o caminho quanto os saberes que dele surgiram deixaram de ser estudados pelos Guarani após a colonização, e, portanto, necessitam ser novamente trazidos para a cultura desses povos.

O resgate dos saberes que envolvem Peabiru estão sendo acessados a partir de conversas e pesquisas junto ao ancião Alcindo Werá Tupã, já falecido. Vydju conta que esses ensinamentos estão adormecidos e cabe a sua geração “acordar e lembrar”. 

O resgate dos conhecimentos de Peabiru passa por conversas com os anciãos, como seu Alcindo Werá Tupã, já falecido | Crédito: divulgação

Em seu trabalho de pesquisa, o arqueoastrônomo está acessando histórias, compilando conhecimento e catalogando simbologias que o Caminho de Peabiru promovia. Segundo ele, o trajeto era uma bússola ancestral e de uma tecnologia sutil e avançada, que permitia acessar respostas sobre a vida, a espiritualidade, os tempos de colheita e semeadura, os caminhos a seguir e muitas outras respostas para a existência humana.

Esses conhecimentos eram lidos a partir das estrelas, da via láctea e do sol, como um mapa em que os povos antigos originários se baseavam. “Era o GPS e o relógio, dizia os caminhos e onde nascia e se punha o sol. O caminho do Peabiru, se olharmos para o céu, está em um ponto no meio da via láctea”, afirmou ele. 

Segundo a mediadora da mesa indígena do seminário, Kerexu Yxapryry, o conhecimento contido no caminho é sobre a vida do seu povo. “Se não entendermos isso, vamos andar perdidos por aí, perambulando. Vamos pisar em algo que não deveria, vamos sofrer.”

Para ela, o movimento de exploração turística das trilhas não pode invisibilizar o real propósito de Peabiru e sua origem indígena, sem considerar a questão sagrada que existe nesse trajeto. “Esse seminário é importante pra mostrar que a gente é. Existimos agora e precisamos ser ouvidos nesse assunto”, afirma.

Karaí Vydju estuda os símbolos presentes no Caminho e na cultura ancestral guarani | Crédito: divulgação

A mesa indígena foi composta também pela doutora em arqueologia e liderança Laklãno Xokleng, Walderes Priprá. Para ela, os conhecimentos sobre Peabiru estão ainda sendo resgatados e ainda é necessário muito tempo de pesquisa, rodas de conversa e construção coletiva junto ao povo Guarani.

“Para garantir direitos nessa sociedade, precisa ser um trabalho científico, e ainda temos muito pouco disso sobre o caminho, precisa ser construído e isso leva tempo”, afirma. A arqueóloga percebe pressa por parte dos brancos nesse tema, “como se precisasse haver uma canetada logo”. “Para nós é preciso ter tempo, para que então possamos afirmar o que é o Caminho de Peabiru. Nós indígenas não temos interesse econômico nesses caminhos. Para os parentes Guarani, é o caminho sem males, é outra cosmovisão”, ressalta ela.

Fala da arqueóloga Walderes Priprá, da etnia Laklãno Xokleng. Mesa indígena trouxe a cosmovisão dos povos tradicionais como protagonista do evento | Crédito: Clarissa Londero

História, arqueologia e pesquisa científica

A parte da tarde do seminário reuniu peritos para trazer as informações com embasamento científico que envolvem o Caminho de Peabiru. O professor de arqueologia da Universidade Federal do Rio Grande (Furg) falou sobre a importância de grandes caminhos trilhados pelo mundo, como o de Santiago de Compostela.

Em seu trabalho pessoal, estuda os caminhos das Missões Jesuíticas, no RS, cujo trajeto e uso turístico é regulamentado e protegido por órgãos públicos como Iphan. “Não devemos objetificar um caminho e nem tornar ele uma exploração do capital, e sim possibilitar que as pessoas acessem informações de uma interpretação do passado”, avalia.

As áreas de arqueologia, antropologia e história podem, para ele, contribuir com a estruturação de caminhos turísticos por meio do compartilhamento de estudos embasados em pesquisas científicas. Isso permitiria disseminar apenas informações fundamentadas e ajudar na criação de políticas públicas que protejam e divulguem de forma responsável esses trajetos.

O jornalista Fernando Angeoletto foi mediador da mesa sobre pesquisas históricas e arqueológicas | Crédito: Clarissa Londero

Turismo responsável

A última mesa do seminário reuniu profissionais da área do turismo ecológico e de aventura. Os profissionais trouxeram a necessidade de não seguir as buscas pelas trilhas do Caminho de Peabiru sem que antes os povos originários sejam ouvidos. O guia Geovane da Silva ressaltou a importância de construir uma rota turística junto com os indígenas. Ele contou que já se realiza um percurso simbólico que homenageia o caminho, no qual mais de 300 turistas passaram até hoje. 

O Caminho do Peabiru é considerado uma das mais importantes redes de trilhas pré-colombianas da América do Sul e já há estruturação turística da rota nos estados do Paraná e de São Paulo. Para Sara de Moraes, representante da Rede Brasileira de Trilhas, esse tipo de turismo ajuda no desenvolvimento socioeconômico na região, quando feito com responsabilidade ambiental e cultural.

Os presentes na mesa concordaram que qualquer ação de turismo na rota precisa ser preparada e organizada junto aos Guarani para que as pessoas possam saber da história do caminho e a conexão com os povos indígenas e sua cosmovisão. 

Walderes Pripirá (na foto em território Xokleng no RS) afirma que os três povos tradicionais do Sul (Guarani, Laklãno-Xokleng e Kaingang) são diferentes, mas possuem um objetivo em comum: a Terra. “Nós queremos proteger ela, pois é nossa mãe. Não queremos lucrar com ela” | Crédito: Clarissa Londero

Editado por: Marcelo Ferreira

|

Newsletter