GENOCÍDIO NÃO PARA

Israel usa acesso à água como arma em Gaza; crianças palestinas vêm perdendo habilidade de falar

Mutismo é manifestação física de um colapso psicológico infantil, além de consequência de traumas corporais

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Crianças buscam água potável no campo de refugiados palestinos de Bureij, na região central da Faixa de Gaza, em 28 de abril de 2026
Crianças buscam água potável no campo de refugiados palestinos de Bureij, região central da Faixa de Gaza | Crédito: Eyad Baba/AFP

As autoridades israelenses utilizam o acesso à água como arma contra a população de Gaza, privando os moradores do recurso essencial no âmbito de uma “campanha de punição coletiva”, denuncia um relatório da organização Médicos Sem Fronteiras (MSF) publicado nesta terça-feira (28).

Entre a destruição de infraestruturas e os obstáculos ao abastecimento, “a privação deliberada de água infligida aos palestinos é parte integrante do genocídio perpetrado por Israel“, afirma a MSF em um comunicado publicado em conjunto com o relatório que recebeu o título “A água como arma: a destruição e a privação de água e saneamento por parte de Israel em Gaza”.

O relatório, baseado em dados da MSF e em depoimentos ouvidos pelos funcionários da organização entre 2024 e 2025, afirma que a instrumentalização da água pelas autoridades israelenses segue “um padrão recorrente, sistemático e acumulativo”.

“Soma-se aos assassinatos diretos de civis, à destruição das estruturas de saúde e à demolição de residências, provocando deslocamentos em massa da população. Em conjunto, estes elementos evidenciam a vontade de impor condições de vida destrutivas e desumanas aos palestinos de Gaza”, alerta a ONG.

“As autoridades israelenses sabem que, sem água, a vida é paralisada. E, mesmo assim, têm destruído sistemática e deliberadamente as infraestruturas hídricas em Gaza, ao mesmo tempo que bloqueiam de forma constante a entrada de equipamentos relacionados com a água”, afirma Claire San Filippo, diretora de emergências da MSF, citada no comunicado.

Crise hídrica e sanitária

O relatório da organização Médicos Sem Fronteiras apresenta um cenário devastador sobre a crise hídrica e sanitária em Gaza. Abaixo, os pontos principais:

Cerca de 90% das infraestruturas de água e saneamento foram destruídas ou danificadas por ações militares israelenses, segundo dados da Organização das Nações Unidas (ONU), União Europeia (UE) e Banco Mundial. A MSF relata ataques diretos a caminhões-pipa identificados e a poços vitais para a população.

Apesar de ser a principal distribuidora de água depois das autoridades locais, a MSF afirma que é impossível atender à demanda total. Em março de 2026, a ONG fornecia 5,3 milhões de litros diários (atendendo 407 mil pessoas), mas as ordens de deslocamento e o bloqueio de materiais essenciais (bombas, cloro e dessalinizadores) impedem a continuidade e expansão do serviço.

A falta de latrinas e água limpa obriga a população a improvisar saneamento, contaminando o solo e o lençol freático. Há uma propagação acelerada de doenças diarreicas, de pele e infecções respiratórias, afetando principalmente mulheres e pessoas com deficiência devido às condições insalubres em acampamentos superlotados.

A MSF exige que Israel restabeleça o acesso à água e que seus aliados pressionem pelo fim dos obstáculos à ajuda humanitária.

Habilidade de falar

Os médicos em Gaza ainda apontam que uma consequência profunda e invisível do genocídio é o crescimento alarmante de casos de crianças que perderam a capacidade de falar devido a traumas físicos ou psicológicos. Dentre os físicos estão traumatismos cranianos, danos neurológicos e lesões causadas por explosões ou quedas decorrentes de bombardeios.

Já os psicológicos incluem o “mutismo seletivo” ou “afonia histérica”, em que o corpo desliga a fala como uma resposta de sobrevivência (estado de congelamento) diante de um perigo extremo e constante.

À Al Jazeera, a psicoterapeuta Katrin Glatz Brubakk alerta que o trauma mantém o cérebro em “modo de sobrevivência”, suprimindo áreas responsáveis pelo aprendizado e regulação emocional. O silêncio é acompanhado pela interrupção do brincar e da interação, o que pode gerar traumas de guerra cognitivos e atrasos permanentes no desenvolvimento.

Médicos do Hospital Hamad em Gaza confirmam o aumento desses casos, descrevendo-os como um “sofrimento silencioso”. A escala do trauma na região é considerada sem precedentes por profissionais humanitários, devido à ausência total de locais seguros e à exposição repetida à violência extrema.

Eles afirmam que a perda da fala é a manifestação física de um colapso psicológico infantil em uma zona de conflito onde o sistema nervoso das crianças permanece em alerta máximo por tempo prolongado.

Editado por: Rafaella Coury

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