Ao menos 1 milhão de brasileiros que têm dívidas de até R$ 100 tiveram seus débitos automaticamente quitados desde o relançamento do programa Desenrola, medida do governo federal para diminuir o endividamento, um dos maiores problemas atuais da economia brasileira.
O programa atende pessoas com renda de até cinco salários mínimos e inclui dívidas contraídas até janeiro deste ano.
Para Ione Amorim, consultora do Instituto de Defesa de Consumidores (Idec) em serviços financeiros e superendividamento, a medida tem como objetivo de curto prazo trazer fôlego para que as famílias possam organizar minimamente as finanças pessoais. “Não vejo nesse momento como um alívio para a economia de modo geral, no sentido de as pessoas terem essa reestruturação e já poderem voltar ao mercado de crédito, que foi mais ou menos o previsto quando o primeiro Desenrola entrou em vigor em 2023”, pontua.
Mas o caráter das dívidas também mudou. Se antes a busca por crédito acontecia para compra de bens de segunda necessidade, atualmente famílias têm precisado recorrer a empréstimos para o básico, como comer, morar e pagar contas de água ou de energia elétrica.
A especialista afirma que é preciso compreender como se construiu o cenário de superendividamento que o brasileiro médio vive — e um dos motivos é o próprio custo de vida. “O salário mínimo de R$1.621 já não é suficiente para cobrir as necessidades básicas da população. Quando a gente fala de cesta básica, acesso à moradia, aluguel, prestação de imóvel popular, luz, água, telefone, internet, esses custos já praticamente consomem tudo. E aí vem o uso do crédito, e por isso ele não pode ser caro. Esse já é um dos problemas mais graves que nós temos”, avalia.
Amorim aponta que o programa age no sentido de reestruturar o crédito caro por conta das pesadas taxas de juros, que em muitos casos consomem 45% da renda. “Eu vejo o programa com entusiasmo, mas também com muitas observações que precisam ser feitas para que ele possa trazer um respiro temporário de forma que a pessoa consiga continuar minimamente vivendo. Ela não vai ter aumento na capacidade de consumo. A ideia não é essa. Não vejo essa motivação. Até porque quem está nesse patamar de endividamento não tem condições de consumir, mesmo com a situação reestruturada”, afirma.
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