PELA CIDADE BAIXA

No Pão dos Pobres, 1.170 crianças e adolescentes tentam reconstruir as suas vidas

Fundação, criada em 1895, tem história de superação e ainda se recupera da devastação da enchente de 2024

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A Fundação O Pão dos Pobres Santo Antônio existe desde 15 de agosto de 1895, quando foi fundada para amparar as viúvas e os filhos das vítimas da Revolução Federalista
A Fundação O Pão dos Pobres Santo Antônio existe desde 15 de agosto de 1895, quando foi fundada para amparar as viúvas e os filhos das vítimas da Revolução Federalista | Crédito: Rafa Dotti

Vitória quer ser juíza. Sonha com isso. Fala para todo o mundo que conhece e se esforça para chegar no seu objetivo. Enfrenta dificuldades, afinal o seu mundo é só de lutas e sofrimentos. Agora, ganhou a sua maior esperança: um magistrado prometeu dar o seu apoio na continuidade dos estudos se ela passar no exame do Enem (Exame Nacional do Ensino Médio é uma prova de admissão à educação superior). O seu grande objetivo de vida, que parecia impossível e até motivo de dúvidas por parte de seus colegas, ruma hoje para uma realidade palpável.

Um sonho, uma vida pela frente. Assim é a história da Fundação O Pão dos Pobres Santo Antônio desde 15 de agosto de 1895, quando foi fundada para amparar as viúvas e os filhos das vítimas da Revolução Federalista. Nestes quase 131 anos ajudou mais de 100 mil pessoas – bebês, crianças, adolescentes em situação de risco, pessoas em situação de rua, mulheres vítimas de violência. Pessoas que sofreram os mais diversos tipos de abusos, contrariedades, vulnerabilidades e descaminhos da vida.

“Somos um centro de proteção e promoção da vida”, afirma o gerente executivo João Rocha
“Somos um centro de proteção e promoção da vida”, afirma o gerente executivo João Rocha | Crédito: Rafa Dotti

Hoje, estão no ‘O Pão”, como é chamada carinhosamente a fundação por seus diretores e funcionários, 1.170 pessoas que estudam e buscam realizar sonhos, como Vitória. “Somos um centro de proteção e promoção da vida”, afirma o gerente executivo João Rocha, uma figura emblemática, carismática e protetora desta instituição social, a mais conhecida e, se pode dizer, ‘sem errar’, do estado. “Com gestão e governança, inovação e visibilidade, estamos sempre avançando e melhorando os atendimentos e cumprindo nossos objetivos”, diz ele.

Falou em Pão dos Pobres se falou em acolhimento, atenção, presente e futuro. Circulam na área da Fundação, diariamente, mais de 2 mil pessoas. São cerca de 300 funcionários. “Volta e meia encontro taxistas, eletricistas e outras pessoas que passaram pelo O Pão e afirmam que aquilo ali foi a salvação da vida deles, onde encontraram o seu destino, chegam a se emocionar e chorar”, diz João Rocha, também chamado de guardião das crianças.

A busca de uma vida digna e decente

O Pão dos Pobres vem superando desafios desde a sua criação em 1895
O Pão dos Pobres vem superando desafios desde a sua criação em 1895 | Crédito: Rafa Dotti

Do grupo todo de atendidos na organização, 80 moram ali mesmo na fundação, na rua da República, 801, Cidade Baixa. São crianças e até bebês vítimas de maus tratos, abandono ou encaminhadas pela Justiça para futura ou provável adoção. As outras vivem em casas de acolhimento espalhadas pela cidade ou em circunstâncias familiares.

No O Pão são servidas 57 mil refeições mensais, o que exige uma ginástica fantástica dos administradores para conseguir arroz, feijão, verduras, carnes, pães e outras coisas, afirma o gerente José Antônio Marcolan, da área de finanças e administração. O comando geral da organização social é dos Irmãos Lassalista desde 1916. São eles que indicam os diretores da instituição – atualmente Clóvis Trezzi e Flávio Azevedo, cargos indicados pelo Irmão Superior Provincial e nomeados pelo Arcebispo Metropolitano.

Enfrentou várias crises, enchentes, as mais sérias e graves em 1941 e 2024
Enfrentou várias crises, enchentes, as mais sérias e graves em 1941 e 2024 | Crédito: Rafa Dotti

O dinheiro para manter este verdadeiro ‘exército’ vem de várias frentes. Através de PPP (Parcerias Público Privadas), institutos sociais de grandes empresas, leis de incentivo fiscal, eventos, almoços, arrecadação individual, doações de pessoas físicas, participação em editais de projetos de organizações e cerca de 80 parceiras permanentes. 

O Pão vem superando desafios desde a sua criação em 1895. Sempre esteve perto do Guaíba. No início, bastava atravessar a rua. Hoje, está situado a mais de um quilômetro de distância com os frequentes avanços das políticas urbanas, empurrando as águas para mais longe do prédio da instituição. O terreno inicial estava localizado em territórios da população pobre e negra da cidade – o Areal da Baronesa. Enfrentou várias crises, enchentes, as mais sérias e graves em 1941 e 2024. No ano de 2003, o prédio atual foi tombado e inserido no livro Tombo do Município de Porto Alegre como Patrimônio Material da Cidade.

A enchente desanimadora de 2024

Em 2024, as águas chegaram a dois metros de altura, arrastando tudo que encontrava pela frente
Em 2024, as águas chegaram a dois metros de altura, arrastando tudo que encontrava pela frente | Crédito: Rafa Dotti

João Rocha conta que a enchente de 2024 chegou a desanimá-lo ao ver todos os estragos. As águas chegaram a dois metros de altura, arrastando tudo que encontrava pela frente. Do interior das suas instalações e dos espaços ali existentes foram retirados entulhos e lixo em 25 caminhões, com o material todo compactado. O prejuízo chegou a R$ 9 milhões, um dinheiro imaginário para a fundação.

Luta aqui, pede acolá, busca formas de apoio em uma cidade destroçada pelas águas, O Pão renasceu. Projetos de captação foram feitos e a ajuda foi chegando de todos os lados. Veio apoio até da Europa – pouco, mas veio.

“Na época das chuvas estávamos lançando a obra ‘Um livro, muitas histórias’, com relatos importantes e emocionantes das pessoas que aqui vivem ou viveram. Tínhamos recebido uma quantidade grande de livros e foi triste vê-los boiando na água. Perdemos tudo. Nosso arquivo de fotos, por exemplo, também foi quase todo arrasado. Tempos depois achamos fotos de Pelé e Getúlio Vargas, que em algum momento de suas trajetórias andaram visitando nossas instalações. Parte deste acervo está sendo recuperado por técnicos da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (Ufrgs)”, relembra João Rocha.

Ele diz que não perdia uma chance para angariar apoio e recursos. Em encontro casual em um jantar com Maria Helena Pereira Johannpeter, mulher do empresário Jorge Gerdau, ela perguntou se a fundação estava precisando de alguma coisa depois das enchentes. A resposta foi imediata, sem pensar muito: “Aço”, disse. Dias depois chegou ao O Pão R$ 1,8 milhão em aço.

No mezzanino funcionam vários cursos
No mezzanino funcionam vários cursos | Crédito: Rafa Dotti

Com este material, foi construído um mezzanino, um local onde funcionam hoje vários cursos. O mezzanino é um pavimento intermediário situado entre o piso térreo e o superior, caracterizado por ser aberto para o ambiente inferior, funcionando como uma sacada interna. As salas ali têm cheiro de novas, com material especial, bons móveis e dezenas e dezenas de alunos de vários cursos que encaminham profissões para o futuro – como corte e costura, embelezamento, eletricismo, marcenaria, setores automotivo e mecânico, cozinha, recuperação de computadores. Enfim, o total de cursos passa de 15. “A dedicação dos alunos impressiona”, garante João Rocha.

Sóbis construiu uma nova biblioteca

Biblioteca nova – a anterior foi devastada pela enchente de 2024 – hoje tem mais de 10 mil livros
Biblioteca nova – a anterior foi devastada pela enchente de 2024 – hoje tem mais de 10 mil livros | Crédito: Rafa Dotti

O apoio veio de várias frentes. Rafael Sóbis, ex-jogador do Inter e de tantos outros clubes, doou uma biblioteca nova – a anterior foi devastada – e que hoje tem mais de 10 mil livros. Dunga, ex-Inter e ex-técnico da seleção brasileira, ajudou a reconstruir o ginásio de esportes. D’Alessandro, do Inter, também ajudou muito na construção da quadra de esportes e mantém ali a sua ‘academia’ Lance de Craque, que ensina futebol a quem quer aprender. O Grêmio também destinou vários tipos de ajuda, através de seus jogadores e dirigentes.

Está nascendo, gradativamente, uma ‘hub’, um ponto central de conexão
Está nascendo, gradativamente, uma ‘hub’, um ponto central de conexão | Crédito: Rafa Dotti

Mesmo com tanta movimentação e recuperação, O Pão ainda não concluiu as reformas necessárias depois da enchente de 2024. “Ainda faltam uns 30 ou 35% para voltar plenamente ao que éramos antes das chuvas”, afirma o executivo. Agora, o que está nascendo ali, gradativamente, é uma ‘hub’, um ponto central de conexão, concentração ou distribuição que interliga vários elementos, pessoas ou sistemas, com o objetivo de facilitar a troca, reduzir distâncias e aumentar a eficiência. É um ‘núcleo’ estratégico em áreas como tecnologia, logística, negócios e inovação.

Estão no ‘O Pão”, como é chamada carinhosamente a fundação por seus diretores e funcionários, 1.170 pessoas que estudam e buscam realizar sonhos
Um grupo de pessoas cegas realizam cursos de consertos de computação | Crédito: Rafa Dotti

Para quem anda circulando por ali, chama a atenção um grupo de pessoas cegas, que realizam cursos de consertos de computação. Sabem manusear com determinação os aparelhos e aprendem as mais variadas linguagens. Muitos vêm de longe – como Nova Hartz, São Leopoldo, Viamão e vários pontos de Porto Alegre. Se viram sozinhas, não têm acompanhantes. Vão e voltam de ônibus, enfrentando, certamente, as mais complicadas barreiras.

Antônia, 17 anos, a mais jovem, diz que quer ser uma influenciadora, gosta de contar histórias, compor músicas. Valentina diz que é escritora e que já escreveu um romance, e pretende avançar sendo uma tiktoker. Rafael gosta de jogar futebol para cegos. Wellington afirma que é judoca. Todos deficientes visuais, mas todos unânimes em dizer: “Vemos as coisas do nosso jeito.”

Editado por: Katia Marko

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