O Brics enfrenta seu maior desafio político desde sua fundação em 2009. Nesse momento, dois países membros estão em guerra: Irã e Emirados Árabes Unidos. O primeiro se defendeu dos ataques criminosos de EUA e Israel, revidando contra bases e ativos estadunidenses presentes no segundo. Até agora, o Brics não emitiu nenhum comunicado sobre uma guerra que já arrisca mergulhar o mundo na maior crise energética desde os anos 70. Diante desse impasse, sua mais importante instituição — o Novo Banco de Desenvolvimento (NBD), o Banco do Brics — abriu hoje sua 11ª reunião anual em Moscou. A abertura contou com dois dos nomes mais relevantes do debate sobre a nova ordem econômica mundial: o economista estadunidense Jeffrey Sachs (online) e o vice-primeiro-ministro russo Alexei Overchuk. Os dois discursos de abertura, com perspectivas distintas, mas convergentes em pontos centrais, traçaram um diagnóstico comum: o mundo atravessa transformações profundas e o NDB precisa assumir um papel muito mais ousado em sua segunda década de existência.
Financiamento público como instrumento estratégico
Sachs abriu sua fala identificando três grandes transformações em curso no mundo contemporâneo. A primeira é geopolítica: a hegemonia mundial está se deslocando do Ocidente para o Oriente. A segunda é ecológica: 225 anos de industrialização colocaram o meio ambiente em risco, mas a tecnologia verde representa uma esperança concreta. A terceira é tecnológica: a revolução da inteligência artificial (IA), em vez de ser empregada para fins militares — caminho que os EUA escolheram —, deveria ser usada para melhorar o padrão de vida da humanidade, em áreas como educação, saúde e serviços públicos.
Diante dessas transformações, Sachs foi categórico: “O Ocidente continua a se agarrar a uma posição de poder que não possui mais — e que não merece. Isso fica claro nos casos da guerra na Ucrânia e no Irã, e no que aconteceu na Venezuela. É preciso acabar com a Otan [Organização do Tratado do Atlântico Norte] e com todas as guerras. Os EUA e a UE [União Europeia] não podem mais dominar o mundo.”
Para Sachs, diante dos desafios das próximas décadas, será fundamental expandir o financiamento público para os bens comuns, pesquisa e desenvolvimento, e grandes projetos de infraestrutura — energia, água, transporte, conectividade digital, entre outros. Embora reconheça a importância das forças de mercado, Sachs argumentou que o financiamento público é insubstituível para o planejamento de longo prazo. Nesse contexto, os Bancos Multilaterais de Desenvolvimento (BMDs) terão papel fundamental, e as regiões precisam atuar como blocos, com países vizinhos trabalhando de forma integrada.
A posição representa uma virada significativa para quem acompanha a trajetória intelectual de Sachs. Nos anos 1990, ele foi um dos principais defensores do receituário neoliberal, incluindo as terapias de choque aplicadas na Rússia e na América Latina. Atualmente, defende o protagonismo do Estado como agente central do financiamento estratégico e delimita o papel do mercado à sua função complementar.
“O NDB deve ter um papel gigantesco nessa demanda por financiamento público. E a enorme poupança chinesa também deveria ser usada para apoiar esse esforço, canalizada pelo NDB”, sustentou Sachs. Tal proposta vai na contramão das receitas de Washington para a China – sabiamente recusadas por Pequim -, que sugerem que os chineses deveriam poupar menos, diminuir a fatia de investimento na economia e aumentar a fatia do consumo.

Expansão urbana, África e o dólar como arma
Sachs elencou dois exemplos concretos dos desafios que o NDB precisa enfrentar. O primeiro é o da urbanização: a população urbana do planeta deve crescer em dois bilhões de pessoas até 2050, o que demandará volumes enormes de financiamento para infraestrutura urbana. O segundo é o da África, que deve concentrar 25% da população mundial até 2050 e deveria ser uma das prioridades do banco, em articulação com a União Africana. Em ambos os casos, o financiamento para novas tecnologias verdes será crucial.
Por fim, Sachs defendeu que o NDB ajude a criar sistemas de pagamentos alternativos ao dólar: “O dólar foi transformado pelos EUA em uma arma política nos últimos 30 anos para manter o seu domínio sobre o mundo. Reservas de outros países são confiscadas — como as da Venezuela e da Rússia. O FMI [Fundo Monetário Internacional] veta empréstimos a países que desagradam a Washington. Precisamos de alternativas.”
Infelizmente, nenhuma das mesas da 11ª reunião anual do NDB vá tratar especificamente desse tema, um dos mais estratégicos para o futuro do banco e do Sul Global.
Overchuk: soberania tecnológica e alternativas financeiras
O vice-primeiro-ministro russo Alexei Overchuk abriu sua fala destacando o traço mais distintivo do Brics: a tomada de decisões baseada em respeito mútuo e consenso, independentemente do tamanho dos países membros.
Em seguida, foi direto ao tema central do encontro. “A IA se tornou estratégica e requer um uso intensivo de energia. Mas quantos países nessa sala produzem seus próprios chips? Quantos são capazes de gerenciar seus próprios dados?”, questionou, diante de uma plateia em que a maioria dos países representados depende de tecnologia estrangeira para ambos.
A soberania tecnológica e seu financiamento — especialmente no campo dos semicondutores e da infraestrutura de dados — emerge como o desafio central desta edição do encontro do NDB. A pergunta de Overchuk expõe a vulnerabilidade estrutural da maioria dos países do Sul Global nessa área.
Overchuk recorreu à experiência da Rússia após as sanções ocidentais para ilustrar a importância de construir alternativas ao sistema financeiro internacional com antecedência. “Se um país é excluído do sistema financeiro internacional, como sobreviver? Fizeram isso com a Rússia, tentaram nos enfraquecer, mas nós estávamos preparados. Quando Visa e Mastercard foram embora, nós já tínhamos construído nosso próprio sistema alternativo. Por isso é fundamental criar alternativas ao sistema financeiro”, afirmou.
O exemplo se desdobra em números concretos: o comércio entre Rússia e China atingiu o equivalente a US$ 240 bilhões, com 98% das transações realizadas em rublos e RMBs. O comércio com os vizinhos mais próximos da Rússia é feito entre 93% e 95% em moedas locais.
Para que esse modelo se expanda, Overchuk defendeu a construção de conectividade financeira e logística. Um exemplo é o Corredor Internacional de Transporte Norte-Sul — que liga São Petersburgo (Rússia) a Mumbai (Índia), passando pelo Irã — uma alternativa ao Canal de Suez, controlado pelo Ocidente, com investimentos russos no Irã e na Ásia Central. “O centro da economia global está se deslocando para o Sul Global. Precisamos conectar o norte da Eurásia com o Sul Global, e o NDB deveria ter isso como uma de suas prioridades”, afirmou. Assim como Sachs, Overchuk conclamou o banco a assumir a expansão da conectividade financeira e logística como ferramentas de integração do Sul Global — alternativas à infraestrutura hoje hegemonizada pelo Ocidente.
Seguros, agências de rating e a batalha de ideias
Overchuk também defendeu a criação de um sistema próprio de seguros para os países do Brics, não como substituto ao sistema existente, mas como alternativa de maior sustentabilidade. A proposta remete à negociação em curso no bloco sobre a criação de uma resseguradora própria.
As resseguradoras — que são as seguradoras das seguradoras — estão concentradas sobretudo na Europa e nos EUA e se tornaram instrumentos de cumprimento das sanções ocidentais. Um exemplo: resseguradoras ocidentais se recusam a cobrir integralmente os petroleiros que exportam petróleo russo acima do teto de preço imposto pela Otan. Sem resseguro, o comércio trava.
Overchuk defendeu ainda a criação de novas agências de classificação de risco. A Rússia criou uma alternativa nacional há cinco anos, mas é necessário expandir a iniciativa no âmbito do Brics. As agências de rating existentes — concentradas nos EUA — definem a classificação de bancos como o NDB e determinam sua capacidade de captação de recursos e o custo dessa captação. A presença de países sancionados pelo Ocidente, como a Rússia, ou de países menos desenvolvidos, como Bangladesh, rebaixa a avaliação do banco, o que encarece e dificulta o financiamento. Atender justamente esses países, no entanto, é parte essencial da missão do NDB.
Por fim, Overchuk propôs que o NDB passe a produzir análises das principais tendências da economia mundial, oferecendo subsídios para posições alternativas às hegemônicas. A proposta tem sentido estratégico: o FMI e o Banco Mundial gastam centenas de milhões de dólares por ano em departamentos de pesquisa que produzem relatórios determinados pelos interesses do Ocidente e que pautam o debate econômico global. O Brics precisa ser capaz de produzir uma visão alternativa a partir do Sul Global — uma batalha de ideias sobre economia, desenvolvimento e os grandes desafios da humanidade, da crise ecológica à desigualdade.
Para encerrar, Overchuk fez um apelo: “o Conselho de Governadores tem de tomar decisões mais ousadas, baseadas em opiniões bem informadas, especialmente em sua segunda década de existência.”
A ausência de vários ministros de Finanças dos países do Brics — os governadores do conselho — na 11ª reunião não passou despercebida. Somente os ministros da Rússia, Anton Siluanov, e África do Sul, Enoch Gondogwana, estiveram presentes. O ministro brasileiro Dario Durigan não pôde comparecer em razão do fechamento temporário dos aeroportos de Moscou, provavelmente por risco de ataques de drones ucranianos. Mas nenhum outro ministro esteve presente. O fato levanta uma questão inevitável: qual é o grau de prioridade que os governos dos países membros estão dando ao banco?
