O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, encerrou sua visita à China com uma reunião com o presidente chinês Xi Jinping em Zhongnanhai, sede central do Partido Comunista da China e do Conselho de Estado, em Pequim. Ao longo dos dois dias, ambos os lados descreveram o encontro como positivo.
Em coletiva de encerramento, Trump afirmou que os países chegaram a acordos comerciais “fantásticos” e “bons para os dois países”. Já o porta-voz da chancelaria chinesa, Guo Jiakun, disse que houve consenso em manter a estabilidade nas relações econômicas e comerciais, em coletiva nesta sexta-feira (15).
Não houve anúncios de acordos ou compromissos de nenhum dos lados, a não ser pela suposta compra de 200 aviões da Boeing anunciada por Trump, por parte da China (ver abaixo).
Na visita anterior de Trump à China, em novembro de 2017, a Casa Branca havia divulgado no mesmo dia do encerramento uma nota oficial listando acordos bilaterais nas áreas de segurança, comércio, saúde, antinarcóticos e cooperação militar, além de anunciar que empresas dos dois países teriam assinado contratos de comércio e investimento avaliados em mais de 250 bilhões de dólares. Desta vez, nenhum comunicado equivalente foi publicado pelo lado estadunidense. Trump também não fez qualquer anúncio em sua rede social Truth Social ao fim da visita, silêncio que contrasta com seu uso habitual da plataforma para proclamar vitórias diplomáticas.
O comunicado oficial divulgado pela parte chinesa descreveu um clima de cordialidade incomum para o nível de tensão acumulado entre os dois países.
Antes da chegada de Trump a Pequim, a Embaixada da China nos Estados Unidos publicou uma postagem no X enumerando quatro pontos que classificou como linhas vermelhas nas relações bilaterais que não devem ser questionadas: a questão de Taiwan, democracia e direitos humanos, sistemas políticos e o direito ao desenvolvimento da China. Já durante o encontro, o comunicado oficial chinês registrou a posição de Xi sobre Taiwan em termos mais gerais, advertindo que, se a questão não for tratada adequadamente, a relação entre os dois países pode ser colocada em grande risco.
A derrota dos EUA em sua estratégia de guerra comercial
Em entrevista ao Brasil de Fato, o jornalista e analista geopolítico estadunidense Ben Norton afirma que o mais importante a reter da visita é que ela confirma quem saiu derrotado da ofensiva tarifária do governo estadunidense. “O ponto central desta viagem é a confirmação de que os Estados Unidos perderam a guerra comercial que lançaram contra a China”, afirma Norton.
Norton lembra que Trump chegou a colocar tarifas de 145% sobre produtos chineses, o equivalente a um embargo comercial. A China respondeu com tarifas recíprocas no mesmo nível e restringiu a exportação de terras raras e minerais críticos e tecnologias para processá-los, mostrando uma capacidade de pressão que o governo estadunidense subestimou.
O secretário do Tesouro Scott Bessent chegou a declarar em rede de televisão que os Estados Unidos tinham todas as cartas e que a China jogava com uma mão perdedora. “Na realidade, foi o oposto. A China tinha muito mais alavancagem porque passou a última década se preparando para uma nova escalada da guerra comercial”, diz o jornalista.
Norton está entre os estadunidenses que criticam a delegação que compôs a viagem de Trump: “Mais de uma dezena de CEOs, entre eles Elon Musk, o homem mais rico do mundo e maior doador da campanha presidencial de Trump; Jensen Huang, da Nvidia, que perdeu praticamente todo o mercado chinês de chips avançados; Tim Cook, da Apple, cuja cadeia de produção ainda é fortemente dependente da China; e os chefes da BlackRock e da Blackstone, as duas maiores gestoras de ativos do mundo”.
“Trump não veio à China para fazer um acordo que beneficie o povo estadunidense. Veio para beneficiar bilionários e grandes corporações, que são seus verdadeiros constituintes. Por isso trouxe uma dúzia de CEOs, incluindo algumas das pessoas mais ricas do mundo”, afirma o analista.
Sobre o impacto nos EUA, Norton aponta que Trump atravessa seu pior momento de popularidade, com pesquisas mostrando aprovação de apenas 34%, e relaciona esse dado diretamente com a política econômica do governo. “Trump cortou impostos para os ricos e para as corporações e, na prática, transferiu essa carga para os pobres e a classe trabalhadora. As tarifas são ataques ao consumo, e a classe trabalhadora gasta uma parcela muito maior do seu salário em bens de consumo básicos, muitos deles importados, porque a economia estadunidense foi amplamente desindustrializada. Todas as políticas de Trump têm servido ao capital à custa do trabalho”, diz Norton.
Uma posição negociadora de Trump fragilizada
O professor Shen Yi, da Escola de Relações Internacionais e Assuntos Públicos da Universidade de Fudan, avalia que Trump chegou a Pequim em posição enfraquecida, longe do negociador que pretendia ser. O plano A de Trump, segundo ele, era acumular alavancagem nas frentes da Venezuela e do Irã e chegar a Pequim e anunciar uma grande vitória econômica. “Mas agora estamos no plano B: ele chegou com poucas cartas na mão, mais próximo de pedir favores do que de impor condições”, afirma Shen Yi em entrevista feita em parceria com a China Academy.
Shen Yi diz que uma moeda de troca que Trump poderia usar poderia ser a questão dos semicondutores: “Por que a China o ajudaria? Que cartas ele tem para trocar por um favor desse? Ele pode dizer: ‘tenho chips, posso vender chips avançados’. Mas o cenário mudou. Não temos mais tanto interesse nos chips H200, porque eles não oferecem nenhuma vantagem técnica real em relação aos chips da Huawei que já temos. Só seria aceitável se os Estados Unidos concordassem em vender os modelos mais avançados, como o B200 ou o B300”, diz o professor.
Shen Yi também analisa como a China define sucesso nesse tipo de encontro, em contraste com a abordagem estadunidense. Enquanto os Estados Unidos medem resultados em termos microeconômicos, quantos produtos foram vendidos e quantos compromissos cumpridos, a China foca na construção de uma estrutura estratégica mais ampla. “Para nós, o mais importante é até que ponto conseguimos persuadir os Estados Unidos a aceitar uma nova estrutura geral para regular e administrar a relação sino-estadunidense de forma estratégica”, explica. Nesse sentido, o professor considera que a China obteve um resultado relevante: o reconhecimento, por parte de Trump, de uma visão de relação bilateral baseada na estabilidade estratégica construtiva, o que, segundo ele, representa um elemento favorável aos interesses chineses de longo prazo.
Desconfiança estrutural
Para Ben Norton, independentemente dos resultados imediatos, a visita não altera a trajetória de fundo das relações sino-estadunidenses. “A China entende que não se pode confiar no governo estadunidense. Ele descumpre praticamente todos os acordos que assina. Donald Trump, em particular, é conhecido ao longo de toda sua carreira por mentir e enganar. Celebrou inúmeros acordos que depois violou, e foi processado centenas de vezes por descumpri-los. A China sabe que, no fim das contas, Trump provavelmente vai violar qualquer acordo se isso lhe for conveniente”, avalia Norton.
O jornalista estadunidense também rejeita a narrativa de que a visita representa um marco histórico, como Trump insistiu em chamar. “Não acho que seja tão significativo. Reduz um pouco as tensões, mas não espero uma melhora expressiva nas relações. A realidade é que os Estados Unidos buscam hegemonia, dominância econômica, política, militar e tecnológica em escala global. Enquanto essas políticas não forem revertidas, e não vejo Trump revertendo-as, vejo-as continuando tanto com republicanos quanto com democratas, acho muito improvável que as relações melhorem de forma significativa”, conclui.
Boeing: Trump anunciou, China não confirmou
Um dos poucos anúncios com número concreto veio de Trump, que afirmou que a China concordou em comprar 200 aviões da Boeing, com possibilidade de chegar a 750 aeronaves. “O acordo inclui aproximadamente 200 aviões e uma promessa de até 750 se fizerem um bom trabalho”, disse Trump a jornalistas na viagem de volta no Air Force One.
Consultado na coletiva desta sexta-feira sobre a informação da suposta compra, o porta-voz Guo Jiakun não respondeu e se limitou a afirmar que as relações econômicas e comerciais entre China e Estados Unidos são de natureza mutuamente benéfica e que ambos os lados precisam implementar os entendimentos alcançados entre os dois chefes de Estado para injetar mais estabilidade na cooperação bilateral.
Na véspera da reunião Trump-Xi, Ren Hongbin, presidente do Conselho Chinês para a Promoção do Comércio Internacional, se reuniu em Pequim com Brendan Nelson, presidente da Boeing Global. Ren expressou esperança de que os negócios da Boeing na China continuem crescendo; Nelson destacou a importância que a empresa atribui ao mercado chinês e lembrou que a parceria entre a Boeing e a China já dura 54 anos. A empresa estava entre as que acompanharam Trump na visita.
Outro tema que ficou em aberto foi o das sanções estadunidenses contra empresas chinesas que compram petróleo iraniano. Nas semanas anteriores à cúpula, Washington havia sancionado diversas refinarias e operadores portuários chineses acusados de processar petróleo bruto iraniano. Também a bordo do Air Force One, Trump foi questionado por jornalistas sobre a possibilidade de levantar essas sanções. “Bem, conversamos sobre isso, e vou tomar uma decisão nos próximos dias”, respondeu.
