Cruzamos os caminhos sinuosos das montanhas, onde o ar rarefeito dos Andes venezuelanos desenha o horizonte, até alcançar Trujillo, a terra onde o café dita o ritmo do coração e da economia.
Ali, no centro de produção agrourbana comunal de San Rafael de Carvajal, fomos recebidos pela Brigada Internacionalista Hugo Chávez.
Esse espaço, mais que um campo de cultivo, garante o alimento e a dignidade às comunas que o circundam, fazendo brotar hortaliças e frutas do solo generoso.
O convívio com os comuneiros e comuneiras trujillanos deixa marcas profundas nos brigadistas brasileiros. Entre um riso e outro, a emoção transborda ao testemunhar a força de um povo que reconstrói seu destino.
“A Venezuela, para mim, é um país sem preconceito. O que eu tenho, eu divido, e o que eles têm, também dividem. Eu me sinto em casa neste país. Levo apenas coisas boas. Não é o que a outra mídia fala aqui. É um país onde todos trabalham, têm projetos de vida e futuro para as crianças”, afirma Antônio de Jesus, conhecido como Tonhão, do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) de Sergipe.
Trujillo caminha para ser o primeiro estado 100% comunal da Venezuela, um feito que ecoa na soberania de suas colheitas: o país já não depende da importação de café e vê o cacau florescer com vigor nas terras mais baixas.
Após 20 dias de trabalho intenso nas comunas vizinhas, os brigadistas se reúnem para transformar o suor em memória, sistematizando coletivamente cada aprendizado vivido.
“Fizemos uma limpeza no espaço e, no segundo dia, fomos conhecer as comunas vizinhas, onde pudemos identificar que existem muitas comunas urbanas, rurais e suburbanas. Também demos continuidade à reforma da quadra que estava incompleta. Os companheiros do Brasil se juntaram aos venezuelanos e terminamos de fazer a parte de ferragem e preenchemos a concretagem das colunas. Foi bem produtiva a parte de trabalho e ações feitas aqui no estado de Trujillo”, conta Tonhão.
Daniángelis Pérez, militante da União Comuneira, se integrou aos internacionalistas brasileiros no recorrido pelas comunas andinas e conta como as diferenças culturais enriqueceram a convivência entre o grupo.
“Para nós, como brigadistas e militantes de diferentes organizações, têm sido dias maravilhosos, repletos de conhecimentos e intercâmbio. Soubemos conduzir a organização e a metodologia de ambos os países. Tanto os companheiros do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra quanto os do bloco de comunas e militantes da União Comuna souberam construir. Em alguns momentos tivemos choques culturais, mas trocamos experiências sobre alimentação, cultura, música, linguagem e conhecimentos”, relata a comuneira.
“Através dessa organização em nossas comunas e espaços, conseguimos construir sonhos coletivos e avançar. Mostramos como nossas assembleias são instâncias máximas, onde surgem ideias e sonhos coletivos. Presenciamos a experiência de luta de ambas as organizações, pois também reconhecemos o legado e a luta dos companheiros dos movimentos do Brasil, como o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra, o Levante e o Mãos Solidárias”, disse a comuneira, mencionando alguns dos movimentos que compõem a Brigada Internacionalista Hugo Chávez.
Para a militante da União Comuneira, a presença da brigada na Venezuela é uma excelente oportunidade para romper com o bloqueio midiático e a desinformação sobre a realidade venezuelana.
“Nós agradecemos que eles estejam aqui conosco porque não é fácil. Os meios de comunicação diziam que vivíamos uma crise e uma desestabilização que acabaria com nossa organização e luta. Mas quando eles estão aqui e vivem a experiência, percebem que não é assim. É importante para nós que eles levem essa voz para lá, pois puderam evidenciar que seguimos de pé e em luta diária, mantendo a paz e a estabilidade para o nosso povo”, afirma.
“A revolução não se tratava apenas do nosso presidente Maduro e de Cilia Flores. Não era como eles pensavam, que ao levá-los isso acabaria. É um povo organizado. Não se trata de uma pessoa, mas de toda a luta de um coletivo imenso, de milhões de pessoas que saem todos os dias para manter a paz e a tranquilidade da nossa Venezuela”, continua.
Enquanto a noite caía, a mística e a celebração envolveram o ambiente. Ao amanhecer, ganhamos novamente a estrada. O destino é o estado de Lara, berço do projeto comunal venezuelano e morada de comunas emblemáticas. Seguimos em direção à terra do cuatro, do joropo, do folclore, onde a música e a arte se entrelaçam com o orgulho indomável do povo que dá vida aos campos da Venezuela.
