Cerca de mil pessoas participaram, no domingo (24), de um ato pelo fim da escala 6×1 no Parque da Redenção, em Porto Alegre. Convocada pela Central Única dos Trabalhadores do RS (CUT/RS), pela Central dos Trabalhadores e Trabalhadoras do Brasil no RS (CTB/RS) e por movimentos sociais, a mobilização teve início às 10h, no Monumento ao Expedicionário, conhecido como Arco da Redenção, e terminou com caminhada pela rua José Bonifácio, onde ocorre o Brique da Redenção.
A manifestação em Porto Alegre integrou uma mobilização nacional pelo fim da escala 6×1 e pela redução da jornada sem redução salarial, com atos convocados por centrais sindicais, sindicatos e movimentos populares em diversas cidades. A pressão ocorre em meio à tramitação das propostas na Câmara dos Deputados, com previsão de apresentação de relatório e votação na comissão especial antes de uma possível análise em Plenário.

Semana decisiva
O presidente da CUT/RS, Amarildo Cenci, afirmou que a mobilização fez parte de um dia nacional de luta e de uma semana decisiva para o avanço da pauta. Segundo Cenci, centrais sindicais, movimentos sociais, organizações populares e partidos defendem que a redução da jornada seja aprovada sem adiamentos.“Nós queremos já. Não queremos para 2036. Vamos seguir durante a semana nas fábricas, nas ruas e em Brasília para alcançar uma vitória espetacular para a classe trabalhadora brasileira”, afirmou.
O presidente da CTB/RS, Rodrigo Callais, afirmou que a defesa do fim da escala 6×1 é uma pauta histórica das centrais sindicais, mas ganhou força nos últimos tempos, especialmente entre a juventude trabalhadora. Callais também criticou propostas de transição ou compensação a empresários. “Na reforma trabalhista de 2017, mais de 100 direitos da classe trabalhadora foram retirados e não se discutiu nenhum tipo de compensação ou transição. Não é justo agora, quando a classe trabalhadora pode ter essa conquista, proporem dez anos de transição. A gente quer o fim da escala 6×1 e a redução da jornada de trabalho imediatamente”, afirmou.
Juventude e territórios
A dirigente do Levante Popular da Juventude Juliana Bergmann relacionou a pauta à realidade dos jovens trabalhadores e criticou a resistência no Congresso Nacional à redução da jornada. Segundo Bergmann, a escala 6×1 impede o acesso ao estudo, ao lazer, à cultura e à convivência familiar. “Nós estamos aqui para defender o fim da 6×1, conquistar a 5×2 e garantir mais direitos para a classe trabalhadora. Para a juventude, é poder estudar, cuidar da saúde, cuidar da família e viver o que é ser jovem no Brasil hoje”, afirmou.

Brunno Mattos, da União das Associações de Moradores de Porto Alegre (Uampa), afirmou que a campanha pelo fim da escala 6×1 precisa chegar aos territórios e às vilas, onde vivem os trabalhadores depois da jornada. Segundo Mattos, é preciso enfrentar o argumento de que a redução da jornada poderia prejudicar a economia. “Basta dessa escala que não deixa o nosso povo trabalhador viver. Basta dessa escala que não apresenta perspectiva para a nossa juventude. Quem quer que o pai e a mãe de família tenham tempo com os filhos somos nós. O nosso povo precisa ter direito a viver”, afirmou.
Pressão no Congresso
Em discurso, o deputado federal Paulo Pimenta (PT/RS) lembrou que, na Assembleia Nacional Constituinte de 1988, os trabalhadores conquistaram a redução da jornada de trabalho de 48 para 44 horas semanais. Segundo Pimenta, a semana atual poderá se tornar histórica com a aprovação da redução para 40 horas.

Para Pimenta, as mulheres estão entre as principais afetadas pela escala 6×1, por receberem salários menores e ocuparem algumas das funções mais pesadas. Muitas, disse, saem de casa antes de os filhos acordarem e retornam quando eles já estão dormindo. “Nunca têm a oportunidade de visitar a escola dos filhos. Nunca podem acompanhar um filho ou uma filha numa consulta numa unidade de saúde.” O domingo, acrescentou, acaba sendo usado para limpar a casa e cuidar da família.
O deputado também defendeu vigilância da esquerda em todo o país durante a semana de votação. “Temos que derrotar estas emendas vergonhosas, como a que quer determinar que a escala cinco por dois só entre em vigor daqui a dez anos, depois de atender uma lista de exigências. Iremos ao presidente do Senado solicitar que Paulo Paim seja o relator da PEC 8/2025, que reduz a jornada de trabalho, e dê agilidade para votarmos antes da eleição”, disse.
Autora de uma das emendas em discussão, a deputada federal Daiana Santos (PCdoB/RS) afirmou que o que está em debate é a dignidade do povo. “Serão beneficiadas diretamente 37 milhões de pessoas com o fim dessa escala seis por um. Este é um compromisso que reafirmo. Apresentei este projeto, que é a maior parte do que está no relatório: das 40 horas, das duas folgas, sem nenhuma redução nos salários dos trabalhadores e trabalhadoras”, declarou.

Santos também relacionou a pauta à realidade de trabalhadores do comércio. “Por muito tempo trabalhei no comércio, nas ruas aqui em Porto Alegre. É por isso que reafirmo meu compromisso, colocando como centralidade a qualidade de vida do povo brasileiro. Precisamos manter a vigilância para pressionar os covardes que apresentaram estas emendas”, concluiu, em referência às propostas que adiam a redução da jornada.
A deputada federal Fernanda Melchionna (Psol/RS) afirmou que esta será uma semana decisiva para a tramitação da proposta. “Sabemos que há uma articulação da extrema direita para que esta PEC não chegue ao plenário. Eles não querem votar porque é um ano eleitoral e precisam dos votos do povo para se eleger. Não tendo condição de votar contra, articularam esta emenda absurda, que propõe 52 horas semanais e uma transição de dez anos”, criticou.

Segundo Melchionna, a proposta de transição busca alterar a correlação de forças para, mais adiante, revogar o fim da escala. A deputada citou ainda a repercussão negativa contra a emenda assinada pelo deputado federal Marcel van Hattem (Novo). “A mobilização dos trabalhadores foi tão forte que deputados que haviam apoiado começaram a retirar as assinaturas. Agora querem negociar a transição. Nós queremos 40 horas já. A redução da jornada sem redução de salários é uma vitória muito importante. Às vezes, a história anda rápido. Serão três dias”, afirmou.
