Nova Ordem Global

Visita do presidente da Sérvia a Pequim reforça influência da China no mundo multipolar

Em encontro entre os chefes de Estado Xi Jinping e Aleksandar Vučić, foram assinados mais de 20 documentos de cooperação

No audio source provided.
Os presidentes Xi Jinping e Aleksandar Vučić participaram de uma cerimônia de assinatura de documentos de cooperação após reunião no Grande Salão do Povo, em Pequim.
Os presidentes Xi Jinping e Aleksandar Vučić participaram de uma cerimônia de assinatura de documentos de cooperação após reunião no Grande Salão do Povo, em Pequim. | Crédito: Xinhua/Xie Huanchi

A China recebe nesta semana o presidente da Sérvia, Aleksandar Vučić, em uma visita de Estado que começou no dia 24 e irá até 28 de maio de 2026, em Pequim. Embora seja a primeira vez que o líder sérvio participa desse nível de protocolo oficial no país, ele já realizou outras viagens à China em anos anteriores, em diferentes formatos diplomáticos.

A visita ocorre em um momento de intensificação da diplomacia chinesa e de reconfiguração das dinâmicas do sistema internacional. Nesse mesmo contexto recente, o presidente chinês Xi Jinping manteve encontros de alto nível com diferentes lideranças internacionais, incluindo os presidentes Vladimir Putin e Donald Trump, em agendas separadas que refletem a disputa mais ampla por influência e o redesenho das relações de poder globais.

Comunidade de futuro compartilhado

O ponto central da agenda ocorreu em 25 de maio de 2026, no Grande Salão do Povo, em Pequim. Xi Jinping recebeu Vučić em cerimônia oficial de Estado, com honras militares, execução dos hinos nacionais, inspeção de tropas e jantar oficial oferecido à delegação sérvia, acompanhado pela primeira-dama chinesa Peng Liyuan.

Durante o encontro, Xi afirmou que a relação entre China e Sérvia avança para uma nova etapa sob o conceito de “comunidade de futuro compartilhado na nova era”, destacando o aprofundamento da confiança política e os resultados concretos da cooperação bilateral nos últimos anos.

O líder chinês defendeu a ampliação da cooperação no âmbito da Iniciativa do Cinturão e Rota, com foco em infraestrutura, energia, transporte e desenvolvimento industrial. Também apontou a expansão para áreas estratégicas como inteligência artificial, economia digital, energia verde e manufatura avançada, além de intercâmbios culturais, educacionais e esportivos.

Do lado sérvio, Vučić destacou a China como parceiro central de desenvolvimento e reforçou o papel de empresas chinesas em projetos de infraestrutura na Sérvia. O presidente sérvio também indicou interesse em ampliar a cooperação em fóruns multilaterais.

Ao final da reunião, foram assinados mais de 20 documentos de cooperação, abrangendo áreas políticas, econômicas, tecnológicas, científicas, educacionais e culturais. Os dois governos também divulgaram dois comunicados conjuntos, um sobre a parceria estratégica e outro sobre a implementação das chamadas “quatro iniciativas globais” da China.

Capital chinês e reconfiguração dos Bálcãs

A Sérvia consolidou-se nos últimos anos como um dos principais pontos de entrada do capital chinês na Europa fora da União Europeia. Os investimentos se concentram sobretudo em mineração, siderurgia, energia e infraestrutura, com impactos diretos na reorganização econômica do país e na sua inserção regional.
Entre os projetos mais simbólicos está o corredor ferroviário Budapeste–Belgrado, considerado um eixo estratégico da Iniciativa do Cinturão e Rota nos Bálcãs e peça-chave na conectividade entre Europa Central e Sudeste Europeu.

O comércio bilateral entre China e Sérvia alcançou cerca de US$ 6,49 bilhões em 2025, equivalente a aproximadamente R$ 32,5 bilhões, segundo dados oficiais. O fluxo revela uma assimetria estrutural, com predominância de exportações industriais chinesas e importações sérvias concentradas em matérias-primas.

No plano geopolítico, a posição da Sérvia segue marcada por um equilíbrio delicado. O país mantém sua candidatura à União Europeia, ao mesmo tempo em que amplia relações econômicas com a China e preserva vínculos históricos com a Rússia, em uma estratégia de diversificação de parcerias.

Esse posicionamento é observado com atenção dentro da União Europeia, onde cresce o debate sobre autonomia estratégica, dependência de investimentos externos e o avanço da presença chinesa em setores considerados sensíveis no continente europeu.

A aproximação sino-sérvia também carrega um componente histórico. Pequim mantém posição crítica à intervenção da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) na Iugoslávia em 1999, episódio marcado pelo bombardeio da embaixada chinesa em Belgrado, um elemento ainda presente na memória diplomática bilateral e frequentemente mobilizado como base simbólica da relação política atual.

A visita de Vučić se insere, assim, em um movimento mais amplo de reposicionamento diplomático de Pequim, que busca expandir sua rede de parcerias em meio à intensificação das disputas globais por influência econômica, tecnológica e política.

Nesse contexto, a China defende uma ordem internacional baseada em multipolaridade e maior equilíbrio na governança global, enquanto países de médio porte, como a Sérvia, ampliam suas estratégias de autonomia e inserção em diferentes blocos de poder.

O conjunto dessas dinâmicas reflete um processo mais amplo de transformação do sistema internacional, marcado pela consolidação de múltiplos centros de poder e pela crescente disputa por influência global.

Editado por: Luís Indriunas

|

Newsletter