PELA CIDADE BAIXA

Museu de Porto Alegre se recupera das águas de 2024 e voltará a encantar visitantes, historiadores e pesquisadores

Prédio histórico no Solar Lopo Gonçalves se recupera para preservar a vida da Capital nos últimos séculos

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O sobrado de porão alto, representativo do estilo de transição entre a arquitetura colonial e a arquitetura neoclássica, voltará a ser um espaço vivo e dinâmico
O sobrado de porão alto, representativo do estilo de transição entre a arquitetura colonial e a arquitetura neoclássica, voltará a ser um espaço vivo e dinâmico | Crédito: Clarissa Londero

Um vagão dos bondes da Carris* está ‘enjaulado’ atrás de umas árvores do pátio do Museu de Porto Alegre Joaquim José Felizardo, situado no Solar Lopo Gonçalves na rua João Alfredo, 582, bairro Cidade Baixa. Poderá se transformar no futuro em acervo da casa. O terreno é grande. Ali passeiam cães, devidamente autorizados pela direção, mas com toda a higiene possível. Há árvores frutíferas na área, bancos para relaxar, uma escultura de Vasco Prado chamada “Égua bebendo água”, de 1994, em uma pequena fonte ao lado do solar.

Um vagão dos bondes da Carris poderá se transformar no futuro em acervo da casa
Um vagão dos bondes da Carris poderá se transformar no futuro em acervo da casa | Crédito: Clarissa Londero

A visão de quem vai ao endereço é a imponência do prédio, construído entre 1845 e 1855, pela família portuguesa Gonçalves Bastos, numa chácara com fundos para a antiga rua da Margem. Lopo Gonçalves Bastos nasceu na freguesia de São Miguel de Gêmeos de Bastos, arcebispado de Braga, em Portugal, em 1800. Depois de se transferir para o Brasil, aqui na Cidade Baixa ele manteve produção de verduras e frutas e muitas pessoas escravizadas. Eles ocupavam a parte térrea da casa, as tais de senzalas.

O local também servia como uma casa de veraneio para a família em períodos mais calorentos. Lopo Gonçalves Bastos era comerciante na Praça da Alfândega, uma loja de secos e molhados, outra de tecidos, no piso inferior do sobrado onde, de fato, morava, na rua da Praia, e algumas embarcações em sociedade com seu sogro. Foi vereador em dois mandatos eletivos, de 1833 a 1836 e de 1845 a 1849. E também provedor da Santa Casa de Misericórdia e fundador do Banco da Província do Rio Grande do Sul (1858). Dono de um dos maiores patrimônios da sociedade porto-alegrense, morreu em 7 de novembro de 1872.

A visão de quem vai ao endereço é a imponência do prédio, construído entre 1845 e 1855, pela família portuguesa Gonçalves Bastos
A visão de quem vai ao endereço é a imponência do prédio, construído entre 1845 e 1855, pela família portuguesa Gonçalves Bastos | Crédito: Clarissa Londero

A chácara localizava-se na Várzea, planície alagadiça que se estendia da atual Praça Argentina até a avenida Venâncio Aires. Situava-se em frente à rua da Olaria – atual rua General Lima e Silva – medindo 90m de frente, 91m de fundos, com 560m de extensão até o potreiro (proximidades da rua José do Patrocínio).  O solar foi construído com porão alto e acesso principal pela escadaria lateral.

As mudanças foram ocorrendo com o tempo. Em 1946, o solar foi adquirido para servir de instalação de parte de fábrica de velas do empresário e político Albano José Volkmer. Nessa época, fica conhecido como Casa da Magnólia, em razão da árvore centenária que ainda hoje está no jardim.

Em 1966, o Serviço de Assistência e Seguro Social dos Economiários (Sasse) adquiriu o Solar para construir um núcleo residencial para seus associados.

Para tanto, solicitou à Prefeitura a demolição do Solar e abertura de logradouro, que dividiria a propriedade, o que foi indeferido pelo Conselho do Plano Diretor e Divisão de Urbanismo por causa do excesso de área construída e por considerarem inviável e onerosa a abertura do logradouro.

Entre a arquitetura colonial e a neoclássica

A diretora e gestora do museu, Beth Corbetta, faz roteiros frequentes com quem vai ao local – visitantes avulsos, estudantes, pesquisadores, historiadores e turistas
A diretora e gestora do museu, Beth Corbetta, faz roteiros frequentes com quem vai ao local – visitantes avulsos, estudantes, pesquisadores, historiadores e turistas | Crédito: Clarissa Londero

Em 1979, foi realizada a permuta do solar entre Prefeitura e Iapas (extinto Sasse). Em 1980, são realizadas obras de restauração do solar, que é inaugurado em 1982, e para lá se transfere o Museu de Porto Alegre Joaquim José Felizardo (1932–1992), um defensor da história local, da amizade e da solidariedade, como valores humanos, professor e escritor e um dos criadores da Secretaria Municipal de Cultura nos anos 1980.

A diretora e gestora do museu, Beth Corbetta, faz roteiros frequentes com quem vai ao local – visitantes avulsos, estudantes, pesquisadores, historiadores e turistas. A recepção já conta a história do solar e da família Lopo Gonçalves. No local, é mantido, com todo cuidado da equipe de  servidoras**, todas mulheres, um acervo especial da memória e história da cidade por meio da preservação, pesquisa e comunicação de três importantes itens: o acervo tridimensional, o iconográfico e o arqueológico. Por onde se caminha por ali há obras em andamento em função das enchentes de 2024, maior que os estragos de 1941, segundo ela.

As obras caminham em ritmo lento. O Projeto de Restauração e Revitalização recebe recursos de várias frentes – federais, estaduais, municipais e privados
As obras caminham em ritmo lento. O Projeto de Restauração e Revitalização recebe recursos de várias frentes – federais, estaduais, municipais e privados | Crédito: Clarissa Londero

Há também o torreão, ou sótão, onde há peças do acervo. O torreão é uma torre de edifícios imponentes, fortalezas e castelos. Geralmente situada nos ângulos ou no topo de uma construção, serve como ponto de defesa, mirante ou elemento de destaque. Elementos marcantes em construções da cidade, como o torreão de esquina do Edifício Tuyuti ou a estrutura preservada do museu, relembra Beth.

As obras caminham em ritmo lento. O Projeto de Restauração e Revitalização recebe recursos de várias frentes – federais, estaduais, municipais e privados. O dinheiro chega, mas não na velocidade necessária.

Os seus jardins continuam acolhendo a comunidade diariamente e nos eventos culturais, artísticos e de economia criativa
Os seus jardins continuam acolhendo a comunidade diariamente e nos eventos culturais, artísticos e de economia criativa | Crédito: Clarissa Londero

O sobrado de porão alto, representativo do estilo de transição entre a arquitetura colonial e a arquitetura neoclássica, voltará a ser um espaço vivo e dinâmico, com muita gente por ali depois que estiver totalmente concluído, e poderá realizar exposições de longa e curta duração, além de diversas atividades culturais e de educação patrimonial.

Os seus jardins continuam acolhendo a comunidade diariamente e nos eventos culturais, artísticos e de economia criativa, quase sempre programados para os finais de semana. O museu está vinculado à Diretoria de Patrimônio e Memória da Secretaria Municipal de Cultura de Porto Alegre.

Acervo é mantido com cuidados especiais

O acervo arqueológico foi o setor do museu mais atingido nas enchentes de 2024, em função da sua localização, no subsolo
O acervo arqueológico foi o setor do museu mais atingido nas enchentes de 2024, em função da sua localização, no subsolo | Crédito: Clarissa Londero

O acervo tridimensional tem, por exemplo, mais de 1.300 objetos dos séculos 19 e 20, de diferentes épocas e materialidades, e foi constituído a partir de doações de setores da Prefeitura e de coleções particulares. São 19 coleções, com destaque para o acervo de Carnaval (onde se encontram peças de vestuário e adereços do primeiro Rei Momo de Porto Alegre, Vicente Rao) e o acervo da Banda Municipal (composto por instrumentos musicais, uniformes e partituras).

O iconográfico possui 10 mil imagens de Porto Alegre dos séculos 19 e 20. São registros de diferentes aspectos da cidade ao longo do tempo, contando com fotografias de profissionais e estúdios famosos, como Virgílio Calegari, Sioma Breitman, Irmãos Ferrari e Studio Os2. O museu também guarda uma coleção com mais de 400 cartões postais das primeiras décadas do século 20.

Corbetta revela que o acervo arqueológico foi o setor do museu mais atingido nas enchentes de 2024, em função da sua localização, no subsolo, ou andar térreo, como ela diz. O acervo conta com mais de 350 mil itens, entre fragmentos e objetos, resgatados de 91 sítios arqueológicos registrados dentro de Porto Alegre. A coleção abarca um recorte temporal que vai desde a ocupação indígena pré-colonial até sítios ocupados entre os séculos 18 e 20 e é constituída por material cerâmico, lítico, ósseo, entre outros.

O local da arqueologia teve o seu andar térreo inundado com quase um metro de água e foi estudado por seis meses por alunos e professores
O local da arqueologia teve o seu andar térreo inundado com quase um metro de água e foi estudado por seis meses por alunos e professores | Crédito: Clarissa Londero

Lá trabalham mãe e filha, duas arqueólogas conservadoras, denominação dada a uma área especializada da arqueologia que foca na preservação, estabilização e tratamento de artefatos e sítios, garantindo que o material coletado seja mantido para estudos futuros e exposição. As conservadoras atuam desde a escavação (campo) até o armazenamento em museus ou reservas técnicas. Sem nenhum custo para os contribuintes, a Universidade Federal do Rio Grande do Sul (Ufrgs) resolveu também colocar a mão na massa no local e colaborar com as museólogas da instituição logo depois da enchente, ao lado de duas profissionais contratadas pela Prefeitura.

O local da arqueologia teve o seu andar térreo inundado com quase um metro de água e foi estudado por seis meses por alunos e professores, comandados por Jeniffer Cuty e Matheus Pereira da disciplina de Tópicos Especiais em Preservação. O estudo da Ufrgs foi realizado e virou até tese de mestrado/doutorado. “Eles fizeram uma verdadeira ecografia das paredes”, relata Corbetta.

Quem visita o local vê marcas na parede e pequenos quadrados marcados com fita isolante para estudos dos fungos que permaneceram nas paredes e uma advertência para não tocar ou passar o dedo. O repórter, curioso, não resistiu e tentou passar o dedo, mas tirou a tempo para não causar estragos. A gestora alertou que os estudos continuam para analisar cientificamente os fungos – organismos vivos pertencentes ao próprio reino (Reino Fungi), que incluem seres como cogumelos, leveduras e mofos.

Tudo de novo depois das águas

“A reabertura será completa. Estamos animados e cheios de coisas boas para fazer acontecer. Afinal história, memória e conhecimento são fundamentais na vida de um museu", afirma a diretora Beth Corbetta
“A reabertura será completa. Estamos animados e cheios de coisas boas para fazer acontecer. Afinal história, memória e conhecimento são fundamentais na vida de um museu”, afirma a diretora Beth Corbetta | Crédito: Clarissa Londero

Para a diretora, o futuro – não muito distante – terá novamente exposições coletivas. “A reabertura será completa. Estamos animados e cheios de coisas boas para fazer acontecer. Afinal história, memória e conhecimento são fundamentais na vida de um museu. Teremos até um novo anexo, ao lado do solar, com terreno já comprado para novas atrações”, diz ela. “Sou apaixonada por este solar, por toda a dinâmica que existe aqui e que vai voltar pleno depois que tudo estiver reconstruído. Já se passaram dois anos da enchente, já andamos muito, mas ainda tem muita coisa para avançar.”

Corbetta trabalhou anteriormente na antiga TV Guaíba (hoje Record), TVE-RS, Assembleia Legislativa, em várias empresas e secretarias estatais e particulares. É formada em Letras e Jornalismo pela PUCRS. Fez cursos de aprimoramento na Suécia e Dinamarca.

Serviço para visitantes

Endereço: Rua João Alfredo, 582, Bairro: Cidade Baixa, Porto Alegre/ RS, CEP 90050-230.

Telefone: (51) 3289-8275.

E-mail: [email protected]

Redes sociais: Facebook http://www.facebook.com/museudepoa/ e Instagram https://www.instagram.com/museudepoa

Visita ao jardim: de segunda à sexta-feira, das 9h às 17h30.

Pesquisas no acervo: por agendamento pelo e-mail [email protected].

Realização de atividades e eventos no pátio: Informações e agendamento pelo e-mail: [email protected].

Serviços oferecidos: consulta on-line, sala de pesquisa e visita guiada.

Acesso: permitido, não há restrição.

* A Companhia Carris Porto-Alegrense foi fundada em 19 de junho de 1872, com a autorização do Imperador Dom Pedro II. Era uma das empresas de transporte público mais antigas do Brasil e da América Latina, tendo iniciado suas operações com bondes de tração animal (mulas), migrando para bondes elétricos em 1908 e, a partir de 1970, passou a operar apenas com ônibus. Foi privatizada em 2023, sendo arrematada pela Empresa de Transporte Coletivo Viamão por R$ 109,9 milhões.

** Equipe do museu: Beth Corbetta (diretora, gestora), Ana Arce (historiadora), Karina Santos (arquivista), Luciana Oliveira de Brito (museóloga), Márcia Bamberg (socióloga, especialista em Acessibilidade), Amanda Medeiros Oliveira (assistente administrativo).

Editado por: Katia Marko

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