Novas tecnologias

A inteligência artificial vai remodelar a essência do jornalismo, diz professora da Universidade de São Petersburgo

Para Kamilla Nigmatullina, a IA pode criar padrões éticos de produção de informação que valorizem as comunidades locais

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Kamilla Nigmatullina, do Departamento de Comunicação Digital da Universidade de São Petersburgo, falou sobre os desafios e oportunidades da inteligência artificial para o jornalismo no Sul Global | Crédito: Fórum Acadêmico do Sul Global

O avanço da inteligência artificial (IA) nas redações é um desafio e uma oportunidade para os países do Sul Global, incluindo os Brics, analisou a professora e chefe do Departamento de Comunicação Digital da Universidade de São Petersburgo, Kamilla Nigmatullina, durante o painel “Soberania digital e desenvolvimento pacífico da inteligência artificial no Sul Global”, realizado no 3º Fórum Acadêmico do Sul Global, que reuniu mais de 30 países em Xangai, nos dias 13 e 14 de novembro.

Especialista em inteligência artificial, Nigmatullina afirma que a IA vai remodelar a forma de fazer jornalismo e medir seu impacto, mas aponta que a nova ferramenta pode fortalecer a autonomia tecnológica, reduzir a dependência de plataformas estrangeiras e criar padrões éticos de produção de informação que valorizem as comunidades locais. Participaram pesquisadores e líderes de Ásia, África e América Latina, discutindo experiências e estratégias para garantir que a tecnologia sirva aos interesses do Sul Global.

Durante sua apresentação, Kamilla destacou também que a adoção da inteligência artificial deve atender às necessidades das comunidades locais. Ela enfatizou que a implementação da tecnologia precisa ser estratégica, com regras e algoritmos que orientem a inovação nos veículos de mídia, considerando também os efeitos sobre a confiança, fidelidade e engajamento do público, temas centrais que aprofundou na entrevista exclusiva. Leia abaixo:

Brasil de Fato – Qual a importância do debate deste painel para os países do Sul Global e, em especial, para os Brics? Como ele pode ajudar na colaboração entre as nações?

Kamilla Nigmatullina – É minha primeira vez na China e, para mim, é um grande prazer discutir questões relevantes para o Sul Global aqui em Xangai. Este fórum é mais do que um evento, é quase um think tank para todos os países do BRICS e para aqueles que querem se unir a essas discussões.

O painel no qual participei funcionou como um pequeno think tank sobre inteligência artificial em comunicação. Quando falamos sobre os Brics, ainda existem lacunas na comunicação entre os países, não apenas em termos de idioma, mas na própria forma de se comunicar. Como podemos discutir nossos problemas, necessidades e questões de maneira eficiente?

O ponto que nos uniu hoje foi a adoção da IA nas redações, um desafio comum e uma perspectiva compartilhada por todos os veículos do Sul Global. Compartilhei parte da pesquisa que realizamos na Universidade de São Petersburgo, tentando identificar padrões nessa adoção. É possível encontrar maneiras comuns de usar IA nas redações? Podemos formular regras e algoritmos para introduzir inovações nos nossos veículos de forma segura e eficaz?

Vejo que essa questão é extremamente relevante para todos os países do Brics e para aqueles que têm relações amistosas com o grupo. Em São Petersburgo, temos um filial de Brics TV e colaboramos com eles. Acho que este fórum global é um bom ponto de partida. Meus colegas já participaram em edições anteriores, e espero que possamos ampliar nossa presença aqui em Xangai.

Como a inteligência artificial está ajudando o jornalismo hoje, e como você vê sua transformação no setor em países como a Rússia e outras nações do Brics? Qual impacto isso pode ter na confiança do público, fidelidade e engajamento com a mídia?

A inteligência artificial já está me ajudando aqui no fórum, porque quando algumas pessoas não falam inglês, usamos intérpretes de IA, que funcionam de forma rápida, prática e confortável para todos. Mas, falando sério, a IA hoje não é apenas uma nova ferramenta de comunicação, é um desafio que vai remodelar a essência do jornalismo.

O que muda, de fato, é como valorizamos, processamos e entregamos a informação, e como medimos os efeitos da comunicação. Por exemplo, na Rússia, o público, consciente ou não do uso da IA nas redações, não distingue entre conteúdo gerado por humanos ou por inteligência artificial. Recentemente, o governo russo introduziu a ideia de marcar conteúdos gerados por IA, com indicações técnicas especiais. Vamos observar como isso impacta a confiança, a fidelidade e o engajamento do público.

É um grande experimento no campo da comunicação, e acredito que seja relevante para todos os países do Brics. A IA influencia diretamente a confiança das pessoas, sua fidelidade às mídias e o tempo que dedicam ao consumo de conteúdo.

Cerca de 30 países participam do evento que discute diversos aspectos dos desafios do Sul Global | Crédito: Fórum Acadêmico do Sul Global

Editado por: Luís Indriunas

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