Mais de três décadas após o colapso da Iugoslávia, os países que resultaram de sua fragmentação enfrentam uma nova forma de dependência. Se durante a Guerra Fria o país era um dos que estava à frente do Movimento dos Não Alinhados e mantinha autonomia estratégica entre os blocos, hoje suas ex-repúblicas seguem políticas externas determinadas por Washington e Bruxelas, muitas vezes contra seus próprios interesses nacionais. A adesão à Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) e a aproximação com a União Europeia trouxeram não a prosperidade prometida, mas militarização, empobrecimento e perda de soberania.
Essa é a análise de Biljana Vankovska, professora da Faculdade de Filosofia da Universidade São Cirilo e Metódio, na Macedônia do Norte. Especialista em relações internacionais e política de defesa, Vankovska participou do Fórum Acadêmico do Sul Global realizado na China, integrando o painel “Além da Guerra Fria: O sistema de Yalta, as Nações Unidas e a ordem internacional do pós-guerra”. O evento reuniu acadêmicos de diversos países para debater alternativas à ordem internacional em crise e os caminhos para uma multipolaridade mais justa.
Em entrevista ao Brasil de Fato, a professora destaca como a Macedônia do Norte, um dos países mais empobrecidos da Iugoslávia, comprometeu-se a destinar 5% de seu PIB para equipamento militar como membro da Otan, enquanto segue a política de segurança e defesa da União Europeia que prioriza o rearmamento do continente. “Estamos nos militarizando e seguindo essa escalada de construção do complexo industrial-militar, sem contribuir para a paz no continente”, afirma.
Vankovska relata também um crescente sentimento de nostalgia em relação ao período socialista entre as populações da região, incluídos aqueles que antes apoiavam a dissolução da Iugoslávia. Pesquisas realizadas nos países da ex-Iugoslávia mostram que a maioria da população acredita que a vida era melhor no período socialista: uma enquete do Gallup de 2016 mostrou, por exemplo, que 81% dos sérvios, 77% dos bósnios e 61% dos macedônios consideram que a dissolução da Iugoslávia prejudicou seus países. A promessa de bem-estar europeu revelou-se uma ilusão, gerando profunda decepção. “Mesmo as repúblicas do norte, mais desenvolvidas, que queriam sair da Iugoslávia, agora se arrependem”, observa.
A acadêmica defende que o modelo chinês de desenvolvimento oferece lições importantes para o Sul Global, destacando a estratégia de longo prazo, o foco na erradicação da pobreza e a construção de uma sociedade pacífica. Para ela, a China representa a prova de que o socialismo permanece viável através do trabalho árduo e planejamento consistente, contrariando a narrativa ocidental que busca desacreditar alternativas ao capitalismo liberal.
Confira a entrevista na íntegra a seguir:
Brasil de Fato – Na sua apresentação você afirmou que os países da ex-Iugoslávia não têm mais política externa própria, que ela é determinada por Washington e Bruxelas. Pode falar mais sobre essa realidade?
Biljana Vankovska – É interessante observar que os países da antiga Iugoslávia, agora Estados independentes, não são tão independentes quanto acreditam, especialmente no campo da política externa. Poderia se argumentar que isso faz parte da adesão à Otan e depois à União Europeia, que há demandas de alinhamento de políticas e trabalho conjunto. Mas existe um sentimento muito forte, e casos muito concretos, de quando esses países trabalham contra seus próprios interesses nacionais, e para ser mais precisa, contra os interesses de seu próprio povo, a fim de agradar seus mestres, seja em Bruxelas ou, claro, em Washington.
Sabemos agora que até mesmo a União Europeia não é independente em sua política, então há uma nova forma de dependência. Digo nova forma porque na antiga Iugoslávia, quando era um único Estado, o país liderava o Movimento dos Não Alinhados. De repente, ou melhor, ao longo de três décadas e meia, lentamente esses países foram perdendo sua soberania, sua capacidade de pensar por si mesmos e de negociar entre diferentes poderes, e ainda pagam um preço muito alto, o preço mais alto, na minha opinião.
Venho da Macedônia, que é uma das ex-repúblicas mais pobres da Iugoslávia. Como membro da Otan, concordamos em destinar 5% do nosso PIB para equipamento militar. Mas também estamos seguindo a política de segurança e defesa da União Europeia, o que significa seguir a ideia de Ursula von der Leyen de rearmar a Europa. Para resumir, estamos nos militarizando e seguindo essa escalada de construção do complexo industrial-militar, e também não fazendo nada de bom pela paz no continente, porque a União Europeia e Washington não estão trabalhando por uma paz real na Ucrânia, sem mencionar Gaza. Somos cúmplices nesse sentido, às nossas próprias custas.
Pesquisas mostram que uma quantidade significativa de pessoas dos países da ex-Iugoslávia, dependendo, claro, do país, idade e etnia, tem uma avaliação positiva sobre o período socialista. Como você analisa isso?
Sim, as pessoas da antiga Iugoslávia falam cada vez mais sobre isso, até mesmo aqueles que estavam envolvidos nesse jogo de sucessão da Iugoslávia. Falo especialmente das repúblicas do norte, mais desenvolvidas, que queriam sair da Iugoslávia e agora se arrependem, porque o sonho de bem-estar da Europa como uma Terra Prometida, como um Éden na Terra, está simplesmente desmoronando.
Há uma enorme decepção entre o que foi prometido e qual é a realidade. E claro, agora, 35 anos depois, é muito difícil começar com uma política de esquerda ou extrema esquerda, porque os mentores de Washington e dos Bálcãs não permitiriam isso. As gerações jovens estão até aprendendo através de processos informais que a vida na verdade não existe. Mesmo se você perguntar às pessoas o que elas gostariam, que tipo de vida gostariam, se apoiariam o complexo industrial-militar ou serviços sociais, saúde, educação, qualquer coisa de que precisem, a resposta é clara. Mas elas perderam sua liberdade de escolher.
E o que mais me machuca como professora, como acadêmica, é que não somos nem mesmo autorizados a imaginar um futuro diferente. Eles dizem, do topo, de Bruxelas, “vocês são europeus em potencial, ainda não são bons o suficiente para fazer parte de nós, mas ainda assim vocês têm que fazer como dizemos, mesmo que isso seja contra nossos próprios interesses”. Então, na minha visão de extrema esquerda, tenho que ser honesta, temos que começar a construir esse mundo, e há forças para isso. Não devemos ser muito pessimistas. Citando Antonio Gramsci, posso ser pessimista por causa da minha mente, mas sou otimista por causa da força da vontade. Temos que lutar por um futuro melhor.
Você disse que o Sul Global deveria prestar mais atenção à China. Em quais aspectos?
Na minha visão, a China neste momento é provavelmente o melhor caso do qual podemos aprender. Como saíram da pobreza e da perda de dignidade da nação, sofreram muito, mas aprenderam com seu passado. São pessoas trabalhadoras, não esperam luxo e uma vida fácil como no Ocidente.
No Ocidente, tudo é como fast food: satisfação rápida, comida rápida, educação rápida, tudo é rápido. Essas pessoas são sábias, trabalham a longo prazo. Estão fazendo um plano quinquenal pela 15ª vez, isso significa estratégia, significa visão, significa trabalhar constantemente. E a questão da erradicação da pobreza, isso é o que Gandhi costumava dizer: a pior forma de violência é a pobreza. Se a China está trabalhando nisso e tendo bons resultados, não, excelentes, maravilhosos resultados, significa que é uma base para uma sociedade pacífica.
Esse é meu ponto básico, conectar os efeitos sociais das políticas e a natureza pacífica da sociedade. Um país pacífico não pode ser um hegemon, não pode ser alguém de quem você teme, que irá dominar a todos nós. Por isso acho que até agora temos um exemplo muito bom na China, e algo que vai manter a esperança de que o socialismo é possível a longo prazo através do trabalho duro. O socialismo não é algo ruim, apenas o Ocidente insiste em dizer isso.
Qual a importância de termos pensadores em sua grande maioria do Sul Global debatendo estes assuntos, especialmente aqui na China?
Não sei como me definir formalmente. Venho do Ocidente porque meu país infelizmente faz parte da Otan, mas vou te contar pela minha própria experiência: há cada vez menos conferências, fóruns, lugares onde pessoas de diferentes partes do mundo possam se encontrar naquele lado do planeta. Precisamos de lugares como a China e a Rússia – estive na conferência de Valdai há algumas semanas–, que estejam abertos para ouvir vozes diferentes, países diferentes. Se falamos sobre um futuro compartilhado para a humanidade, vamos nos ver, vamos conversar uns com os outros. Talvez concordemos ou discordemos sobre coisas, mas é muito importante que tenhamos diálogo.
Aqui temos diálogo, e aqui não há autocensura. No Ocidente há censura. Eu sou cancelada, você não pode me ver, nem na mídia nacional, regional ou ocidental, porque o que eu digo não se encaixa em sua narrativa. Aqui combinamos narrativas, aprendemos uns com os outros. Acho isso muito importante. Eu aprendi muito aqui, e estou voltando para casa mais rica em muitas ideias novas e coisas que eu não sabia sobre o passado ou sobre o futuro. É um processo de aprendizado de mão dupla, não é alguém pregando história ou futuro. Aqui combinamos nossas experiências.
